sábado, 21 de janeiro de 2017

Aluna do Atheneu irá representar Sergipe no Uruguai


Aluna do Atheneu irá representar Sergipe no Uruguai durante o encontro do Parlamento Juvenil do Mercosul.

"Sou do interior de Sergipe, não tinha muita perspectiva e não imaginava viajar para fora do meu Estado. Sempre estudei em escolas da rede pública, meus pais me mostraram que somente por meio do conhecimento é possível transformar qualquer realidade para melhor". Reconhece a aluna do 2° ano do ensino médio do Colégio Estadual Atheneu Sergipense, Isla Dayane Andrade Santos.

A estudante representou Sergipe no Parlamento Juvenil do Mercosul. O encontro aconteceu em Brasília, no período de 12 a 16 de dezembro. No mês de março deste ano, Isla Dayane viajará para Montevidéu, no Uruguai, para elaborar juntamente com os estudantes de outros países da América Latina a declaração do Parlamento.

A discente comenta que participar do Parlamento Juvenil é uma experiência enriquecedora. "Em Brasília foram apresentadas e discutidas com os 27 membros - um de cada estado do país - as políticas públicas que colaboraram para a melhoria na qualidade do ensino do Brasil. Foi surpreendente perceber a quantidade de jovens preocupados com a educação", relembra.

Aprovação para o Parlamento Juvenil do Mercosul

Isla Dayane teve o projeto intitulado Direitos Humanos e Cidadania: Aprender para exercer, aprovado pelo Ministério da Educação e Cultura. Dessa maneira, a jovem foi a representante do estado para participar das atividades nacionais e internacionais no mandato de 2016 a 2018 no Programa do Parlamento Juvenil do Mercosul.

A estudante destaca que sempre gostou de se envolver em questões sociais. Além disso, ela procura conhecer um pouco mais a respeito das temáticas que envolvem direitos humanos, participação cidadã e a atuação dos jovens.

"O estudo inicial apresentou como objetivo mostrar e discutir com os colegas a declaração dos Direitos Humanos. Pretendo realizar um projeto no Colégio Estadual Atheneu Sergipense, com o público adolescente, e que futuramente possa ser implantado na minha cidade natal, Malhada dos Bois, com o público infantil", explica.

Incentivo da família e professores

A jovem reconhece que o apoio dos pais e a orientação do professor de filosofia Denilson Melo foram primordiais para a elaboração da proposta.

O projeto conta com a orientação do professor de filosofia, Denilson Melo. Para ele, a estudante demostra um interesse pelos estudos e aptidão para atuar em ações que envolvem o protagonismo juvenil.

"Fico muito feliz com o alcance desse projeto, primeiramente porque foi um assunto discutido em sala de aula. Por meio da filosofia, é possível fazer uma mudança para melhor. Isla Dayane não se detém somente a analisar os Direitos humanos, mas se preocupa em vivenciá-lo na sociedade", observa.

Segundo o diretor, Daniel Lemos, o estudo da aluna é reflexo de um trabalho de construção que envolve toda a equipe docente e diretiva do colégio. Além disso, programas como o Parlamento Juvenil do Mercosul colaboram para que o estudante seja mais engajado dentro do universo escolar.

"Os professores buscam a integração dos alunos apresentando conteúdos atualizados, capacitando-os para solucionar problemas a partir dos conhecimentos obtidos em sala de aula", ressalta.

Parlamento Juvenil do Mercosul

O Parlamento Juvenil do Mercosul é um programa do MEC, realizado por meio da Assessoria Internacional e da Secretaria de Educação Básica, do Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (CONIF), das instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, além das Secretarias Estaduais de Educação de todo o Brasil e do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed).

A iniciativa busca promover o protagonismo juvenil, contribuindo para a integração dos jovens parlamentares, que, após discussões conjuntas, acordam e recomendam a adoção de políticas educativas que promovam uma cidadania regional e uma cultura de paz e respeito à democracia, aos direitos humanos e ao meio ambiente.

Requisitos para ser um Parlamentar

O jovem que sonha em ser um parlamentar deve ser estudante de escola pública matriculado e frequentando regularmente o 1º ou 2º ano do ensino médio ou ensino técnico integrado ao ensino médio em escolas públicas da rede estadual ou federal. É necessário que tenha boa atuação escolar, são considerados a frequência, conduta e rendimento. Ele precisa também adaptar-se facilmente à convivência com jovens de diferentes culturas e crenças religiosas; ter disponibilidade e autorização dos pais para realizar viagens nacionais e internacionais, todas acompanhadas pelos representantes do MEC.

Texto e imagem reproduzidos do site: clicksergipe.com.br

João Firmino Cabral (1940 – 2013)

Foto postada por MTéSERGIPE. a fim de ilustrar a presente biografia.
João Firmino vende seu trabalho no mercado municipal.
Foto: Silvio Rocha.

Publicado originalmente no blog Memórias da Poesia Popular,
em 3 de dezembro de 2014.

João Firmino Cabral (01/011940 – 01/02/2013)

No primeiro dia de janeiro de 1940, nasce João Firmino Cabral em Itabaiana, Sergipe. Filho de Pedro Firmino Cabral (cantador de feira e embolador) e Tercília da Conceição (roceira). Seu pai foi repentista e sustentou a família cantando embolada nas feiras de Itabaiana/SE, Pernambuco, Paraíba e Ceará. Morreu quando o filho contava com 11 anos de idade e, João Firmino passou a ser criado pelo repentista Manoel de Almeida Filho, um nome de destaque na literatura de cordel em Sergipe e no Brasil. Aos 14 anos de idade já estava vendendo os clássicos livretos de literatura de cordel de autoria de Manoel de Almeida, onde o cordelista instalava seu pequeno serviço de alto-falante na proximidade do relógio do Mercado Antônio Franco e ficava cantado suas obras. No mesmo local, outros poetas da época marcavam presença na área na venda de seus trabalhos, a exemplo de Pedro Armando dos Santos, falecido há mais de 30 anos, Genésio Gonçalves de Jesus, José Aristides e outros.

Aos 16 anos, após pedir consentimento a Manoel de Almeida, parte para a cidade de Alagoinhas, na Bahia, para vender folhetos da literatura de cordel, onde aluga um pequeno quarto e, ao retornar, resolve fazer seus folhetos.

O título do seu primeiro folheto impresso na cidade de Alagoinha, na Tipografia Comunista Vanguarda, foi “As bravuras de Miguel o valente sem igual”. Como não sabia como era o processo de impressão, recebeu a ajuda de um dono da gráfica que fez uso de um clichê já utilizado em outra impressão para ilustrar a capa do folheto. No livro havia mais erros ortográficos do que acertos; mesmo assim, vendeu bem seu trabalho na cidade baiana.

Tem como segundo folheto “A Profecia Sagrada do Padre Cícero Romão” e, para desenvolver o trabalho poético, fez uso das muitas histórias que sua avó e sua mãe contavam sobre o padre. O livro foi revisado e impresso em Aracaju, precisamente, na então Tipografia J. Andrade, hoje uma das mais qualificadas gráficas de Sergipe.

Em Aracaju, viveu exclusivamente da literatura de cordel e manteve a única banca fixa de folhetos cordelianos de Sergipe, localizada na Passarela das Flores do Mercado Antônio Franco, onde frequentemente recebia com carinho poetas sergipanos e de outros Estados, como também estudantes, professores, pesquisadores e turistas do Brasil e do mundo. Já escreveu diversos folhetos educativos a pedido de escolas e entidades públicas e privadas.

Com sua literatura de cordel, percorreu quase todas as cidades do Nordeste. Publicou 450 títulos em literatura de cordel, um número expressivo que mostra, de fato, seu valor na literatura de cordel no Brasil. Faleceu em 01 de fevereiro de 2013.

FONTES DE CONSULTA

ALCOFORADO, Doralice F. Xavier. A estratégia discursiva do cordel prosificado. Disponível em: <http://www.uel.br/revistas/boitata/volume-1-2006/artigo%20Dora.pdf.>. Acesso em: 29 jul. 2014.

DONATO, Hernany. Literatura popular sergipana: o exemplo da moça que dançou o lambadão no inferno. Revista Forum Identidades, v. 6, n. 3, p. 163-176, jul./dez. 2009.

L. FILHO, Severino Alves de. Folkmarketing: uma estratégia comunicacional construtora de discurso. Disponível em:<http://www.eventos.uepg.br/ojs2_revistas/index.php?journal=folkcom&page=article&op=viewFile&path%5B%5D=641&path%5B%5D=468>. Acesso em: 29 jul. 2014.

MEDEIROS, Antonio Heleonarde Dantas de; HOLANDA, Virgínia Célia Cavalcante de. Elos possíveis entre o ensino de geografia e a literatura de cordel. Revista Homem, Espaço e Tempo, p. 96-113, set. 2008.

MEDEIROS, Antonio Heleonarde Dantas de; HOLANDA, Virgínia Célia Cavalcante de. Geografia e literatura de cordel: trilhando práticas e possibilidades em sala de aula. Caminhos de Geografia Uberlândia, v. 9, n. 28, p. 134-145, dez. 2008.

MENDES, Sandileuza Pereira da Silva. A mulher na poesia de cordel de Leandro Gomes de Barros. 2009. 123 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciências Humanas e Naturais, Vitória, 2009.

OSMARIO SANTOS. A vida de João Firmino Cabral. Disponível em:<http://www.osmario.com.br/ler.asp?id=18007&titulo=memorias>. Acesso em: 20 nov. 2014.

SILVA, Aline Lisboa da; FELIZOLA, Matheus Pereira Mattos. Comunicação e políticas públicas: um estudo de caso sobre a literatura de cordel em Sergipe. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 32., 2013, Curitiba. Anais… Curitiba: Intercom, 2009.

SILVA, Raymundo José da. Bandido e herói: o vingador do sertanejo no folheto de Cordel. Cadernos do IL, Porto Alegre, n. 45, p. 175-190, dez. 2012.

Texto reproduzido do blog:
memoriasdapoesiapopular.wordpress.com

Cordel conquista pela rima e ensina com diversão

 Chiquinho do Além Mar mostra com orgulho sua vasta produção.
Foto: Alejandro Zambrana.

João Firmino vende seu trabalho no mercado municipal.
Foto: Silvio Rocha.

Publicado originalmente no site da PMA, em 22/06/11.

Cordel conquista pela rima e ensina com diversão
Por Gilmara Costa

"Prá começar, preciso contar// Do trabalho que deu, essa matéria escrevinhar// Foram dias difíceis para criar// Um texto à altura de João Firmino e Chiquinho Além Mar". Distante desse cordel genérico, o original prima pela presença de palavras metricamente aglomeradas, frases devidamente rimadas e grande criatividade na narração de fatos históricos e atualidades. São esses os elementos da sonora composição que revela um mundo encantado e prende a atenção até dos mais dispersos leitores. Este ano, as historinhas em preto e branco são o tema da 18ª edição Forró Caju, cujo jingle veiculado na televisão e rádio tem conquistado muita gente e despertado a curiosidade de outras tantas pessoas sobre o cordel.

Aqui em Sergipe, a arte é produzida com maestria pelos cordelistas João Firmino e Chiquinho Além Mar, personagens fundamentais da cultura popular no Estado. Das engraçadas estórias amorosas ao resgate de fatos históricos da terra Serigy, os textos são ótimas opções de diversão e aprendizado. Tudo produzido com muito esmero e muitas vezes com a linguagem tal qual a pronúncia comum de algumas palavras pelo povo nordestino.

"Às vezes para dar a rima no cordel fazemos uso da forma como as pessoas falam. Alguns não compreendem, mas é preciso lembrar que o cordel é uma poesia falada, popular, e nada melhor do transferirmos isso para o papel. A literatura de cordel é uma grande fonte de educação. Tenho obras como a Invasão Holandesa, que conta a chegada dos holandeses aqui em Sergipe, uma obra que, de forma didática, conta a nossa história e hoje é utilizada nas escolas. É muito gratificante ver ações como essa, pois os alunos conhecem a história do seu Estado e também tem acesso à literatura de cordel", afirma Chiquinho Além Mar.

Em total convergência de opinião, João Firmino (falecido em 2013) revela uma de suas mágicas experiências em escolas. "Fiquei muito feliz quando fui à escola Oviêdo Teixeira, no bairro São Carlos. O que era para ser uma palestra apenas para uma sala se transformou num grande evento com todos os alunos na escola. Contei a eles a história do cordel, e muitos ficaram encantados com a literatura. A receptividade foi tamanha e a curiosidade pela literatura foi tão grande que vendi inúmeros cordéis por lá. Foi uma experiência surpreendente", contou.

Causos

Como não se divertir com a obra ‘O exemplo da moça que casou com o capeta', de João Firmino; e aprender um pouco da história de Sergipe com 'A Saga dos Guerreiros Tupinambás: a invasão portuguesa e a conquista de Sergipe em 1590', de autoria de Chiquinho Além Mar? Mas não somente estórias cultivadas na imaginação ou fatos históricos são temas dos causos contados em rima pelos cordelistas.

As manifestações populares, biografias e atualidades também fazem parte do amplo leque de assunto que vira cordel na 'cachola' de João Firmino e Chiquinho Além Mar. Este último, inclusive, agraciou a Prefeitura de Aracaju com um cordel sobre o Forró Caju. "São João é nossa tradição, é cultura popular, assim como o cordel. Fiz um em homenagem ao grande arraial na praça Hilton Lopes feito pela prefeitura que reconhece o trabalho do artista local e dedica a maior parte de sua programação a artistas sergipanos", disse Chiquinho.

Mercados

Antes fortemente presente nas feiras livres, onde barbantes e pregadores exibiam as mais recentes e famosas produções dos cordelistas, o cordel atualmente se restringe à venda em pequenas bancas, geralmente situadas em mercados. Isso graças à dedicação de outros cordelistas e amantes da cultura popular. Em Aracaju, o Mercado Municipal Antônio Franco é o ponto certo que procura o melhor do cordel sergipano e também de outros estados.

"Tenho aqui obras de grandes cordelistas do Ceará, hoje berço da literatura de cordel. Se foi o tempo da venda de cordel nas feiras, como antigamente. Na década de 60, o cordel estava na boca do povo. Naquela época eram os chamados folheteiros vendendo pelas cidades a literatura de cordel. Hoje a coisa mudou muito", afirmou João Firmino.

Modernidade

Já o cordelista Chiquinho Além Mar, numa tênue linha que separa o antigo do moderno, tem levado o seu trabalho às mídias sociais, publicando cordéis sobre fatos corriqueiros em sua página num site relacionamento. "Quando houve aquela chuva que Aracaju ficou inundada, fiz um cordel e postei. Milhares foram os comentários. Acho que é preciso haver essa adaptação para que as pessoas possam compreender e despertar o interesse pela nossa tradição de cordel. Foi também pensando nisso que passei a publicar minha obra em papel couché. Para atrair mais", explicou.

Leia o cordel de Chiquinho do Além Mar sobre o Forró Caju:

O Melhor São João do Mundo está em Aracaju.

A nossa festa é bonita
Transmite paz, segurança
Tem espaço pra criança
Pra todos que nos visita

O seu coração palpita
No meio da multidão,
Com forró, milho e quentão
Forró Caju no mercado
É sucesso consagrado
Das festas de São João...

O Forró Caju recebe
Gente de toda nação
Que vem pra nossa cidade
Pra curtir essa emoção:
Visitar Aracaju e
Dançar no Forró Caju
No dia de São João...

Tem forró a noite toda
É grande a programação
Num espaço aconchegante
Procure acomodação
Tem qualidade de vida,
Sussego, pinga e comida
E muita animação...

Chiquinho do Além Mar.

Texto e imagens reproduzidos do site: aracaju.se.gov.br

Amando Fontes e a sua contribuição para a cultura sergipana



Publicado originalmente no site Grande Aracaju, em 12/07/2012.

Amando Fontes e a sua contribuição para a cultura sergipana.

A literatura sergipana tem vários escritores importantes, desde poetas até os memorialistas, e que, inclusive, são conhecidos e respeitados no âmbito nacional. Destaca-se, aqui, o romancista Amando Fontes que produziu as obras “Os Corumbas”, publicado em 1933, e “Rua do Siriri”, que foi publicado em 1937. O autor nasceu em 15 de maio de 1899, na cidade de Santos, Estado de São Paulo; filho do farmacêutico Turíbio da Silveira Fontes e de Rosa do Nascimento Fontes. Logo, com o pai falecido, ele veio morar em Aracaju e ficou aos cuidados dos avós paternos, vivendo na Fazenda Aguiar e em Aracaju. Ele frequentou o Ateneu Sergipense; aos quinze anos trabalhou como revisor do Diário da Manhã (Aracaju); fez várias viagens pelo país; elegeu-se Deputado Federal (1946); enfim, ele faleceu em 01 de dezembro de 1967[1].

Apesar de ter nascido em Santos, ele pertence à literatura brasileira, principalmente pelo reconhecimento nacional das suas duas obras e por ter apoio da famosa (década de 1930) Editora José Olympio, e, faz parte da literatura sergipana, porque retrata a cultura e história dos aracajuanos, como as fábricas e os antigos cabarés. O seu espírito de escritor é uma formação da terra, ou seja, ele vivenciou e respirou a cultura sergipana. Segundo Jackson da Silva Lima, para fazer parte e ser considerado literário sergipano, um escritor deve ter uma formação cultural local e que se realizou desde os primeiros anos de vida, participando de movimentos e manifestações culturais. Em resumo: Amando Fontes não é sergipano de nascimento, mas de cultura; bem como divulgador da identidade de Sergipe[2].

Amando Fontes tem a característica do estilo que teve grande ênfase na década de trinta no cenário brasileiro: utiliza uma linguagem mais simples, os personagens são populares e oprimidos, e tenta mostrar mais veracidade nas suas obras. No “Os Corumbas”, o cotidiano dos personagens é inspirado nas fábricas que realmente existiriam em Aracaju, como também nas greves operárias, nas mortes dentro das fábricas e nos abusos dos industriais. Em “Rua do Siriri”, a narrativa começa com a indignação das prostitutas, pois tinham sido empurradas, pelo governo do Estado, para a famosa zona do Siriri – um lugar que realmente existiu[3].

O autor faz parte do chamado “Romance Industrial”, pois se refere a uma produção romanesca de 1930, que tem como foco a sociedade industrializada, mostrando o mundo subalterno, isto é, os temas mais polêmicos. Se junta a isso, o caráter de tentar, ao máximo, tornar a literatura mais verossímil com a sociedade do leitor – a ficção seria uma representação das questões sociais, políticas e econômicas[4].

Enfim, as obras de Amando Fontes ajudam a entender a antiga Aracaju e como as pessoas viviam, no início do século XX. Ao mostrar, através da literatura, um passado, que poderia ter ficado esquecido, ele entra para o quadro dos literários sergipanos.

Sobre o autor: Graduado em História (UFS), Especialização em andamento em Ensino de História: Novas Abordagens (FSLF), e recente aprovado no Mestrado em História (UFS). Pesquisa sobre a cultura operária sergipana. Email: wagneroficial@bol.com.br

[1] Para saber mais sobre a biografia de Amando Fontes, ver. FONTES, Amando. Introdução. In: Os Corumbas. 25ª Ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003. Ver também NASCIMENTO, Jorge Carvalho Do. Literatura Sergipana Prosa Antologia. Aracaju: SEER, 1998.

[2] Ver mais em SILVA LIMA, Jackson Da. História da Literatura Sergipana. Volume Um. Aracaju: Livraria Regina, 1971.p. 33-37.

[3] O fragmento do romance é o seguinte: “LOCALIZAÇÃO DO MERETRICIO. EDITAL. De ordem do Exmo. Snr. Dr. Chefe de Policia do Estado, ficam intimadas todas as mulheres de vida facil que hoje residem nas ruas de Arauá, Estancia, Propriá e Santa Luzia a se mudarem, no prazo improrogavel de 8 (oito) dias, para a rua do Siriry, no trecho comprehendido entre as ruas de Laranjeiras e Maroim. Aracajú, 1º de Dezembro de 1918. O Secretario. Manuel de Barros Maciel.” (FONTES, Rua Do Siriry, 1937, p. 08 – grifos presentes no original).

[4] SILVA, Maria Ivonete Santos. Romance Industrial: aspectos históricos e sociológicos da obra de Amando Fontes. Brasília; Fundação Universidade de Brasília; Aracaju: Governo do Estado de Sergipe/Fundesc, 1991; ver também MELLO E SOUZA, Antonio Cândido de. A Revolução de 1930 e a Cultura. São Paulo: Novos Estudos Cebrap, v. 2,4, p. 27-36, abril 84.

Texto reproduzido do site: grandearacaju.com.br

Silvério Fontes e a história da historiografia sergipana ( I, II, e III)


Publicado originalmente no site do Jornal da Cidade, em 14/03/2016.

Silvério Fontes e a história da historiografia sergipana ( I ).

Campinas, São Paulo, julho de 1972. Entre os dias 9 e 15, a UNICAMP abrigou o III Encontro de Professores de Introdução aos Estudos Históricos, evento que reuniu profissionais do ensino superior de História de todo o país.

Por: Samuel Albuquerque.

Campinas, São Paulo, julho de 1972. Entre os dias 9 e 15, a UNICAMP abrigou o III Encontro de Professores de Introdução aos Estudos Históricos, evento que reuniu profissionais do ensino superior de História de todo o país.

José Silvério Leite Fontes (1925-2005), professor de Introdução aos Estudos Históricos do Departamento de História e Filosofia, representou a UFS no encontro e apresentou o projeto “Levantamento das fontes primárias da história de Sergipe”, cuja execução capitaneava em seu pequeno estado.

Mas qual seria a relação entre aquela comunicação de julho de 1972 e a História da Historiografia Sergipana? Ocorre que o seu texto-base, publicado meses depois no “Cadernos da UFS”, possui um brevíssimo (porém pioneiro) estudo sobre a trajetória dos fazeres historiográficos em Sergipe. Trata-se de uma espécie de introito ao projeto divulgado, dando conta do estado da arte no campo da História de Sergipe. A natureza do trabalho justifica, inclusive, a sumaríssima análise que dele resulta. Aliás, o próprio Silvério Fontes registrou que o tema mereceria “estudos mais acurados”, considerando que sua atenção se voltou, apenas, para “alguns pontos relevantes” (Fontes, 1972, 4).

Da reflexão do professor de Introdução aos Estudos Históricos, a primeira observação digna de nota é, sem dúvida, a definição de Historiografia Sergipana. Para ele, essa vertente do conhecimento histórico era “obra dos filhos da Província e versando sobre sua terra natal” (Fontes, 1972, 4). Certamente, o autor se referia aos “filhos” naturais ou adotivos de Sergipe, considerando que incluiu em sua análise “homens de estudos” nascidos em outras paragens, mas que viveram no estado e estudaram o passado sergipano.

Mesmo assinalando a “preocupação historiográfica” do comendador Antonio José da Silva Travassos, em seus “Apontamentos historicos e topographicos sobre a Provincia de Sergipe” (1875), Silvério considerou Felisbello Freire, autor de “Historia de Sergipe” (1891) e de “Historia territorial do Brazil” (1906), o fundador da Historiografia Sergipana propriamente dita. Felisbello seria a “estrela de primeira grandeza” da constelação de intelectuais que, “[n]o último quartel do século XIX e [n]o primeiro do século XX”, integraram o “surto historiográfico” consagrado a Sergipe (Fontes, 1972, 4).

O referido “surto” não era, segundo seu intérprete, fruto de “desenvolvimento autógeno” e sim de “influências culturais estrangeiras, recebidas pelos estudantes sergipanos que frequentam os meios universitários de Recife, Bahia e Rio de Janeiro, ou transmitidas por eles aos radicados em Sergipe” (Fontes, 1972, 4).

Levados por um impulso anacrônico, a interpretação de Silvério nos faz lembrar o conceito de “circularidade entre as culturas”, difundido no Brasil através, sobretudo, dos trabalhos do historiador italiano Carlo Ginzburg, a partir de fins de década de 1980. Além disso, dois recentes trabalhos acadêmicos nos ajudam a compreender o contexto no qual a proliferação de estudos sobre o passado sergipano teria ocorrido. O primeiro é a dissertação de mestrado de Eugênia Andrade Vieira da Silva, que investiga os caminhos e descaminhos das elites sergipanas do século XIX em busca de instrução (trabalho referenciado ao final deste artigo). O segundo é a monografia de Cristiane Vitório de Souza, que estuda a constituição do campo intelectual sergipano nos primórdios da República (trabalho também referenciado ao final deste artigo). A leitura desses estudos nos faz compreender, dentre outras coisas, o papel desempenhado pelas antigas faculdades de Direito e Medicina do Segundo Império/Primeira República nos diferentes processos de recepção e circulação de ideias produzidas, sobretudo, na velha Europa.

Orientando sua análise, Silvério Fontes propôs uma periodização tripartite para a Historiografia Sergipana. A primeira fase iria de princípios da década de 1890 a fins da década de 1920, a segunda de fins da década de 1920 a fins da década de 1950 e a terceira teria se iniciado em princípios da década de 1960. Trataremos de cada uma dessas fases nos próximos textos desta série.

Sequência de fontes/bibliografia citadas:

FONTES, José Silvério Leite. Historiografia Sergipana. In: Levantamento das fontes primárias da história de Sergipe. “Cadernos da UFS”, Aracaju, n. 1, p. 4-7, 1972.

TRAVASSOS, Antonio José da Silva. “Apontamentos historicos e topographicos sobre a Provincia de Sergipe”. Rio de Janeiro: Instituto Typographico do Direito, 1875 (documento editado, também, no número 6/1916 da Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe).

FREIRE, Felisbello Firmo de Oliveira. “Historia de Sergipe (1575-1855)”. Rio de Janeiro: Typographia Perseverança, 1891.

FREIRE, Felisbello. “Historia territorial do Brazil (Bahia, Sergipe e Espirito Santo)”. Rio de Janeiro: Typ. do Jornal do Commercio, 1906. p. 273-363.

GINZBURG, Carlo. “O queijo e os vermes”: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

SILVA, Eugênia Andrade Vieira da. “A formação intelectual da elite sergipana (1822-1889)”. São Cristóvão, 2004. Dissertação (Mestrado em Educação) – NPGED/UFS.

SOUZA, Cristiane Vitório de. “A ‘República das Letras’ em Sergipe (1889-1930)”. São Cristóvão, 2001. Monografia (Licenciatura em História) – DHI/UFS [Resumo em: SOUZA, Cristiane Vitório de. A “República das Letras” em Sergipe (1889-1930). “Revista de Aracaju”, Aracaju, n. 9, p. 189-208, 2002].

Sobre a trajetória pessoal e profissional de Silvério Fontes, consultar: DANTAS, Ibarê. “História da Casa de Sergipe”: os 100 anos do IHGSE, 1912-2012. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: IHGSE, 2012. p. 306-314 (Coleção Biblioteca Casa de Sergipe, 15).

(Os artigos desta série são desdobramentos das minhas aulas de História de Sergipe, no curso de Museologia da UFS).

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Publicado originalmente no site do Jornal da Cidade, em 21/03/2016.

Silvério Fontes e a História da Historiografia Sergipana (II).

Vimos que, em princípios da década de 1970, José Silvério Leite Fontes, então professor dos cursos de História e Direito da UFS, propôs uma periodização tripartite para o estudo da Historiografia Sergipana.

Por: Samuel Albuquerque.

Vimos que, em princípios da década de 1970, José Silvério Leite Fontes, então professor dos cursos de História e Direito da UFS, propôs uma periodização tripartite para o estudo da Historiografia Sergipana.

Segundo sua proposta, a primeira fase da Historiografia Sergipana teve início em princípios da década de 1890 e se prolongou até fins da década de 1920. Marcado pelo que denominou de “surto historiográfico”, o período contou com a singular contribuição de Felisbello Freire e com a criação do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.

Referindo-se à “Historia de Sergipe” de Felisbello Freire, Silvério afirmou: “[obra] até hoje não superada como trabalho amplo, embora escrita de acordo com a filosofia liberal da época” (Fontes, 1972, 5). Essa é, sem dúvida, uma tese válida para o momento de sua defesa. Mas, felizmente, ela expirou à medida que a Historiografia Sergipana, ainda na década de 1970, passou a receber significativas contribuições de autores como Ibarê Dantas e Maria Thetis Nunes. Sobre essa questão, considero que a contribuição de Felisbello foi superada, no que diz respeito à História da Capitania de Sergipe, pelo conjunto do legado de Maria Thetis Nunes – com os livros “Sergipe Colonial I” (1989) e “Sergipe Colonial II” (1996) – e Luiz Mott – com os livros “Sergipe del Rey” (1986), “A Inquisição em Sergipe” (1989) e “Sergipe Colonial e Imperial” (2008). Quanto à História da Província de Sergipe, Felisbello foi superado por Ibarê Dantas, que, em 2009, publicou a biografia do senador “Leandro Ribeiro de Siqueira Maciel”, estudando com afinco a política e a sociedade sergipana oitocentista.

No mais, tenho dúvidas quanto ao fato de Silvério Fontes ter lido o segundo trabalho de Felisbello Freire sobre Sergipe, pois soa estranho o fato de o criterioso professor de Introdução aos Estudos Históricos não ter indicado a superioridade da “Historia territorial do Brazil” (1906) em relação à “Historia de Sergipe” (1891). O capítulo dedicado a Sergipe no livro de 1906 revela um autor maduro e que, exercitando seu poder de síntese, retoma com mais rigor e precisão a história de sua terra natal.

Sobre a fundação do IHGSE na década de 1910, Silvério registrou: “É então fundado o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, a 6 de agosto de 1912, que publicará durante vários anos revista com valiosas contribuições aos estudos históricos locais” (Fontes, 1972, 5). Sobre esse fato, sabemos que o Instituto passou a representar uma espécie de “armadura defensora da História”, fomentando a produção e a circulação do conhecimento histórico local. Desde 1912, gerações e gerações de intelectuais abrigaram-se na Casa de Sergipe, encontrando morada acolhedora para estudos, pesquisas, debates e divulgação da História.

Na hierarquia de Silvério, os autores de maior relevância na primeira fase da Historiografia Sergipana seriam, respectivamente: Felisbello Freire, com sua “Historia de Sergipe” (1891); Ivo do Prado, autor de “A Capitania de Sergipe e suas Ouvidorias” (1919); Carvalho Lima Júnior, autor da “História dos limites entre Sergipe e Bahia” (1918) ; e Oliveira Telles, autor de “Limites de Sergipe” (1919). Os três últimos autores teriam se destacado enquanto devotados estudiosos do “histórico da questão de limites com a Bahia” (Fontes, 1972, 5).

Outros autores foram relacionados por Silvério, que, sutilmente, teceu suas críticas ao legado intelectual de parte deles. Sobre as corografias de Laudelino Freire e L. C. Silva Lisboa, por exemplo, destaca o valor documental e não historiográfico dessas obras (ambas referenciadas ao final deste artigo). Crítica similar fez aos autores que “relataram o movimento republicano e a implantação da República, no Estado”, referindo-se aos trabalhos de Balthazar Goes, autor de “A Republica em Sergipe” (1891); Manuel Curvelo de Mendonça, autor de “Sergipe republicano” (1896); e F. Nobre de Lacerda, autor de “A decada republicana em Sergipe” (1906).

Manoel Armindo Cordeiro Guaraná, autor do monumental “Diccionario bio-bibliographico sergipano” (1925), Liberato Bittencourt, autor dos dicionários “Brasileiros illustres” (vol. 1, 1913) e “Homens do Brasil” (vol. 1, 1917), além do padre Antonio Carmelo, autor de “Olympio Campos perante a Historia” (1910), estariam entre os intelectuais que trataram de “exaltar” os “sergipanos ilustres” (Fontes, 1972, 5). Nesse sentido, o analista parece depreciar a narrativa de apologia aos “grandes homens”, que caracterizou os trabalhos de Guaraná, Bittencourt e Carmelo. Poupados à crítica, aparecem os autores com “interesse pela história literária e artística”, destacadamente Prado Sampaio, autor de “A Litteratura Sergipana” (1908) e “Sergipe artistico, litterario e scientifico” (1928).

Sem muitas delongas, a análise de Silvério Fontes conduz o leitor para as fases seguintes da sua História da Historiografia Sergipana. Delas trataremos no próximo artigo.
Sequência de fontes/bibliografia citadas:

FONTES, José Silvério Leite. Historiografia Sergipana. In: Levantamento das fontes primárias da história de Sergipe. “Cadernos da UFS”, Aracaju, n. 1, p. 4-7, 1972.

FREIRE, Felisbello Firmo de Oliveira. “Historia de Sergipe (1575-1855)”. Rio de Janeiro: Typographia Perseverança, 1891.

NUNES, Maria Thetis. “Sergipe Colonial I”. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Sergipe: UFS 1989.

NUNES, Maria Thetis. “Sergipe Colonial II”. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1996.

MOTT, Luiz Roberto de Barros. “Sergipe del Rey”: população, economia e sociedade. Aracaju: FUNDESC, 1986 (Coleção Jackson da Silva Lima).

MOTT, Luiz Roberto de Barros. “A Inquisição em Sergipe”. Aracaju: FUNDESC, 1989 (Coleção Jackson da Silva Lima).

MOTT, Luiz Roberto de Barros. “Sergipe Colonial e Imperial”: religião, família, escravidão e sociedade. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: Fundação Oviêdo Teixeira, 2008.

DANTAS, Ibarê. “Leandro Ribeiro de Siqueira Maciel (1825/1909)”. O patriarca do Serra Negra e a política oitocentista em Sergipe. Aracaju: Criação, 2009.

FREIRE, Felisbello. “Historia territorial do Brazil (Bahia, Sergipe e Espirito Santo)”. Rio de Janeiro: Typ. do Jornal do Commercio, 1906. p. 273-363.

PRADO, Ivo do. “A Capitania de Sergipe e suas Ouvidorias”. Memoria sobre questões de limites (Congresso de Bello Horizonte). Rio de Janeiro: Papelaria Brazil, 1919.
LIMA JUNIOR, Francisco A. de Carvalho. “História dos limites entre Sergipe e Bahia”. Aracaju: Imprensa Official, 1918.

TELLES, M. P. Oliveira. “Limites de Sergipe” (Contra o 1º volume da compilação do Dr. Braz do Amaral, intitulada Limites do Estado da Bahia). Aracaju: Imprensa Official, 1919.

FREIRE, Laudelino. “Quadro Chorographico de Sergipe”. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1898.

LISBOA, L. C. Silva. “Chorographia do Estado de Sergipe”. Aracaju: Imprensa Official, 1897.

GOES, Balthazar. “A Republica em Sergipe (Aponctamentos para a Historia), 1870-1889”. Aracaju: Typ. do Correio de Sergipe, 1891.

MENDONÇA, Manoel Curvelo de. “Sergipe republicano”. Rio de Janeiro: Casa Mont’ Alverne, 1896.

LACERDA, F. Nobre de. “A decada republicana em Sergipe”. Aracaju: Imprensa Moderna, 1906.

GUARANÁ, Armindo. “Diccionario bio-bibliographico sergipano”. Rio de Janeiro: Pongetti & C, 1925.

BITTENCOURT, Liberato. “Brasileiros illustres”. Em todos os ramos da actividade e do saber, de 1500 aos nossos dias. vol. I (Sergipanos illustres). Rio de Janeiro: Gomes Pereira, 1913.

BITTENCOURT, Liberato. “Homens do Brasil”. Em todos os ramos da actividade e do saber, de 1500 aos nossos dias. vol. I (Sergipe). 2ª edição. Rio de Janeiro: Typ. Mascotte, 1917.

CARMELO, Antonio. “Olympio Campos perante a Historia”. Rio de Janeiro: Gomes, Irmão & C., 1910.

SAMPAIO, Prado. “A Litteratura Sergipana”. Maroim: Imprensa Economica, 1908.

SAMPAIO, Prado. “Sergipe artistico, litterario e scientifico”. Aracaju: Imprensa Official, 1928.

Sobre a bibliografia que trata do papel do IHGSE na história intelectual de Sergipe, consultar: ALBUQUERQUE, Samuel Barros de Medeiros. No centenário da Casa de Sergipe, um presente. In: _____; et.al. História, memória e comemorações na Casa de Sergipe: os 100 anos do IHGSE. Aracaju: Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, 2014. p. 367-374.

(Os artigos desta série são desdobramentos das minhas aulas de História de Sergipe, no curso de Museologia da UFS).

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Publicado originalmente no site do Jornal da Cidade, em 28/03/2016.

Silvério Fontes e a História da Historiografia Sergipana (final).

Vencido o “surto historiográfico” que, segundo Silvério Fontes, teria caracterizado a primeira fase a Historiografia Sergipana, seguem-se períodos fastidiosos.

Por: Samuel Albuquerque.

Vencido o “surto historiográfico” que, segundo Silvério Fontes, teria caracterizado a primeira fase a Historiografia Sergipana, seguem-se períodos fastidiosos.

Segundo o analista de princípios da década de 1970, a segunda fase da Historiografia Sergipana teve início em fins da década de 1920 e prolongou-se até fins da década de 1950. Silvério construiu uma representação soturna do referido período, caracterizando-o como uma fase de “decadência”, “arrefecimento” e “descrença” no poder criativo dos estudiosos do passado local.

Entre os autores que, nas trevas da segunda fase da Historiografia Sergipana, não deixaram desaparecer a chama do templo de Clio, estariam: Sebrão sobrinho, com suas “Laudas da História do Aracaju” (1955); Epifânio da Fonseca Dórea, com dezenas de trabalhos, sobretudo pequenas biografias e necrológios, publicados na Revista do IHGSE entre as décadas de 1910 e 1960; Philadelpho Jonathas de Oliveira, autor de “Historia de Laranjeiras Catholica” (1935) e de “Registo de fatos históricos de Laranjeiras” (1942); João Dantas Martins dos Reis, que publicou trabalhos na Revista do IHGSE a partir de princípios da década de 1940, tratando, principalmente, da história do poder judiciário em Sergipe; Felte Bezerra, autor de “Etnias sergipanas” (1950) e de “Investigações Histórico-Geográficas de Sergipe (1952)”; e José Calasans, autor de “Aracaju: contribuição à História da capital de Sergipe” (1942) e de “Temas da Provincia” (1944), além de outros estudos publicados na Revista do IHGSE desde princípios da década de 1940.

Contundente em sua crítica, Silvério ressaltou que no referido grupo “predominam os analistas de arquivos e de fatos isolados”, depreciando, assim, os estudiosos do passado mais preocupados com a heurística que com hermenêutica (mais com “preciosos” documentos e menos com a teoria/metodologia da História). Particularmente, acredito que Felte Bezerra e José Calasans seriam as exceções ao perfil daquele grupo.

Sobre José Calasans, aliás, o autor afirmou: “grande conhecedor das fontes históricas de Sergipe, ainda não produziu a obra de síntese que se espera dele” (Fontes, 1972, 5). Ao que parece, Calasans jamais chegou a atender às expectativas de Silvério, que o representou como um exemplo bem acabado de promessa não cumprida. Ainda assim, é preciso assinalar que a contribuição de Calasans à História da Historiografia Sergipana superaria a contribuição do seu crítico. Estou me referindo à clássica “Introdução ao estudo da Historiografia Sergipana”, surgida em 1973 e publicada, somente, em 1992, no livro “Aracaju e outros temas sergipanos”.

As considerações de Silvério sobre a segunda fase da nossa Historiografia se encerram com breves referências a autores de “estudos esparsos”, publicados a partir de meados da década de 1940 – Bonifácio Fortes, Fernando Porto, Austrogésilo Santana Pôrto, Joel e Junot Silveira.

A terceira e última fase da Historiografia Sergipana remeteria à década de 1960 e a um contexto de lenta “retomada” e “transformação”, marcado pela criação da Universidade Federal de Sergipe.

Para Silvério, no início da terceira fase a História estava “divorciada da perspectiva local”. Mesmo na Faculdade Católica de Filosofia e, depois, na UFS o ensino de História “era desenraizado, puramente livresco e sem oportunidades de incentivo à pesquisa, devido à pobreza bibliográfica das livrarias, ao patrimônio sem renovação da Biblioteca Pública, e a falta de utilização do acervo do Instituto Histórico e Geográfico” (Fontes, 1972, 6). Contudo, transformações ocorridas no campo intelectual teriam incentivado o que ele chamou de “recuperação” da Historiografia Sergipana, pois “a criação da Universidade (...) permitiu aos professores dedicarem mais tempo ao estudo e ao ensino. A organização departamental estabeleceu maior contacto e cooperação entre eles. Além disso, à margem do processo didático universitário, começam a aparecer espíritos da nova geração com outro modo de visualizar a História” (Fontes, 1972, 6).

Acrísio Tôrres Araújo, autor da “Pequena História de Sergipe” (1966) e de “Aracaju, minha capital” (1967), e J. Pires Wynne, autor de “História de Sergipe, 1575-1930” (vol. 1, 1970), foram destacados entre os autores de sínteses desprovidas de novidades, em termos “de investigação e de interpretação”. Por sua vez, Jackson da Silva Lima, autor da “História da Literatura Sergipana” (vol. 1, 1971), foi referenciado como um promissor estudioso das práticas culturais do nosso passado.

A crítica de Silvério aos trabalhos de Acrísio Tôrres convergia para o posicionamento de sua colega Maria Thetis Nunes, que, através da imprensa sergipana, travaria uma longa polêmica com o estudioso cearense em 1973, enfatizando as impropriedades constantes nos livros didáticos citados acima. Aliás, a querela intelectual que envolveu Acrísio e Thetis já foi perscrutada por autores como Itamar Freitas, em sua “Historiografia Sergipana” (2007), e Ibarê Dantas, na celebrativa “História da Casa de Sergipe” (2012).

Finda a leitura das reflexões de Silvério Fontes, é possível flagrar algumas ausências na “galeria de historiadores” da qual ele foi curador. Não sabemos ao certo o que o levou a ignorar as contribuições, por exemplo, de Elias Montalvão, autor de “Meu Sergipe” (1916), e Clodomir Silva, autor do “Album de Sergipe” (1920) e de “Minha gente” (1962). No mais, o texto parece ter sido escrito para leitores familiarizados com a produção historiográfica sergipana, posto que o seu autor não teve a preocupação de relacionar os trabalhos da maior parte intelectuais citados.

É preciso, finalmente, registrar que, circunscrito no campo da História da Historiografia, Silvério legou-nos, ainda, sua tese de livre-docência, defendida em 1975 e publicada sob o título “Marxismos na Historiografia Brasileira Contemporânea” (2000). Quanto aos estudos de História da Historiografia Sergipana, estes foram cultivados por outros intelectuais da década de 1970, notadamente pelo jovem itabaianense Vladimir Souza Carvalho e pelo festejado professor José Calasans Brandão da Silva. A contribuição de ambos será tema dos nossos próximos artigos.

Sequência de fontes/bibliografia citadas:

FONTES, José Silvério Leite. Historiografia Sergipana. In: Levantamento das fontes primárias da história de Sergipe. “Cadernos da UFS”, Aracaju, n. 1, p. 4-7, 1972.

SEBRÃO SOBRINHO. “Laudas da história do Aracaju”. Aracaju: Prefeitura Municipal de Aracaju, 1955.

OLIVEIRA, Philadelpho Jonathas de. “Historia de Laranjeiras Catholica”. Aracaju: Casa Avila, 1935.

OLIVEIRA, Philadelpho Jonathas de. “Registo de fatos históricos de Laranjeiras”. Aracaju: Casa Avila, 1942.

BEZERRA, Felte. “Etnias sergipanas”: contribuição ao seu estudo. Aracaju: Livraria Regina, 1950 (Coleção Estudos Sergipanos, VI).

BEZERRA, Felte. “Investigações Histórico-Geográficas de Sergipe”. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1952 (Coleção Rex - História do Brasil, 2).

CALASANS, José. “Aracaju: contribuição à História da capital de Sergipe”. Aracaju, Livraria Regina, 1942.

CALASANS, José. “Temas da Provincia”. Aracaju: Livraria Regina, 1944 (Coleção Estudos Sergipanos, I).

SILVA, José Calazans Brandão da. Introdução ao estudo da Historiografia Sergipana. In: “Aracaju e outros temas sergipanos”. Aracaju: FUNDESC, 1992 (Coleção João Ribeiro). p. 7-37.

FORTES, Bonifácio. “Evolução da paizagem humana da cidade do Aracaju”. Aracaju: Livraria Regina, 1955.

PORTO, Fernando. “A cidade do Aracaju, 1855-1865”. Ensaio de evolução urbana. Aracaju: Livraria Regina, 1945 (Coleção estudos Sergipanos, II).

PÔRTO, Austrogésilo Santana. “O Realismo Social na poesia em Sergipe”. Aracaju: Livraria Regina, 1960.

ARAÚJO, Acrísio Tôrres. “Pequena História de Sergipe”. Aracaju: Livraria Regina, 1966.

ARAÚJO, Acrísio Tôrres. “Aracaju, minha capital” (Segundo Ano Primário). São Paulo: Editora do Brasil, 1967.

WYNNE, J. Pires. “História de Sergipe, 1575-1930”. Rio de Janeiro: Pongetti, 1970.

LIMA, Jackson da Silva. “História da Literatura Sergipana”. vol. I. Aracaju: Livraria Regina, 1971.

FREITAS, Itamar. “Historiografia Sergipana”. São Cristóvão: Editora UFS, 2007. p. 214-216.

DANTAS, Ibarê. “História da Casa de Sergipe”: os 100 anos do IHGSE, 1912-2012. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: IHGSE, 2012. p. 362-363 (Coleção Biblioteca Casa de Sergipe, 15).

MONTALVÃO, Elias. “Meu Sergipe”. Ensino de Historia e Chorographia de Sergipe. Aracaju: Typographia Commercial, 1916.

SILVA, Clodomir. “Album de Sergipe, 1820-1920”. São Paulo: O Estado de São Paulo, 1920.

SILVA, Clodomir. “Minha gente (Costumes de Sergipe)”. Aracaju: Livraria Regina, 1962.

FONTES, José Silvério Leite. “Quatro Diretrizes da Historiografia Brasileira Contemporânea”. Aracaju, 1976. Tese de Livre-Docência publicada como: _____. “Marxismos na Historiografia Brasileira Contemporânea”. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: Fundação Oviêdo Teixeira, 2000.

(Os artigos desta série são desdobramentos das minhas aulas de História de Sergipe, no curso de Museologia da UFS).

Textos e imagem reproduzidos pelo site: jornaldacidade.net/artigos

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Instituto Tobias Barreto,




Publicado originalmente no site ASN, em 14 de Julho de 2015.

Sergipe tem história e estórias à beça.
Comemorando os 195 anos da Emancipação Política de Sergipe, a Agência Sergipe de Notícias publicou uma série de reportagens contando nossa história e o que temos de mais genuíno, cultura, costumes e nossa gente

Camila Santos, repórter ASN.

História e estórias povoam o imaginário popular e dão eco a lendas e mitos repassados no tempo. Sergipe tem os seus causos, alguns contados e recriados até os dias atuais. Em seu nome, o estado traz a marca do povo nativo, o que mais sofreu com a colonização e praticamente extinto, mas nunca esquecido. A herança indígena está em todos os cantos do estado, mas o caso mais lembrado talvez seja o do Cacique Serigy e sua “maldição” que vem da segunda metade do século XVI. Transformado e adaptado, virou poesia, música e até cinema.

“Originário do tupi si’ri ü pe, quer dizer "no rio dos siris", tendo sido mais tarde adotado Cirizipe ou Cerigipe, que significa "ferrão de siri", nome de um dos cinco caciques que se opuseram ao domínio português”, explica o professor Adailton Andrade no site Fonte da história de Sergipe. Serigy comandou a resistência à colonização e liderou bravamente os guerreiros de sua tribo durante quase três décadas, até a conquista portuguesa em 1590 e a fundação da Capitania de Sergipe Del Rey.

Serigy era líder incontestável no território sergipano. Seu povo vivia entre os atuais rios Vaza-barris e Sergipe. Sua resistência a invasão deu origem à lenda de uma suposta maldição, que uma vez enfurecido por ter sido expulso de suas terras, teria praguejado que nada gerado ali daria bons frutos. Mas nos versos para a “Maldição do Cacique Serigy” de Vinícius Oliveira, que afirma ser descendente do índio, a maldição não foi para o território:

“(...) Mas é preciso pensar

que o amaldiçoado

não foi a terra não

foi o opressor pela opressão

Então é preciso invocar

Pela coragem do cacique Serigy

Uma magia convocar

E nossas orações os corações inspirar”

Bom à beça

Basta reconhecer o intelecto de tantos sergipanos que se fizeram ilustres e colocaram Sergipe no mapa nacional para esquecer de vez a tal maldição. Um deles, por seu talento argumentativo, teria sido a origem de uma expressão popularizada pelo país inteiro e que liga seu sobrenome como sinônimo de “abundância”. Está no dicionário Houaiss com o significado de "em grande quantidade", com os ss substituídos pelo ç e o b minúsculo. “À beça - Argumentar à Bessa”, ou seja, à maneira do advogado e jornalista sergipano, Gumercindo Bessa, nascido em Estância em 1859 e falecido em 1913.

A expressão teria surgido do embate entre o sergipano e o baiano Ruy Barbosa que debatiam sobre a região amazônica do Acre, logo após a compra do território pelo Brasil em 1903. Ruy defendia a incorporação ao Estado do Amazonas, enquanto Gumercindo Bessa defendia a elevação do Acre a território federal, desvinculado administrativamente do Amazonas. “Foi um pega pra capar dos bons, entre dois monstros do direito brasileiro. Os argumentos de Bessa, às dezenas, foram expostos durante horas e horas de falatório, com uma eloquência surpreendente. O sergipano levou a melhor, numa das poucas derrotas de Rui numa querela jurídica”, relata o Dicionário informal. Não apenas pela quantidade de argumentos, mas, sobretudo, por serem convincentes a expressão se popularizou.

A história é famosa, mas há quem a conteste. Em forma de lenda, estória ou história, o fato é que Sergipe tem muito a contar. Assim como Bessa, tantos outros notáveis sergipanos se destacaram, mostrando que o estado não sofreu nenhum tipo de mau agouro.

Imortais

Um bom exemplo desta sorte está nos imortais sergipanos que integram a Academia Brasileira de Letras (ABL): Tobias Barreto de Meneses talvez seja o mais ilustre entre os sergipanos que já ocuparam as suas cadeiras. Nasceu na vila de Campos, que é a atual cidade de Tobias Barreto, e faleceu em Recife, em 1889. Formou ao lado do conterrâneo Silvio Romero a Escola do Recife, em que se buscava uma renovação da mentalidade brasileira. Se destacou, entre outras coisas, por sua oratória de mestre qualquer que fosse o tema escolhido para debate.

Mas outros nomes podem ser lembrados: como o de João Ribeiro, jornalista, crítico, historiador, pintor e tradutor. Nasceu em Laranjeiras, SE, em 1860. Ele empresta seu nome a mais importante comenda da ABL que distingue pessoas ou instituições brasileiras que tenham se notabilizado no âmbito editorial ou cultural. E de Silvio Romero, folclorista, professor e historiador da literatura brasileira, nascido em Lagarto, SE, em 1851. Além destes, também integraram a ABL os sergipanos Gilberto Amado (Estância, SE), e seu irmão Genolino Amado (Itaporanga), Aníbal Freire da Fonseca (Lagarto) e Laudelino Freire (Lagarto). Fonte: ABL.

Instituto Tobias Barreto

É possível conhecer mais do trabalho destes intelectuais no Instituto Tobias Barreto, criado pelo jornalista e pesquisador Luiz Antônio Barreto e que desde 2011 tem seu acervo sob a guarda da Universidade Tiradentes (Unit). A diretora do Instituto, Raylane Navarro Barreto, ressalta que todo o acervo tem uma importância bem significativa para o pesquisador, mas se pudesse destacar algo seria a parte de história e literatura sergipana, por seus livros raros e documentos específicos.

“O acervo é um dos elementos que constitui o Instituto Tobias Barreto. Ele tem cerca de 25 mil títulos entre livros e periódicos, entre 20 e 25 mil imagens, fotografias, incluindo cartões postais, fotos de praças e personagens, políticos sergipanos. Uma boa parte trata da história de Sergipe, mas sobretudo um acervo que envolve a cultura latino americana. Luiz Antônio Barreto quando vivo adquiriu o acervo do diplomata sergipano Paulo Carvalho Neto, que foi diplomata em algumas cidades da América Latina e também nos Estados Unidos. Ele fez um grande recolha de livros, documentos, slides, algumas imagens sob determinadas tribos de nativos latino-americanos e este acervo se encontra aqui também”, informa a professora. Todo o material está aberto ao público e boa parte pode ser consultado pela internet.

Texto e imagens reproduzidos do site: agencia.se.gov.br

Homenagem à professora Thetis


Publicado originalmente no site da Faculdade Pio Décimo, em 31/10/2009.

Crônica - Homenagem à professora Thetis.

Amanhecendo no domingo de 25 de outubro, um dia depois da grande data da Sergipanidade...

Por Francisco Diemerson*

Amanhecendo no domingo de 25 de outubro, um dia depois da grande data da Sergipanidade, recebi a notícia do falecimento da Professora Maria Thetis Nunes. A tristeza veio por sentir pela Professora Thetis o carinho do estudante e do aprendiz, resultado de alguns anos de convivência nas instituições pela qual passei profissionalmente.

Quando iniciei minhas visitas semanais à Academia Sergipana de Letras, em março de 2001, uma das pessoas que mais me marcava era a Professora Maria Thetis Nunes. Ficava encantado em ver aquela senhora cujo nome estava colocado em várias placas no Atheneu Sergipense, onde eu estudava e pela leitura que de seus artigos publicados na imprensa sergipana.

Meu gosto pela História teve início em ouvir a Professora Thetis, o Prof. Luiz Fernando Soutelo e o Prof. Anderson Nascimento. Mas o que mais me encantava, era ouvir a Professora Thetis falando de suas viagens, de sua participação na vida política do Rio de Janeiro, da década de 50 e de sua interação nos movimentos intelectuais e educacionais de Sergipe.

Por estes caminhos do destino, acabei indo trabalhar, meu primeiro emprego, no Conselho Estadual de Cultura, junto com o Prof. Soutelo e, justamente, tive a oportunidade de, durante todas as tardes, ouvir a Professora Thetis, suas impressões sobre a História de Sergipe, suas idéias sobre as políticas culturais do Estado e a extrema vontade, dela, em sempre estar presente e ativa no movimento cultural sergipano.

Guardo também uma lembrança especial, de quando, por vezes, ao sair do Conselho em direção ao Atheneu, fui de carona com a Professora Thetis, dirigindo seu carro azul, descendo a Vila Cristina. Nestas idas, a Professora Thetis implicava comigo por que eu insistia em tentar o Vestibular para Direito, quando ela afirmava que eu tinha alma de quem deve fazer História. Eu argumentei que não, mas ao final, ela estava certa.

Durante outros três anos, quando trabalhei junto ao Presidente da Academia Sergipana de Letras, Prof. Anderson Nascimento, tive a convivência da Professora Thetis em todas as tardes de segunda-feira, ela sempre sendo a primeira a chegar às sessões, trazendo suas crônicas, suas idéias e suas palavras fortes.

Junto a Manuel Cabral Machado, Professora Thetis era uma das principais oradoras da Academia, sempre participando dos debates, contribuindo nas discussões do sodalício sergipano.

Uma das crônicas de sua autoria que mais me marcou relata uma viagem à Caxemira, quando ela afirma que ao ver as montanhas altas e solenes, voltava no tempo e se sentia a menina que admirava por horas a Serra de Itabaiana.

Lembro também que foi ela quem me apresentou à Literatura Francesa, me trazendo livros de grandes escritores, falando sobre os principais nomes da atualidade e as obras que ela recomendava para leitura.

Em 2006, quando tomei posse como Presidente da Arcádia Literária do Atheneu, a Professora Thetis compareceu e fez um depoimento emocionante, destacando sua passagem por aquela escola, sua admiração pelos professores e a importância de valorizar e estudar o desenvolvimento do Atheneu Sergipense na História de Sergipe.

Primeira mulher a ingressar no Atheneu Sergipense na condição de Professora Catedrática e sua primeira Diretora, fundadora da Universidade Federal de Sergipe e membro da Academia Sergipana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, o qual presidiu por mais de 30 anos, a Professora Thetis Nunes foi uma mulher à frente do seu tempo, que soube projetar uma vida de dedicação ao magistério e à pesquisa histórica.

A morte da Professora Maria Thetis Nunes é uma inestimável perda para a História Sergipana, por toda sua produção intelectual e, mais ainda, por sua participação ativa no cenário cultural nacional, traduzida pela participação em Instituições como o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe ou o Instituto Superior de Estudos Brasileiros.

A cultura sergipana perde um grande nome e uma de suas maiores defensoras, um exemplo para todas as gerações.

*Francisco Diemerson de Sousa Pereira.
Acadêmico do Curso de História (UNIT) e membro da Arcádia Literária.


Texto e imagem reproduzidos do site: piodecimo.com.br

Clemilda Ferreira da Silva (1936 - 2014).


Publicado originalmente no site Ne Notícias, em 23/06/2014.

Clemilda, guerreira alagoana de nobreza sergipana.
Por Rangel Alves da Costa*

Parece que ela está presente naquelas fotografias antigas onde Benjamin Abrahão retratava as mulheres cangaceiras. Não pelas armas empunhadas nem pelas inglórias na sina, mas pelos sorrisos sempre presentes, pelos vestidos enfeitados, pelas feições tão próprias das nordestinas: amorenadas, bonitas, felizes diante de quaisquer circunstâncias. Mas falo de Clemilda, sim senhor, dessa guerreira alagoana que se fez rainha sergipana e ainda hoje orgulha não só o salão forrozeiro como toda cultura popular.

De baixa estatura, rosto arredondado, feições trigueiras, cabelos negros encaracolados, usando preferencialmente vestidos rodados e floridos, com maquiagem que acentue sua feição sorridente, assim é aquela batizada como Cremilda Ferreira da Silva, e depois Clemilda. Verdade que hoje, perto dos 78 anos e mais de 50 anos de carreira artística, já traz as marcas de múltiplas enfermidades pelo corpo. Infelizmente, já foi acometida por osteoporose e agora se recupera do segundo acidente vascular cerebral. E entristece demais não ter a presença da forrozeira maior ecoando pelos arraiás.

A nossa guerreira está combalida, mas não vencida. Desde alguns anos que não viaja para apresentações, também está impossibilitada de receber e divulgar os artistas locais no seu Forró no Asfalto, programa dominical da TV Aperipê com mais de 25 anos de sucesso absoluto. Internada, ainda em recuperação, certamente doeu-lhe muito estar ausente dos forrós aracajuanos dessa época junina. Ainda assim as homenagens são muitas, desde exibição de documentário, exposições a apresentações artísticas, e todas num justíssimo reconhecimento.

Pelas raízes que possui em Sergipe, onde vingou e se espalhou como a melhor e mais autêntica representante da música de feição junina, até que se poderia imaginar ser a forrozeira sergipana de folha e flor. Mas não, ainda que tenha escolhido Aracaju como seu verdadeiro lar e toda essa terra sergipana como sua irmandade, Clemilda nasceu em São José da Laje, no estado das Alagoas, e lá pelos idos de 1936. Ter nascido lá e vindo pra cá é outra história, e esta só pode ser contada trazendo a lume outra presença marcante na musicalidade nordestina: Gerson Filho.

Nasceu, pois, em São José da Laje, mas acabou passando a infância e adolescência em Palmeira dos Índios. A vida sem oportunidades no lugar, certamente aliada ao destino que lhe acenava outras possibilidades, de repente se viu seguindo para o Rio de Janeiro. Era década de 60. Na capital fluminense, trabalhou como garçonete até conseguir, em 1965, se apresentar como caloura na Rádio Mayrink Veiga. Foi nesta emissora que conheceu Gerson Filho, também alagoano do município de Penedo, então artista já contratado. Assim, o destino unia a voz com a sanfona de oito baixos.

Inicialmente gravou ao lado daquele que viria se tornar seu esposo e a acompanharia pelas estradas forrozeiras até 1994, quando faleceu. Mas seu primeiro disco, “Gerson Filho apresenta Clemilda”, só foi gravado em 1967. Daí em diante o sucesso lhe abriria cada vez mais as portas. Não somente pela artista talentosa que já demonstrava ser, com sua voz afinadamente peculiar, mas principalmente pelo seu jeito único de interpretar: a alegria da música se expressava com toda pujança no gestual da cantora, no seu bailado segundo as exigências de cada canção.

Mas o casal sabia que era na própria região nordestina, berço do forró, que estava o seu público maior. E assim arribou do sul do país para shows e apresentações junto ao seu povo, morando primeiro em Palmeira dos Índios e depois vindo fixar residência na capital sergipana. Sergipe logo acolheu carinhosamente o casal. Famosos, porém simples, humildes e verdadeiramente artistas, viviam de canto a outro realizando shows, numa agenda sempre cheia e onde não havia escolha para as apresentações. Participavam de programas de rádio, de auditório, se apresentavam em grandes e pequenos circos, touradas, grandes eventos; enfim, onde o público apreciador do autêntico forró estivesse.

Foi numa dessas incursões pelo interior sergipano que Clemilda e Gerson Filho foram parar na distante Poço Redondo, localidade que passou a ser uma constância na agenda dos forrozeiros. Na cidade tornaram-se amigos do saudoso Alcino Alves Costa, tantas vezes prefeito do lugar, que não somente os contratava como os acolhia na própria residência. Era ali que sentado à mesa com garfadas na galinha de capoeira que Gerson Filho mastigava pimenta malagueta inteira como se estivesse mordendo um doce.

Foi também em Poço Redondo que surgiu uma parceria entre Clemilda e Alcino Alves. Numa das ocasiões, Alcino mostrou à forrozeira alguns versos sertanejos que havia escrito. E num destes estava “Seca Desalmada”, que após a feitura da melodia pela própria cantora, em 1973 foi gravada num disco de mesmo nome, alcançando retumbante sucesso. “Visitei o Juazeiro que fica lá no sertão, havia muitos romeiros escutando um sermão...”. O próprio Gerson compôs um forró em homenagem ao lugar que tanto apreciava, intitulado Forró em Poço Redondo (LP Ingazeira do Norte, de 1969).

Anos mais tarde, numa homenagem prestada à amiga, Alcino Alves Costa escreveu um “Tributo a Clemilda”, cujo texto, dentre outras passagens, diz: “Sergipe tem uma dívida grandiosa com uma celebridade de seu mundo artístico. Fabulosa intérprete que durante décadas vem oferecendo aos sergipanos a sua extraordinária capacidade e competência na arte de cantar a terna e meiga cantiga que tanto glorificou a essência e singeleza da fonte musical sertaneja e nordestina. Estou falando de Clemilda Ferreira da Silva, a nossa querida e amada Clemilda, que com sua maravilhosa voz enterneceu e enternece o sentimento e a alma daqueles que tiveram a felicidade e o prazer de conhecer e ouvir as suas incomparáveis canções, especialmente aqueles de seus primeiros tempos; aqueles que não possuíam o recurso condenável do duplo sentido.

Em quais arquivos da cultura sergipana estão cuidadosamente guardadas as imortais melodias interpretadas pela inesquecível companheira de Gerson Filho? Será que Sergipe sabe da existência das majestosas "Saudade vai me matar", "Sete meninas", "Morena dos olhos pretos", "Guerreiro alagoano", "Meu guerreiro", "Beata mocinha" e "Siricora"? Será que Sergipe reconhece, agradece e louva o altíssimo desempenho e valor dessa sua guerreira e uma das maiores representantes do cenário musical brasileiro? Não. Com certeza que não. O povo sergipano não se lembra, ou talvez nem conheça, maravilhas como estas: "Fazenda Taquari", "Rosa branca da serra", "Recordação de vaqueiro", "Recado a Propriá", "Console ela papai", "Leva eu benzinho", "Tiro o lírio", "Estou chorando por você" e tantas outras beldades musicais que seria impossível enumerá-las, mas que elas tanto mereciam.

Não podemos desconhecer as tremendas dificuldades e provações que os intérpretes da verdadeira música sertaneja nordestina, aquela do fole, do pandeiro e do ganzá, vêm passando por anos seguidos. Sabemos perfeitamente da luta insana dos poucos abnegados que tentam sobreviver em meio à tão medonha borrasca. Clemilda é parte importantíssima desse reduzido grupo que vive numa inglória luta que tem como principal objetivo preservar essa tão desprezada cultura musical nascida nos recônditos mais escondidos e distantes dos campos, ribeiras e pés de serras de nosso sertão caboclo”.

Por fim, arremata Alcino, fazendo referência ao programa Forró no Asfalto (sucesso também na Rádio Aperipê), “Ali a nossa deusa do forró canta e propaga a cantiga de sua terra de adoção e coração, a terra sergipana e nordestina. Tudo que se fizer por essa invulgar artista ainda é pouco. Clemilda é patrimônio cultural de Sergipe. Deus lhe abençoe, minha querida heroína e amiga. Deusa e rainha do forró!”.

Tais palavras resumiriam tudo, mas Clemilda merece mais. Inegável que o sucesso alcançado foi também fruto de sua obstinação. Poucas artistas nordestinas conseguiram levar o forró aos grandes espaços radiofônicos e televisivos como ela o fez, pois se tornou presença constante em programas como Cassino do Chacrinha, Clube do Bolinha e Faustão, dentre outros. Sua discografia é vasta, incluindo desde os primeiros discos gravados com Gerson Filho (É pra valer e Forró sem Briga), aos lançados como artista principal a partir de 1967 (Gerson Filho apresenta Clemilda, Fazenda Taquari, Morena Dos Olhos Pretos, Seca Desalmada, Guerreiro Alagoano, Coqueiro da Bahia, Prenda o Tadeu e Forró Bom Demais, só para citar alguns).

De voz aguda, porém delicada, impondo a cada canção um acorde melodioso dos mais afinados, Clemilda foi além da mera interpretação para também se firmar como compositora famosa, de grande sucesso, mas geralmente em parceria com outros compositores nordestinos. Ao lado do artista, tecia a letra, remendava, modificava, e tudo para ficar em conformidade com sua voz. Daí que gostava de pincelar as letras já prontas, fazendo os arranjos necessários para o alcance da melodia desejada.

E foi nesse acuido que a grande artista foi se firmando no meio forrozeiro até alcançar a fama tão difícil e até impensável para uma mulher já de longa estrada musical. Contudo, se por um lado a genialidade artística de Clemilda pode ser mais observada na sua fase de melodias tipicamente nordestinas, por vezes de plangência romântica, seu sucesso maior ocorreu exatamente quando passou a apimentar as letras de suas canções. Quando a música Prenda o Tadeu foi lançada em 1985, logo se tornou em estrondoso sucesso. A partir daí emprestou duplo sentido a outras canções, como Forró Cheiroso (Talco no Salão). Os dois Discos de Ouro, e também de Platina, vieram dessa época.

Ainda que o sucesso absoluto somente chegasse com maior força na fase do duplo sentido, ainda assim estava na artista a destreza pela aceitação popular. Eis que não apenas com letra apelativa, mas tendo por fundo a genial interpretação, e assim porque Clemilda, com seu gingado e seu rebolado caipira, sempre foi uma atração à parte. Por isso tanto e duradouro sucesso. E assim sempre será pela eterna gratidão que lhe guarda o povo nordestino, principalmente sergipano, por ter a honra e glória de acolher tão bela flor agrestina.

*Rangel Alves da Costa - Advogado e escritor.
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Texto e imagem reproduzidos do site: nenoticias.com.br