segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Moacir Freitas: um cirurgião de escol


Publicado originalmente no site do Portal Infonet, em 30/01/2017.

Moacir Freitas: um cirurgião de escol.
Deixou seu nome gravado, indelével, na Medicina sergipana.

Por Lúcio A Prado Dias/Blog Infonet.

Nascido em 19 de abril de 1934, em Salvador, filho de Ângelo Basílio e Djanira Pinto da Silva, Moacir José da Silva Freitas colou grau como médico pela vetusta Faculdade de Medicina da Bahia, primaz do Brasil, em 1961, especializando-se desde então na área da cirurgia geral.

Alto, esguio, elegante, médico humanista e muito caridoso, começou a operar os primeiros casos na sua cidade natal, mais diretamente no Hospital Prof. Edgar Santos, até meados de 1963, quando então se transferiu para Aracaju, atendendo ao convite do colega Wilson Franco Rocha, então diretor do Hospital Sanatório de Aracaju.

No mesmo ano, levado também por Franco, passou a operar no Hospital Santa Isabel, à época dirigido pelo Dr. Gileno Lima, que subitamente assumiu o comando da instituição em substituição ao Dr. Carlos Firpo, tragicamente assassinado.

O hospital passava, naquela oportunidade, pela maior transformação de sua história, modernizando-se e montando um corpo clínico do mais alto nível, centrado no conhecimento científico desenvolvido a partir dos debates e discussões que ocorriam no Centro de Estudos “Dr. Carlos Firpo”, cuja atuação rivalizava de forma espetacular com o Centro de Estudos do Hospital Cirurgia. Não foi sem motivo que o 1º Congresso Médico de Sergipe, reconhecido pela Sociedade Médica e ocorrido em 1966, teve como organizadores principais a equipe do corpo clínico do Hospital Santa Isabel, liderada pelo Dr. Gileno Lima.

Nos primeiros anos da década de 60, a equipe cirúrgica do mais antigo hospital de Aracaju voltou ao cenário médico com toda a pujança, depois do triste episódio que motivou a saída traumática do Dr. Augusto Leite da instituição, na década de 20, em função de decisão equivocada do Conselho Administrativo da Associação Aracajuana de Beneficência, mantenedora do hospital, que suprimia as cirurgias de grande porte do hospital, num golpe fatal para as pretensões do eminente cirurgião.

A inauguração do Hospital Cirurgia em 1926, no governo de Graccho Cardoso, cuja pedra fundamental foi batida em 1922, foi uma resposta ( e uma vitória) do velho cirurgião contra seus desafetos, mandatários do Santa Isabel, ao “oferecer a Sergipe, finalmente, uma meio cirúrgico adequado, moderno e preparado para os novos procedimentos que surgiam”, nas palavras dele. A saída dele do Santa Isabel fez com que a instituição parasse no tempo, passando a realizar, após sua saída, apenas cirurgias de baixa complexidade.

A retomada veio somente a partir da segunda metade da década de 50, nas administrações de Carlos Firpo e Gileno Lima. Graças a doações de organismos internacionais, eles começaram a empreender transformações substanciais na estrutura física do prédio, inaugurando um novo centro cirúrgico ( que Gileno Lima habilmente denominou de “Centro Cirúrgico Dr. Augusto Leite”), ampliando as enfermarias, implantando serviços modernos de diagnóstico, criando assim um ambiente favorável para a prática moderna da Medicina.

Nesse contexto, quando Moacir Freitas chegou ao hospital, já encontrou uma equipe cirúrgica formada por médicos do porte de Wilson Rocha, Hugo Gurgel, Juliano Simões, Aristóteles Augusto, Francisco Rollemberg, Adelmar Reis, entre outros. E o seu nome foi se destacando como um exímio cirurgião, habilidoso, rápido nas decisões, sem perder o porte elegante ao operar. Formou uma dupla (que fez história) com outro cirurgião de escol, o Dr. José Augusto Bezerra, que treinou uma plêiade de novos médicos, como Marcos Prado, Fernando Maynard, Eduardo Bastos, Sérgio Lopes.

Moacir Freitas (Moca, como era conhecido pelos colegas) foi ainda cirurgião do Pronto Socorro do Hospital de Cirurgia por onze anos. A partir de 1964, passou a atuar na Companhia Leste Brasileira onde permaneceu até 1991. Foi mestre do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e manteve-se atuante por muitos anos. Teve a sua atuação profissional reconhecida pela Academia Sergipana de Medicina, numa solenidade que ficou conhecida como A Noite dos Cirurgiões, recebendo dos seus pares o “Bisturi de Prata”, pelos relevantes serviços prestados à população e a todos que dele precisaram para resolver os seus problemas de saúde, a maioria deles equacionados.

Esse “gigante” baiano sergipano da cirurgia faleceu nas primeiras horas do dia 18 de janeiro de 2017, deixando o seu nome gravado, de forma indelével, na história da nossa Medicina.

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br/blogs/lucioapradodias

Obras da artista plástica Rosa Faria




Obras da artista plástica Rosa Faria, expostas no Memorial de Sergipe,
 da Universidade Tiradentes - UNIT, em Aracaju/SE.
Imagens reproduzidas do blog: preciosidadesdesergipe.blogspot.com.br

Laura Amazonas


Nasceu em 03 de maio de 1884, em Aracaju, fruto da união do casal Manoel Amazonas e Josefa da Silveira Amazonas. Após a conclusão do curso primário, mudou-se para a cidade de Santos, São Paulo, em companhia de seu irmão Cleobo Amazonas, advogado. Graduou-se em Odontologia, em um período em que ser professora seria a única maneira da mulher exercer uma atividade profissional fora do lar; com apenas vinte e um ano de idade, recebeu o seu título de cirurgiã-dentista pela Faculdade de Pharmácia de São Paulo em 08 de fevereiro de 1905, sendo a primeira sergipana diplomada em um curso superior e em uma profissão liderada por homens. Tendo tornado pública sua identificação com a Doutrina Espírita, Laura Amazonas enfrentou diversos preconceitos, o que contribuiu para o esquecimento em torno da sua vida e obra, que acabaram por não receber destaque. Educadora, pedagoga por natureza, participou diretamente da fundação da Casa do Pequenino, Escola Amelie Boudet e o Lar Meimei, primeiro projeto integral de Escola Espírita em Sergipe, a partir dos ideais da União Espírita Sergipana, um espaço educacional voltado à evangelização e educação de crianças em situação de vulnerabilidade social. Sua didática pedagógica guarda uma vasta produção literária de músicas, poesias, peças teatrais, de cunho espírita, utilizadas no processo de ensino-aprendizagem infanto-juvenil. A Doutora Laura Amazonas, mostrou que em uma época na qual a mulher era colocada de lado, foi possível quebrar paradigmas e estabelecer novos conceitos para atuar na sociedade.

Texto e imagem reproduzidos do site: academiagloriensedeletras.org

Iara Santos Vieira


Sergipana de Aracaju, onde nasceu em 09 de abril de 1949. Formou-se em Letras pela Universidade Federal de Sergipe. Desenvolveu importantes projetos na área cultural do Estado, promovendo cursos seminários e coordenando oficinas literárias. Estreou na poesia em 1977 com o livro "Ruínas". A partir daí, publicou outros livros: "Interiores" (1982); "Esses tempos ad/versos" (1984); "A fome do paraíso" (1994) e "O coro da Serpente" (2001). Participou das seguintes antologias: "Ensaios V", SP (1981); "Poesia Jovem: anos 70", SP (1982); "Antologia da Nova Poesia Brasileira", RJ, (1992); "Poesia livre", Ouro Preto (1982) e "Poesia Sergipana no Século XX", RJ (1998). Foi premiada nos seguintes concursos: "Veia Poética", SP (1981); "2° Concurso Mackenzie de Poesia", SP (1981); "XII Concurso de Poesia Falada do Norte/Nordeste", Aracaju, 1983; "Prêmio Escriba de Poesia Piracicaba", 1999; "2° Concurso Internacional de Poesia Mulheres Emergentes", Belo Horizonte (1999). Iara Vieira faleceu em 19 de setembro de 2003, antes de vir a lume sua obra "ÍNTIMA HUMANIDADE" - editado pela Secretaria de Estado da Cultura de Sergipe em dezembro de 2003. Sua obra apresenta valor inconteste e presta relevante contribuição à cultura das letras no Brasil, por meio de sua criação poética e inovações de estilo e linguagem.

Foto e texto reproduzidos do site: academiagloriensedeletras.org

sábado, 18 de fevereiro de 2017

A História de Sergipe Decantada em Cordel

Viés militante guia obra do cordelista Zé Antonio.
Foto: Segrase.

Publicado originalmente no site do Portal Infonet, em 15/02/2017.

Nova obra da Edise conta a história de Sergipe em cordel.
Livro tem viés militante de defesa das coisas populares.

Uma das mais tradicionais representações da cultura popular nordestina, o cordel, é destaque em nova obra lançada pela Editora do Diário Oficial de Sergipe - Edise. Escrito pelo cordelista José Antônio dos Santos, o “Zé Antônio”, o livro “A História de Sergipe Decantada em Cordel” retrata a história do Estado a partir de um viés militante de defesa das causas populares. O lançamento acontece no dia 18 de fevereiro, às 18h, no Centro de Cultura e Arte J. Inácio, na Orla de Atalaia, em Aracaju.

Em sua primeira obra no formato de livro, o cordelista faz um passeio na história desde os tempos primórdios, passando por temas como o extermínio da população indígena, escravização negra, bem como a violência da época do coronelismo.

Formado em História, pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), o cordelista já foi premiado nacionalmente com o Prêmio Nacional de Literatura de Cordel, promovido pela Fundação de Cultura do Estado da Bahia. O escritor também foi contemplado pelo programa BNB de cultura, do Banco do Nordeste com o projeto: “O Nordeste em Cordel”. “Escrevo cordel há quase 40 anos, ao todo são mais de duzentos folhetos publicados. Geralmente costumo escrever sobre política, história e as manifestações culturais de todo o país, especialmente da região Nordeste”, explica o cordelista.

Para o diretor-presidente em exercício da Segrase, Ricardo Roriz, a obra de José Antônio dos Santos reafirma o posicionamento do Governo do Estado em dar visibilidade a autores sergipanos. “Nosso acervo conta com mais de 70% de títulos de escritores sergipanos, levamos essas obras para grandes feiras no Brasil e no exterior, essa é a nossa forma de contribuir com a disseminação da cultura sergipana”, destacou.

O autor

José Antônio dos Santos ( Zé Antônio) nasceu no povoado de Oiteros, Moita Bonita –SE, em 09 de agosto de 1955. Filho de Emiliano Antônio dos Santos e Maria Francisca dos Santos, é professor de história, filosofia e sociologia da Rede Estadual de Educação de Sergipe, e também militante de movimentos populares.

Fonte: Segrase.

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br/noticias/cultura

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Mais uma ação de Gilfrancisco

Foto reproduzida do blogdogutemberg.blogspot.com.br

Publicado originalmente no site do Jornal do Dia, em 30/07/2016.

Mais uma ação de Gilfrancisco.
Por Luiz Eduardo Costa.

Há um laborioso e incansável pesquisador das coisas e das gentes sergipanas. É o seguidor da trilha percorrida pelo inesquecível Luiz Antônio Barreto. Esse seu émulo tão primorosamente dedicado a seguir a trilha do mestre, infelizmente interrompida, é o baiano sergipanólogo Gilfrancisco. Pródigo nas revelações que faz em seus livros e ensaios sobre a História, cultura, arte e vida dos sergipanos, Gilfrancisco lançou na 'sexta Feira Cultural do Tribunal de Contas' o seu último trabalho, a organização e publicação do romance Simão Dias, da escritora Alina Paim, uma estanciana que viveu na terra que gerou tantos políticos ilustres e outros tantos intelectuais. Alina Paim, segundo Gilfrancisco, representa para a literatura brasileira a visão social do romance que escapa ao engajamento enjoativo do ¨realismo socialista¨, mas traduz, à maneira de um Graciliano, um Jorge Amado, um Lima Barreto, todo o drama da opressão, injustiças e lutas que permeiam a sociedade brasileira e nordestina. As Sextas Culturais do TC, uma criação do conselheiro Carlos Pinna de Assis ainda em 1997, foi mantida e prestigiada por todos os presidentes que o sucederam, e agora merece também a atenção especial de Clóvis Barbosa. O romance Simão Dias, que recebeu o apoio de Marcelo Déda, Jackson Barreto e a dedicação de Jorge Carvalho e Milton Alves, finalmente, já está nas livrarias, com a marca da pertinácia do mobilizador cultural Gilfrancisco.

Texto reproduzido do site: jornaldodiase.com.br

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Libertas de Lara Aguiar é a nova publicação da Edise


Publicado originalmente no site do Portal Infonet, em 13/02/2017.

Libertas de Lara Aguiar é a nova publicação da Edise.

Obra será lançada na próxima sexta-feira, dia 17, às 17h

“É um livro para sentir”. Assim a jornalista aracajuana Lara Aguiar descreve a sua primeira obra publicada em formato de livro. Intitulado “Libertas”, a obra que é permeada pela subjetividade é a mais nova publicação da Editora do Diário Oficial de Sergipe – Edise e será lançada na próxima sexta-feira, dia 17, às 17h, no Museu da Gente Sergipana Gov. Marcelo Déda, em Aracaju (SE).

Através do poema em prosa ou prosa poética [gênero contemporâneo que a cada dia tem ganhado mais espaço entre as novas gerações de escritores], a autora brinca com as palavras, fazendo uso de símbolos, signos e da musicalidade, permitindo assim que os leitores mergulhem profundamente em cada um dos 64 textos presentes na obra.

Como boa parte dos autores, Lara começou escrevendo para si. Preferia guardar a expor seus rabiscos. Assim, desde 2003 ela vem depositando a essência do que sente no papel, ora publicando, ora arquivando, para quem sabe futuramente publicá-los. “Libertas” é exemplo disto. Nele, estão gravados diversos textos escritos há mais de uma década, alguns alterados, outros preservados com as mesmas palavras para proteger a memória dos sentimentos que àquela época se faziam presentes.

Sem narrativas fixas, os textos impressos na sua obra remetem a uma ideia de catarse, onde os sentimentos se confundem e dão margem para que os leitores tenham várias interpretações a partir do que foi descrito. “Brincando com as palavras eu tento deixar os textos em aberto para que cada um interprete e sinta sem nenhuma interferência da minha parte”, descreve.

Edise

Assim como todas as obras da Edise, o “Libertas” também passou pela avaliação do Conselho da Editora, para que assim pudesse ser publicado. Para a jornalista, a notícia da aprovação foi um momento de emoção. “Esse livro é como se fosse um filho, tem uma representação muito forte. É a materialização de algo que nem eu imaginava que iria virar realidade”, afirma.

A autora

Lara Aguiar é membro da Academia de Letras de Aracaju
Nascida em Aracaju (SE), Lara Aguiar é jornalista, licenciada em Letras/Português e pós-graduada em Filosofia. É membro da Academia de Letras de Aracaju (ALA) e morre de amores pela palavra, falada e escrita, com todo seu simbolismo, sinestesia e literariedade. Atualmente é revisora do Jornal da Cidade e editora do Caderno Revista da cidade, suplemento do mesmo jornal.

Leitora voraz de escritoras como Clarice Lispector, a autora se destaca pelo ineditismo dos seus textos, como bem lembra o jornalista Marcos Cardoso, responsável por descrever no prefácio da obra o trabalho desenvolvido pela sergipana. Além do livro, ela possui desde 2008 o blog artscritta, onde disponibiliza todo o sentimentalismo dos seus poemas em prosa, além de textos com gêneros diferentes, como análises de filmes, livros, músicas ou ainda acontecimentos do cotidiano.

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br/noticias/cultura

Fonte e foto: ascom Segrase.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Carnaval Cultural do Carro Quebrado 2017


Livro do poeta sergipano Mário Jorge Menezes Vieira.


Publicado originalmente no site F5 News, em 23/11/2016.

Livro resgata memória do poeta sergipano Mário Jorge Menezes Vieira.

Por Fernanda Araujo.

O poeta Mário Jorge Menezes Vieira estaria completando 70 anos nesta quarta-feira (23/11/2016), se não fosse sua morte repentina aos 26 anos. Tendo até o nome em uma avenida importante no bairro Coroa do Meio, em Aracaju (SE), com o pouco tempo em que viveu ele conseguiu se expressar através de sua obra poética, influenciando artistas brasileiros até os dias de hoje.Considerado como um homem além de seu tempo, uma grande referência cultural sergipana e até além-divisas, Mário Jorge foi o primeiro poeta concretista sergipano, com uma trajetória de poesia e luta por uma sociedade mais justa e igualitária. Militante do Partido Comunista e do movimento estudantil, com seus poemas questionava a sociedade brasileira de seu tempo, em plena Ditadura Militar, o que o levou a ser preso por causa das suas atividades consideradas como subversivas perante o governo da época, e absolvido em 1972.Como forma de homenageá-lo, seu livro “De Repente Há Urgência” será relançado... no Cultart, em promoção da deputada Ana Lúcia Menezes Vieira, irmã de Mário Jorge. Além disso, também haverá uma exposição de algumas de suas obras, com influência das Poesias de Vanguarda, destacando-se mais a poesia concretista, práxis, social, marginal e pop, e também influências da Tropicália.

F5 News ouviu alguns admiradores de sua obra.

Amaral Cavalcante - poeta e jornalista"O poeta Mário Jorge foi uma espécie de antena, transmitindo sinais de rebeldia e coragem entre nós. Ele nos ensinou a explodir os limites provincianos da poesia e a inventar novos horizontes de afirmação cidadã. Mário Jorge foi o poeta visionário da nossa geração".

Aglacy Mary – poeta e educadora“Quando ele surgiu e começou a se mostrar poeta no nosso estado eu era uma menina ainda. Mário Jorge viveu na década de 70 e então eu só vim ter a dimensão de quem era Mário Jorge na faculdade. Felizmente, hoje se resgata a obra dele. Eu sempre tive o material dele comigo e a importância é enorme porque é um poeta que se destaca no cenário sergipano como alguém que trouxe uma forma de fazer poesia diferente. Escreveu sempre se mostrando com um olhar que poucos tinham, sempre dando um passo à frente. Uma forma de escrever que inaugurava um modo concretista de ser a poesia. A poesia de Mário Jorge se podia tocar, porque se falava muito ao social, escreveu muito em função de como percebia o mundo, as questões sociais eram muito abordadas, isso naquele tempo já era uma coisa importante. Hoje é como história, como elemento, como alimento para a poesia sergipana, eu acho fundamental. Tem um eterno compromisso, não só a lembrança do homem, essa coragem e como cidadão atuante, mas como poeta. Para as nossas letras Mário Jorge tinha presença. A poesia dele era muito ligada também à arte visual, então teve uma veia de artista plástico também. Mário Jorge é uma figura que precisa ser lembrada, uma poesia que pode-se ler e pode-se ver”.

Jeová Santana – professor de literatura e escritor“Ele morreu cedo, a gente não tinha uma boa ideia até onde sua obra chegaria. Ele teve uma presença muito forte no concretismo, tinha muito por onde caminhar, passar para outras vertentes, mas aí a morte dele veio e deixou isso em aberto. Ele tem uma importância cultural, porque estava nos anos 70, um momento bastante singular, numa cidade pequena como Aracaju, num estado pequeno que conseguiu com um pouco deixar obras que estão em sintonia com o nosso tempo até agora. Só acho que às vezes há certo exagero sobre o pouco material que ele deixou de acordo com a genialidade. É uma obra em formação, em crescimento, teria muito a dar ainda se não fosse a interrupção. Gosto muito de um poema dele que é bem pequeninho, ‘Aracaju arca azul senão se sul caminhos do Sul não são para mim’; Gosto muito desse poema porque é aquela história de ‘como dizer , como fazer a partir do lugar em que você está’. Ele tem uma importância, mas as vezes há uma supervalorização por pessoas até que conviveram muito com ele. Mas é preciso ter esse distanciamento, tem muita coisa bacana, mas tem outras que ficaram ainda e poderiam ser melhores resolvidas se ele tivesse tempo para isso”.

“Quem vê que veja”, por Jozailto Lima.

O bicho-homem arranha
a teia-terra, aranha
estradando surdos
dados
Amargos arte físseis
metralha fósseis
meta : mito
e morte.

Mário Jorge.

Texto e imagem reproduzidos do site: f5news.com.br

Elites sociais sergipanas: Os fazendeiros

Capa do livro (imagem: divulgação).

Publicado originalmente no blog Primeira Mão, em 16/03/2014.

Elites sociais sergipanas: Os fazendeiros
Por Afonso Nascimento*

Recentemente, o historiador Ibarê Dantas publicou um novo livro que enfoca a trajetória de quatro membros de sua família, todos eles fazendeiros de lá das bandas de Riachão, em Sergipe. É uma obra de memórias familiares que recebeu três resenhas positivas publicadas neste mesmo jornal. Em razão disso, resolvi não escrever mais uma, porém fazer um comentário geral sobre esse que é o seu décimo livro (DANTAS, Ibarê. Memórias de Família. O Percurso de Quatro Fazendeiros. Aracaju: Editora Criação, 2014).

Nada direi sobre o seu autor - a não ser no último parágrafo deste texto - pois se trata de um intelectual assaz conhecido dos leitores interessados em história política sergipana. Entrarei diretamente no livro. Ele tem duzentas e sessenta e seis páginas, contendo quatro anexos. Na capa e na contracapa são expostas duas fotografias da Fazenda Boqueirão, uma tomada pelos fundos e outra que mostra a frente da casa alta e com telhas romanas. A foto da capa, além da casa e do curral, exibe um rio e vastas extensões de terras com árvores esparsas. A outra foto expõe, no alpendre da casa, cinco gaiolas de passarinhos, uma porta e quatro janelas. O livro está estruturado em quatro capítulos correspondentes aos quatro fazendeiros cujos percursos são revelados. O terceiro capítulo, referente ao pai do autor, é, de longe, o mais alargado. A sua filha Sílvia Dantas escreveu o prefácio.

O livro é uma mistura de obra de historiador e de memorialista. Além de narrador, Ibarê Dantas é personagem e, naturalmente, fonte, pois, num tipo de trabalho que se quer de memórias, deve ter ouvido muitas histórias de sua família ao longo de sua vida - como acontece com qualquer família de qualquer classe social. Enquanto membro de uma família de fazendeiros, como era de se esperar, o autor mostra um grande conhecimento sobre como vivem os fazendeiros, os quais menciona como "elite local", o que, dito com outras palavras, significa "aristocracia rural" sergipana do gado. Voltando a falar de fontes, Ibarê Dantas recorre a fontes orais na forma de depoimentos de parentes seus e de outras pessoas, do seu arquivo privado sobre a sua família, de documentação familiar e de instituições públicas a que teve acesso, de jornais, entre outras.

O livro trata de um universo social que me é completamente desconhecido, ou seja, o mundo dos fazendeiros sergipanos. Quem são pessoas que compõem essa fração da classe dominante sergipana mais antiga, posto que Sergipe nasceu como uma grande fazenda que produzia gado para abastecer, no período colonial, aos mercados de Pernambuco e da Bahia? Cuja importância econômica foi diminuída quando o território sergipano foi transformado numa grande plantation de cana de açúcar? E que voltou a ter a sua relevância no PIB sergipano quando a economia canavieira perdeu espaço na competição com a produção de cana de São Paulo nos anos 1930 e 1940?

Pelo que entendi (se entendi) da leitura do livro, as famílias dos fazendeiros lembram "empresas" ou "organizações" com fins lucrativos. Com efeito, os fazendeiros, além de venderem as mercadorias produzidas em suas terras (gado, leite, cavalos, produtos agrícolas diversos, etc.), também compram e vendem fazendas. Existe, mesmo, um mercado de fazendas. Aqueles fazendeiros bem sucedidos aumentam seu patrimônio adquirindo propriedades rurais de outros membros desse grupo social. É por conta disso que, na narrativa de Ibarê Dantas, há um grande espaço dedicado às heranças, aos cartórios, à transmissão de terras de parentes para parentes e não parentes, aos inventários, etc. Não deixou de chamar a minha atenção o seu recurso feito por fazendeiros aos bancos públicos para empréstimos, os lucros e as perdas, bem como a necessidade de lidar com problema como secas, estiagens, doenças dos animais, etc.

O problema da mortalidade infantil entre as famílias de fazendeiros não passou desapercebido. A ideia que eu tinha era a de que essa questão tinha a ver somente com as classes trabalhadoras rurais. Todavia, com leitura do livro de Ibarê Dantas, ficou a impressão de que a mortalidade infantil também afetava as classes abastadas sergipanas. Nessa mesma linha, a existência de grandes proles entre famílias de fazendeiros era algo muito corrente, no período tratado pelo livro, a saber, da primeira metade do século XIX a fins do século XX. Por conta disso, posso imaginar o problema que deveria ser a questão da transmissão de bens aos herdeiros - muitas vezes realizada antes da morte desses grandes latifundiários. Se os futuros herdeiros não se casassem com pessoas da mesma classe, inevitavelmente ocorreria um relativo empobrecimento dessas pessoas. Embora não coubesse num trabalho de memórias, o livro poderia ficar muito mais rico se pudesse explicar as estratégias matrimoniais dos fazendeiros para seus filhos e suas filhas, como formas de manter ou aumentar os seus patrimônios e reproduzir a sua classe social.

Ibarê Dantas pouco fala sobre os vaqueiros desses fazendeiros. Em relação ao primeiro parente cujo percurso é reconstituído, o autor diz que ele tinha uma escravaria e sobre isso mostra documentação. Na parte do livro em que trata de seu pai, disse que teve pequenos problemas com vaqueiros na Justiça do Trabalho. Vale lembrar que os vaqueiros somente neste século XXI estão sendo reconhecidos como profissão, ou seja, quase quinhentos anos depois de se firmarem como classe oposta àquela dos fazendeiros. Nada também escreveu sobre a questão da reforma agrária tão importante que foi nos anos 1950 e 1960 no Brasil. Mas menciona antes o problema da falta de braços advindo com o fim da escravidão em Sergipe - um problema também abordado por Josué M. dos Passos em seus dois livros sobre a história econômica de Sergipe.

A política dos fazendeiros é tratada nos três capítulos – embora ele tente minimizar o papel de sua família na política sergipana. O maior destaque dado por Ibarê Dantas é a respeito de seu pai, político ligado à UDN. Faz, a respeito dele, uma longa prestação de contas documentada de desempenho como prefeito da cidade que carrega o seu sobrenome, ou seja, Riachão do Dantas. Por outro lado, Ibarê Dantas insiste sobre a atenção dada por seus parentes fazendeiros à educação de seus filhos. Isso merece uma reflexão alongada que não pode ser feita aqui. Penso que a educação superior passa a ser central na socialização de pessoas de sua classe e de sua geração, quando Sergipe entra num rápido processo de modernização nos anos 1950 e 1960,momento em que o diploma universitário adquire um alto valor numa sociedade que vai se tornando muito competitiva. Membros de sua classe que não souberam fazer essa transição, perderam o trem da história.

Aparentemente sem ter tido essa pretensão, Ibarê Dantas escreveu um livro sobre as elites sociais sergipanas, colocando-se ao lado do trabalho de Orlando Dantas (A vida patriarcal em Sergipe), que se refere às elites ligadas às plantations de cana-de-açúcar, ao passo que o historiador consagrado aborda as elites sociais criadoras de gado. Em minha opinião, Ibarê Dantas memorialista aparece menos que o Ibare Dantas historiador. Notei muito bem o memorialista quando ele descreve a sua casa ou as brincadeiras de meninos. Esse aspecto da narrativa surge com força quando ele traça perfis de pessoas queridas dele. Aí Ibarê Dantas, sempre reservado e contido, mostra quais os valores que ele aprecia nas pessoas, logo os seus valores. Na biografia de seu pai, ele se deixa aparecer várias vezes, torna-se personagem da história familiar que conta, inclusive através de fotografias. Isso me fez pensar: por que ele não escreve suas próprias memórias como indivíduo, como professor, como pesquisador, como intelectual, etc., na primeira pessoa? Tenho certeza que tem muito a dizer. A sua participação tímida na biografia de seu pai foi um bom começo. Os seus amigos, leitores e admiradores já estão no aguardo.

*Professor de Direito da UFS.

Texto reproduzido do blog: primeiramao.blog.br