Publicação compartilhada do site JLPOLÍTICA, de 14 de Julho de 2026
“Ele, Descrito por Eles”: a memória como a derradeira obra de um construtor
Artigo de Aurélio Belém do Espírito Santo *
Há, no ocaso de João Alves Filho, um paradoxo que nenhuma de suas obras anunciava. O homem passou a vida a fixar coisas contra o tempo - pontes sobre o Rio Sergipe, adutoras contra a seca, avenidas por onde ainda respira o trânsito da capital.
Enfrentou a estiagem do sertão como quem sabia que, ali, a água vale por um direito. E, no epílogo, foi vencido pela única aridez que a engenharia não represa: o Alzheimer, que secou-lhe, aos poucos, a lembrança de tudo quanto erguera e si mesmo. O construtor das águas viu o próprio rio da memória correr para o esquecimento. Secar.
É contra esse segundo apagamento - o que os antigos temiam mais do que a morte - que se ergue, agora, um livro. “Ele, Descrito por Eles” nasceu, conta a organizadora, professora e irmã de João, Marlene Alves Calumby, de uma simples roda de conversa entre amigos.
O título já é um método: como o homenageado não podia mais dizer de si, coube aos outros dizê-lo. São vinte e cinco capítulos escritos a muitas mãos por quem com ele conviveu de perto. E, num gesto de reparação, a coletânea guarda ainda discursos e manifestações do próprio João, de modo que o livro não apenas o recorda: devolve-lhe a voz que a doença calara.
Entre as vozes convocadas a essa restituição está a minha e a assino com um orgulho que não me acanho de confessar. Diz a sabedoria antiga que um homem só se realiza por inteiro quando tem um filho, planta uma árvore e escreve um livro. Se há verdade nesse provérbio, dou-me por realizado - e mais ainda por ter ao meu lado uma vocação profissional que me realiza e, em Carol – minha esposa –, um amor que se fez sacramento e também sobrenome.
Este é o meu primeiro livro publicado - outros já amanhecem em rascunho para enfim ganhar as páginas num futuro próximo. Devo à minha saudosa mãe o gosto que me acompanha desde menino: o da leitura e, dentro dele, o fascínio pela história e pelas biografias. Esta, a rigor, não é uma biografia, mas assume o ofício aqui e acolá, cada vez que Ele é, enfim, contado por eles.
Tenho, é verdade, razões antigas de proximidade com o João em questão. Meu pai esteve ligado a João Alves - secretário de Estado em mais de um dos seus governos e seu companheiro de estrada por décadas. Eram compadres, e João e dona Maria do Carmo levaram à pia batismal minha irmã caçula, Tarlis.
Mas registro aqui que não chego às páginas por herança: chego pela pena. Um ano após a morte de João, publiquei sobre ele um artigo num jornal impresso de ampla circulação, e foi esse texto que me valeu o convite - que recebo como honra - de minha antiga professora de Direito, Marlene, para que eu me juntasse aos 24 que descrevem com maestria esse enorme personagem da vida sergipana e nordestina.
Do conjunto desses depoimentos emerge, para o leitor em geral, uma advertência amiga: não se exige comungar da ideologia política de um governante para reconhecer-lhe o legado. Independentemente de preferências ou vinculações político-partidárias, João era um estadista multifacetado, e um retrato a muitas vozes é o único que faz jus a essa pluralidade - todo homem público é, afinal, vários homens ao mesmo tempo.
Mas havia, para além da variedade, um só João – um João singular: o que se afligia com as mazelas do seu povo, sobretudo o nordestino, o do interior esquecido. Não por acaso foi convidado, no Governo José Sarney, a ocupar o Ministério do Interior, como se o mapa dos seus desvelos houvesse, enfim, encontrado o seu ministério.
Não confundo, porém, homenagear com endeusar, nem reverência com unanimidade. A homenagem que preserva um homem é a que o conserva em tamanho humano; porque a estátua, ao contrário da pessoa, não tem calor nem hesitação: deixa de ser gente para virar moldura de praça.
Há, ainda, um dever de gratidão geográfica. Sergipe é pródigo em erguer estátuas e avaro em guardar memória; pouquíssimos nomes atravessam, entre nós, a fronteira do partidarismo, e João Alves é um deles. Tenha-se votado nele ou contra ele, todo aracajuano habita a cidade que ele redesenhou, cruza a ponte que ele lançou, bebe da água que ele levou ao interior. Ignorá-lo seria ingratidão com a própria paisagem.
O lançamento desse livro em coautoria se deu nesta terça, 14, na sede da Assembleia Legislativa, que, em 1987, fora denominada Palácio Governador João Alves Filho. Curiosamente, a Casa do Povo que João Alves nunca quis habitar como parlamentar. Três vezes governador, duas vezes prefeito, ministro do Interior, jamais disputou uma cadeira no Legislativo: foi, por vocação, homem do Executivo e da decisão, não do plenário. Que a sua memória seja restituída no templo do poder que ele preferiu não ocupar tem o sabor de uma ironia gentil, desta vez.
No fim, é esta a delicadeza secreta do livro: o homem que perdeu a memória torna-se, nestas páginas, inesquecível – se é não devamos dizer que ele sempre fora, independente do que se diga neste livro coletivo de agora. A doença roubou-lhe o passado.
Somos nós, agora, que lho devolvemos, pela boca de quem o viu. E fica a lição que nem sempre um homem de obras percebe a tempo: a construção mais resistente à erosão não se ergue com concreto, mas com tinta e testemunho. A memória é a única ponte que sobrevive ao construtor. Viva pois e então João Alves Filho!
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Articulista - Aurélio Belém do Espírito Santo, É advogado e ex-diretor da OAB-SE e escreve às terças. A opinião do articulista não reflete necessariamente o posicionamento do Portal JLPolítica & Negócio.
Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolítica com br
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