segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Hospital de Cirurgia, cem anos de memória...

“Alguns edifícios envelhecem, outros entram para 
a história, e o do Cirurgia conseguiu 
fazer as duas coisas”

Márcia Guimarães: uma gestora que já entrou 
para a história do Hospital de Cirurgia

Marcelo Oliveira: um doutor em Ciências 
Sociais,  professor universitário e 
dono uma visão social fraterna

Legenda da foto: Dr. Augusto Leite - 1887-1978: médico que sobrevive aprisionado pelo idealismo e pelo humanismo da Medicina

Artigo compartilhado do site JLPOLÍTICA, de 14 de Julho de 2026

Opinião - Hospital de Cirurgia, cem anos de memória e a mais alta significação na vida de Sergipe

Por Marcelo Oliveira * (Coluna Aparte)

Há lugares que deixam de ser construções para se tornarem parte da biografia de um povo. O Hospital de Cirurgia é um deles. Poucos edifícios em Sergipe testemunharam tantas histórias de dor, esperança, despedidas e reencontros quanto aquela centenária casa fundada em 2 de maio de 1926 pelo médico Augusto Leite - 1887-1978 - e um grupo de idealistas que acreditavam que a arte de curar também podia ser um exercício permanente de solidariedade.

Durante um século, o Cirurgia fez mais do que acompanhar a história da saúde sergipana. Em muitos momentos, confundiu-se com ela. Formou gerações de médicos, enfermeiros e dentistas, acolheu estudantes da Universidade Federal de Sergipe, consolidou-se como referência em especialidades de média e alta complexidade e abriu suas portas para milhares de pessoas vindas dos municípios do Estado, do interior da Bahia e de Alagoas. Para muitos nordestinos, chegar àquele hospital significava alcançar a última esperança.

Minha história com esse hospital começou cedo demais. Ainda na década de 1980, minha mãe ocupou um leito da ala universitária. Lembro-me pouco dos corredores e quase nada da arquitetura, mas a memória preservou aquilo que realmente importa: a angústia silenciosa dos acompanhantes, a dedicação dos profissionais que ali trabalhavam e o rosto sereno de uma doutora de ascendência japonesa que cuidava do tratamento de mina mãe.

A Medicina da época possuía limites que hoje parecem distantes. Os recursos disponíveis não foram suficientes para restituir-lhe a vida. Era um Brasil anterior ao Sistema Único de Saúde, quando adoecer, sobretudo para as famílias pobres, significava enfrentar não apenas a enfermidade, mas também as barreiras de um acesso extremamente desigual.

Voltei inúmeras vezes ao Cirurgia ao longo da vida. Algumas para visitar amigos, outras para acompanhar parentes e tantas simplesmente porque o destino insiste em conduzir todos nós, em algum momento, aos corredores de um hospital. Recordo a antiga emergência, o movimento incessante das calçadas, os vendedores ambulantes, o cheiro das frutas misturado ao trânsito intenso da rua, as pequenas lanchonetes improvisadas, o vai e vem de gente carregando preocupações maiores que as próprias forças. Durante décadas, aquele ambiente fez parte da paisagem afetiva de gerações inteiras de sergipanos.

No início de julho de 2026, precisei retornar ao Cirurgia para acompanhar a operação de um familiar. Confesso que entrei procurando as marcas do passado. Queria rever as referências que a memória guardara durante tantos anos. Encontrei outra coisa: um hospital inteiramente renovado.

As paredes restauradas, a pintura impecável, a sinalização organizada, os ambientes convidativos e, sobretudo, um atendimento profundamente humanizado produziram em mim uma sensação difícil de explicar. O antigo cenário de desordem havia desaparecido. Os ambulantes já não ocupavam as calçadas, o entorno apresentava limpeza e esmero, os estabelecimentos de alimentação funcionavam de maneira adequada e a impressão era a de estar diante de uma moderna instituição hospitalar.

A memória insistiu em procurar a antiga capela. Não a achei. Em seu lugar, chamou-me a atenção o busto de Augusto Leite, discretamente posicionado como quem continua recebendo, em silêncio, cada pessoa que atravessa aquela porta. Foi impossível não imaginar quantas vidas aquele homem ajudou a transformar. Mas o que mais me tocou não foi a estrutura física e sim o cuidado.

Ainda no setor pré-operatório, uma enfermeira alta, de voz tranquila e olhar sereno, explicou os procedimentos com uma calma que parecia diminuir naturalmente a ansiedade de todos nós. Pediu que o paciente trocasse de roupa, orientou cada etapa e indicou onde deveríamos ficar, a sala de espera, com uma delicadeza rara nos dias atuais. Às vezes, a Medicina começa antes mesmo do primeiro remédio: na palavra certa, no gesto sem pressa, no acolhimento de quem compreende que o sofrimento nunca é apenas físico.

A sala de espera do Centro Cirúrgico também surpreende. Confortável, conta com televisão e um monitor que informa, passo a passo, o andamento de cada paciente, poupando as famílias da agonia de outros tempos, quando as notícias tardavam e a incerteza tomava conta de tudo. Água gelada e gratuita está à disposição de todos, sem qualquer restrição. A recepção, igualmente agradável, completa essa atmosfera de zelo.

Na recepção, uma imagem de Nossa Senhora vela pelo movimento de quem chega e de quem parte. Ela diz muito da religiosidade dos sergipanos e evoca a presença das Irmãs Camilianas, tão devotas ao ofício de cuidar. Não as encontrei desta vez, mas algo de sua ternura parece impregnar ainda aqueles espaços.

Enquanto aguardava o término da cirurgia, pensava em quantas histórias semelhantes à minha passaram por aqueles corredores ao longo desses cem anos. Mães, pais, filhos, avós, crianças e idosos confiaram ali, geração após geração, suas últimas esperanças.

Um hospital nunca é apenas um lugar de curar doenças. Ele se torna um arquivo silencioso das emoções humanas e, ali lembrava-me do médico Dr. Reges Meira responsável pela radioterapia no setor de Oncologia, Dr. José Teles de Mendonça, ao realizar em 1986, o primeiro transplante bem sucedido de coração, nesta unidade de saúde, e que está apto e com vontade de voltar novamente para ali, tamanha é a sua crença na grande mulher que é Márcia Guimarães, que opera milagre na gestão desta grande Casa de  Saúde.

Talvez por isso o Hospital de Cirurgia desperte tamanho sentimento de pertencimento entre os sergipanos e foi durante aquela vigília que outra lembrança distante veio à tona. No início de 1978, quando faleceu Dr. Augusto Leite, uma emissora de rádio de Aracaju dedicou toda a programação musical daquele dia à sua despedida.

Eu era ali muito jovem, mas aquela homenagem ficou gravada na memória como demonstração do respeito que Sergipe nutria por um médico cuja vida se confundiu com o compromisso de cuidar das pessoas. Sua antiga residência, na Barão de Maruim, hoje ocupada por uma agência da Caixa Econômica Federal, permanece como discreta testemunha da passagem de um homem cujo maior patrimônio acabou construído não em pedra ou concreto, mas na confiança de sucessivas gerações.

Nem todos sabem o quanto o Hospital de Cirurgia esteve perto de perder a capacidade de continuar escrevendo essa história. A intervenção judicial de 2018 representou um ponto de inflexão decisivo. A reorganização administrativa, liderada pela enfermeira Márcia Guimarães, permitiu recuperar a estabilidade institucional, modernizar processos, ampliar a qualidade assistencial e devolver aos sergipanos um patrimônio que pertence muito mais à memória coletiva do que às paredes centenárias.

Comemorar cem anos de uma instituição hospitalar filantrópica é celebrar muito mais do que a longevidade de um edifício. É reconhecer uma tradição construída por milhares de profissionais anônimos: médicos, enfermeiros, técnicos, recepcionistas, maqueiros, fisioterapeutas, nutricionistas, trabalhadores da limpeza e tantos outros que fizeram do cuidado uma vocação cotidiana. São eles que mantêm viva a obra iniciada por Augusto Leite há um século.

Ao deixar o hospital naquela noite, compreendi que não retornara ao mesmo lugar onde estivera quarenta anos antes. O prédio era praticamente outro, em que os corredores agora parecem diferentes e, os serviços renovados. Mas algo permanecia intacto: a velha missão de acolher quem chega trazendo consigo o peso da esperança.

É provavelmente isso que explica por que essa instituição atravessou cem anos sem deixar de ocupar um espaço tão profundo na memória afetiva dos sergipanos. Alguns edifícios envelhecem, outros entram para a história, e o do Cirurgia conseguiu fazer as duas coisas.

*  É doutor em Ciências Sociais, professor universitário e editor de livros.

Texto e imagens reproduzidos do site: jlpolitica com br

Nenhum comentário:

Postar um comentário