quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A Historiografia de Maria Thétis Nunes.


Publicação originária do blog Historia Contemporânea UFS, 26/10/2009.

A Historiografia de Maria Thétis Nunes. 
Por Jorge Carvalho do Nascimento (DHI/UFS).

Maria Thétis Nunes trabalhou como professora e pesquisadora ininterruptamente durante os últimos 63 anos. Nesse período publicou mais de 10 livros, além de artigos e ensaios em revistas científicas. Nascida no município de Itabaiana, região do agreste do Estado de Sergipe, concluiu o seu curso de graduação na Bahia aos 22 anos de idade. Na sua estréia como intelectual concorreu à cátedra de Geografia e História do Atheneu Sergipense com a tese Os árabes: sua contribuição à civilização ocidental, acerca da civilização árabe, na qual discutiu o Islamismo, a literatura árabe, a arte muçulmana, a Filosofia e a ciência árabes, além da influência muçulmana no Brasil. A partir daí trabalhou dando aulas e dirigindo o Atheneu Sergipense até a sua mudança para o Rio de Janeiro como estagiária do Instituto Superior de Estudos Brasileiros – o ISEB. Depois do Rio de Janeiro trabalhou na Argentina como Adida Cultural do Brasil, na cidade de Rosário. Ao retornar a Aracaju voltou para o Atheneu e passou a atuar também na Faculdade Católica de Filosofia até a fundação da Universidade Federal de Sergipe, onde ingressou em 1968. O seu primeiro texto foi publicado em 1945. Depois, em 1962, pela primeira vez ela se mostrou como historiadora da Educação. O seu livro sobre o ensino secundário no Brasil foi recolhido pela ditadura militar e teve a sua circulação proibida, em 1964. Em 1973 produziu o primeiro trabalho sobre a História de Sergipe. Em 1976 fez a sua primeira reflexão sobre os intelectuais, ao estudar Sílvio Romero e Manoel Bonfim. Em 1981 inventariou os documentos relativos ao Brasil existentes no Arquivo Histórico Ultramarino, em Portugal. Em 1984 publicou a sua História da Educação em Sergipe. Em 1984 colocou em circulação o primeiro volume da História de Sergipe Colonial. Em 2008, foi homenageada pela Sociedade Brasileira de História da Educação, durante o V Congresso Brasileiro de História da Educação, realizado em Aracaju.
A intérprete da História

Maria Thétis Nunes é fundamentalmente uma intérprete da História de Sergipe, debruçada sobre a análise da Economia, da vida social, das atividades lúdicas, das atividades intelectuais, dos estudos biográficos. Ao tomar posse na Academia Sergipana de Letras, em abril de 1983, ela manifestou toda a sua consciência diante da História, explicitando a sua posição ideológica:
Creio na marcha da História, no devenir, no advento de um mundo mais justo e mais humano. Apesar de ter vivido parte da minha vida sob dois regimes ditatoriais, cultuo a liberdade. (...) Também estou com os que lutam defendendo acultura ancestral, dilacerada em nome da civilização crista ocidental, como fazem os povos da África negra ou da Ásia tropical. (...) Assim tenho caminhado impulsionada pela uta e pela esperança[1].

Sua historiografia está assentada sobre a contribuição teórica do Marxismo, valorizando principalmente o diálogo com Plekhanov, a partir de quem entende estar “a organização social em equilíbrio instável, onde as forças produtivas sociais estão em crescimento”[2]. Para ela, “Labriola assinala com razão que exatamente esta instabilidade, bem como os movimentos sociais e as lutas de classes sociais por ela [a Historia] engendradas, preservam os homens da paralização intelectual”[3].

Esse modo de ler a História foi aperfeiçoado por Maria Thétis durante o período em que atuou como bolsista-estagiária do Instituto Superior de Estudos Brasileiros – o ISEB. O Instituto agrupava as mais diversas tendências ideológicas, buscando interpretar a realidade nacional, de modo a arrancar o Brasil do subdesenvolvimento para levá-lo ao que os seus teóricos consideravam o desenvolvimento.

Certamente, para as reflexões acerca da História feitas por Thétis Nunes em tal período, foram muito importantes as contribuições oferecidas por Nelson Werneck Sodré, mas não é possível desconsiderar o peso dos estudos realizados no mesmo ISEB por Alberto Guerreiro Ramos, Álvaro Vieira Pinto e Ignácio Rangel. Não sem propósito, é a estes que ela dedica o seu livro Ensino secundário e sociedade brasileira, publicado em 1962, resultante dos estudos que realizou no Rio de Janeiro. Alberto Guerreiro Ramos foi homenageado novamente em 1984, quando a autora colocou em circulação o livro História da Educação em Sergipe.

Os padrões de interpretação da História que Thétis Nunes incorporou no ISEB chegaram ao Brasil em face da interlocução de muitos intelectuais com o pensamento circulante na Comissão Econômica Para a América Latina – CEPAL, que funcionava no Chile desde 1948. Um desses brasileiros era Alberto Guerreiro Ramos, ao qual Thétis homenageia por tê-la ensinado a compreender e operar a lógica dialética. A historiadora sergipana assumiu dele a concepção faseológica” de História, “a noção de que a história tem fases que se sucedem e que a adequação dos instrumentos de análise às peculiaridades da fase em que se encontra o analista corresponde a um gesto revestido de rigor científico e, acima de tudo, de compromisso político com a superação das agruras daquele momento[1].

Isso levava Guerreiro Ramos a propor a chamada redução sociológica que entusiasmou Maria Thétis Nunes. Assim, as teorias formuladas pelos teóricos das ciências humanas na Europa e nos Estados Unidos da América deveriam passar pelo crivo empírico da realidade local e somente teriam validade quando interpretadas vis-a-vis com as condições produzidas pelo capitalismo no Brasil. Foi esse entusiasmo de Maria Thétis que levou Nelson Werneck Sodré a elogiar o seu trabalho:
O condicionamento histórico fica perfeitamente claro: a cada etapa do desenvolvimento brasileiro corresponderam, necessariamente, um sistema educacional e as transformações que lhes foram próprias. (...) A professora Maria Thétis Nunes coloca esse desenvolvimento de forma clara e objetiva, situando cada uma das fases e as transformações que lhes foram próprias[2].

A historiografia de Maria Thétis Nunes tem ainda duas outras características: a primeira diz respeito à luz que lança sobre Manoel Bonfim, a quem designou “pioneiro de uma ideologia nacional”[3]; a segunda concerne a isenção com que a pesquisador a observa as relações entre o regional e o nacional, sem qualquer tensão.

Texto e imagem reproduzidos do blog: historiacontemporaneaufs.blogspot.com.br

[1] Cf. BARRETO, Luiz Antônio. “Maria Thétis Nunes: perfil historiográfico de uma mestra”. In: Rev ista do Mestrado em Educação, UFS, v. 9, p. 9-16, jul./dez. 2004. p. 14.
[2] Cf. BARRETO, Luiz Antônio. “Maria Thétis Nunes: perfil historiográfico de uma mestra”. In: Revista do Mestrado em Educação, UFS, v. 9, p. 9-16, jul./dez. 2004. p. 11.
[3] Cf. BARRETO, Luiz Antônio. “Maria Thétis Nunes: perfil historiográfico de uma mestra”. In: Rev ista do Mestrado em Educação, UFS, v. 9, p. 9-16, jul./dez. 2004. p. 11.
[4] Cf. FREITAS, Marcos Cezar de. “A historiografia de Maria Thétis Nunes e o ISEB”. In: Revista do Mestrado em Educação, UFS, v. 9, p. 17-24, jul./dez. 2004. p. 18.
[5] Cf. SODRÉ, Nelson Werneck. “Prefácio à 1ª edição”. In: NUNES, Maria Thétis. Ensino secundário e sociedade brasileira. Aracaju: Editora UFS, 1999. p. 13.
[6] Cf. NUNES, Maria Thétis. “Manoel Bonfim: pioneiro de uma ideologia nacional”. In: BOMFIM, Manoel. O Brasil na América. Rio de Janeiro: Editora Topbooks, 1997. 2ª edição. p. 13.

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