sábado, 7 de janeiro de 2017

Segunda Guerra Mundial em Sergipe



Publicado originalmente no site do Portal Infonet, em 27/09/2012.

Aracaju, 1942: entre os torpedos, quem eram as vítimas?

Artigo de Raquel Anne Lima de Assis, graduanda em História/UFS

Entre 15 e 17 de agosto de 1942 a Segunda Guerra Mundial chegou a Sergipe com o trágico episódio que causou a morte de cerca de 610 pessoas. Cinco navios mercantes foram torpedeados pelo submarino alemão U-507: o Arara, o Araraquara, o Baependi, o Aníbal Benévolo e o Itagiba.

Como consequência disto, corpos chegaram às praias sergipanas, alguns tão destroçados que se encontraram apenas partes deles; outros estavam em tal fase de putrefação que precisaram ser enterrados logo. Entre eles estavam homens, mulheres e crianças. Junto com as vítimas, chegou às praias o pouco que sobrou dos seus pertences pessoais, como joias, roupas, sapatos, carteiras etc. Estes objetos acabam oferecendo pequenas informações sobre os hábitos e a situação socioeconômica das vítimas.

Um exemplo é caso de uma senhora, passageira do Araraquara, chamada Maria de Lourdes Souza Rangel, com prováveis 35 anos de idade. Deveria ser professora, porque estava usando um anel da profissão. Provavelmente possuía uma boa condição financeira, pois se vestia bem, usando seda, gersey e relógio de ouro. Mas não era tão abastada, já que estava com um colar de pérola artificial. Provavelmente não tinhas condições suficientes para um legítimo. Cuidava das unhas e tinha uma boa dentição, sinais de mulher vaidosa.

Mas a tragédia também levou homens vaidosos, com suas unhas feitas, barbeados e dentes bem tratados, como é o caso do 2º tenente convocado Noberto Silvio Paiva Anciães, que até sapatos de camurça usava. Mas nem todos eram assim, como aqueles que apresentavam costumeiramente unhas descuradas, meias remendadas, provavelmente sem condições financeiras, além de uma certa negligência com os dentes.

Entre as vítimas existiam homens de negócios, que vestiam paletós, como Renato Cardoso Mesquita, corretor comercial, com escritório em Recife. Alguns possuíam relógios de ouro, roupas de marcas conhecidas, gravatas inglesas, sapatos de couro trançado, meias com detalhes de seda e cueca de cordonet. Assim como ocorreu com as mulheres, algumas vítimas apresentavam unhas e dentes bem tratados, tendo até cápsulas de platina.

Os vestígios também nos permitem dizer que alguns talvez se conhecessem e deveriam ter vindo e/ou indo de um mesmo local. É o caso de dois homens que foram encontrados usando um mesmo uniforme branco, possivelmente marinheiros, com um “T” ou âncora bordado. Outros tinham acabado de se casar como, Renato de Oliveira Veiga, encontrado com uma aliança, com o nome “Zilah” e a data “22-03-942”. Como os torpedeamentos foram em agosto, havia apenas 5 meses de casado.

Dentre esses cadáveres, havia uma criança. Baseado na sua evolução dentaria, tudo indica que tinha cerca de 2 anos. Foi identificada pelas roupas e pulseira, como sendo “NOEME”, filha do “Sub-tte, LINS CAVALCANTE”. A pulseira era de fios de prata com uma medalha de santa, evidenciando o catolicismo dos pais.

No entanto, sabe-se que esses objetos não serviram apenas para identificação dos corpos, mas também para satisfazer a cobiça de alguns. Como o relógio de pulso e botão de colarinho, pertencentes a Eduardo Alexandre Baumann, industrial e comerciário, que foram apreendidos nas mãos de um morador da pacata Aracaju. Como se vê nem todos os sergipanos correram às praias para ajudar às vítimas do U-507.

Portanto, o submarino U-507, ao matar mais de 600 pessoas, não serviu apenas de estopim para o Brasil entrar na guerra. Ele também destruiu vidas construídas ao lado de seus familiares, deixando-os desolados, como esposas, maridos, pais, filhos e amigos.

Raquel Anne Lima de Assis é graduanda em História pela UFS, integrante do Grupo de Estudo do Tempo Presente e bolsista voluntária do projeto “Memórias da Segunda Guerra em Sergipe”, apoiado pelo CNPq e pela FAPITEC – Edital PRONEM/2011. O artigo integra as colaborações feitas à coluna do GET.

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br/noticias/educacao

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