quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Governador Jackson Barreto depõe à Comissão Estadual da Verdade.


Publicado originalmente no site G1 SE., em 24/02/2016.

Governador Jackson Barreto depõe à Comissão Estadual da Verdade.

Jackson disse que viveu na luta pela redemocratização do País.
Governador foi preso durante três vezes na ditadura militar.

Do G1 SE.

Na segunda fase das sessões públicas para registro de depoimentos, a Comissão Estadual da Verdade reúne, no período de até esta sexta-feira (26), em sessões públicas no Museu da Gente Sergipana, mais seis vítimas do regime militar instaurado no Brasil pelo Golpe de 1964.

Em 20 de fevereiro de 1976, a "Operação Cajueiro", desencadeada em Sergipe pelos militares no ápice da ditadura, teve como uma de suas vítimas o então deputado estadual e hoje governador Jackson Barreto. Para elucidar e tornar públicos os fatos ocorridos à época, o governador relatou, na manhã desta quarta-feira (24), à Comissão Estadual da Verdade (CEV), o que viveu na luta pela redemocratização do País.

Além de Jackson Barreto, nesta fase, já foram coletados depoimentos das vítimas, Delmo Naziazeno (servidor público) e do jornalista Milton Alves. O advogado Carlos Alberto Menezes, o promotor de Justiça, José Elias Pinho de Oliveira e Marcélio Bonfim serão os próximos a serem ouvidos.
“Sofremos na pele as consequências da luta pela liberdade e redemocratização do País. Na Operação Cajueiro eu não fui torturado, porque na época eu era deputado e imagino que eles estavam preocupados com a repercussão de torturar um deputado, foi mais uma tortura psicológica, com ameaças o tempo todo. O coronel gritava, batia na mesa e dizia: ‘Deputado, aqui as pessoas falam o que quer e o que não quer’, deixando claro que se alguém não falasse o que eles queriam, teriam meios persuasivos para coletar as informações. Mas eles não conseguiram nada da nossa parte. Da minha parte, na verdade, eles queriam justificar que meu mandato de deputado estadual era um instrumento de financiamento das atividades do Partido Comunista Brasileiro (PCB) do qual eu era militante, filiado do setor de Agitação e Propaganda, naquele momento. Sofri processo de Segurança Nacional e depois todos nós fomos absolvidos, ainda assim, tentaram rever minha absolvição. Era algo que, depois entendi, também de interesse político, já que eu seria candidato a deputado federal em 1978”, relatou o governador.

Em seu depoimento, Jackson recordou que além da Operação Cajueiro, onde foi detido por quase um dia completo para interrogatório, foi preso político por mais duas vezes, durante a ditadura militar. Quando estudante universitário, ao lado dos companheiros de movimento estudantil, também só não foi expulso da Faculdade de Direito pela coragem do então reitor, João Cardoso, que se negou a fazê-lo.

“Fui preso três vezes, primeiro com o grande jornalista sergipano, Ancelmo Gois, fomos presos no Quartel do 28º BC. A segunda vez, foi na sede da antiga Polícia Federal, na rua Capela, onde fiquei na mesma cela do major do Exército, João Teles de Menezes, muito ligado à figura de Luís Carlos Prestes. Era também meu companheiro de cela o geólogo Artemísio Resende e José Alves.

Nascimento, irmão da primeira dama da capital, Maria do Carmo. Depois fui preso e levado para o Quartel da Polícia Militar, na rua Itabaiana, onde passei 17 dias e recebíamos visitas de alguns companheiros e familiares e a todos orientávamos no sentido que a coisa mais importante que todos tinham que fazer era divulgar a nossa prisão, porque cada vez que um companheiro era preso o fundamental era que informássemos o máximo à opinião pública, para garantir a segurança e  a própria vida daquele que foi preso”, recordou.

Antes de iniciar os relatos à CEV, Jackson fez uma homenagem aos militantes da Universidade, já falecidos, que também viveram os duros tempos de repressão, a exemplo de Paulito, da Faculdade de Química, Vieira, da Faculdade de Economia, Urbano Jacinto, da Faculdade de Direito, Jackson Figueiredo, da Faculdade de Direito, Rosalvo Alexandre, militante desde o Colégio Estadual Atheneu Sergipense, Vivaldo Lima Sobrinho (irmão de Rosalvo e recentemente falecido) e Mário Jorge Menezes Viera.

Segundo Jackson, a Comissão Estadual da Verdade cumpre o papel de relembrar esses fatos que já pertencem à história para servir como exemplo às futuras gerações. “Seguindo uma orientação nacional, a Comissão Estadual da Verdade está aqui para que esses fatos não voltem mais a acontecer no Brasil. Para que a gente tenha consciência da necessidade de vivermos e defendermos a democracia”.

De acordo com o presidente da Comissão Estadual da Verdade, o professor Josué Modesto dos Passos Subrinho , o relato do governador  foi uma  importantíssima contribuição ao futuro acervo da Comissão Estadual da Verdade, pois ilustra bem a memória de uma geração que construiu à resistência ao regime e testemunhou os mecanismos de repressão e resistência. “O governador teve uma trajetória política que se inicia no movimento estudantil na resistência ao regime autoritário, o depoimento dele foi muito ilustrativo, já que ele tem uma memória impressionante e conseguiu relembrar fatos, pessoas e localidades. Depois analisaremos esses depoimentos, que estão sendo gravados, para ver as diferentes nuances, versões, eventualmente omissões, e poderemos novamente indagar os depoentes para detalhar, aprofundar algumas questões. Mas isso será um trabalho posterior da comissão”, explicou.

Para Subrinho, os relatos contribuem para reavivar um passado recente que por vezes trazem fatos imagináveis para aqueles que nasceram após o processo de redemocratização do Brasil e ainda realçam as conquistas obtidas neste pequeno espaço de tempo.

“Do ponto de vista da atual geração, são coisas impressionantes, porque felizmente vivemos uma normalidade democrática há muito tempo. O fato das pessoas serem presas sem mandado, de não ter direito a advogado, dos advogados terem medo de serem constituídos como defensores, de instituições silenciares, a imprensa sergipana, por exemplo, não noticiou nada a respeito da Operação Cajueiro, tudo isso constitui o que nós ganhamos. A geração que já nasceu no regime democrático às vezes só tem a percepção dos impasses, dos problemas da democracia e não têm a percepção dos ganhos em termos de direito, liberdade, de pensamento, de manifestação, de preservação da pessoa, dos seus bens. Esses depoimentos trazem também, a memória para pessoas da minha geração, que conviveram com isso, de como era diferente, e como isso é aterrorizante. Enfim, acreditamos que as conquistas democráticas que o País tem tido, que estão avançando, se contrapõem a este período de terror, elas ficam realçadas diante de tudo isso”.

*Com informações da ASN.

Texto reproduzido do site: g1.globo.com/se

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