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domingo, 6 de setembro de 2026

Ele, João Alves Filho, descrito por eles

Artigo compartilhado do site SÓ SERGIPE, de 4 de setembro de 2026 

Ele, João Alves Filho, descrito por eles
Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos 

Em novembro de 2020, pelo jornal Correio de Sergipe, publiquei um artigo sobre a importância de João Alves Filho (1941-2020) para a cidade de Lagarto. Na oportunidade, de modo particular, destaquei uma data: julho de 1986. Quando, como resultado de sua preocupação com a melhora das condições do homem do campo por meio do projeto Chapéu de Couro, ele inaugurou a Barragem Dionísio de Araújo Machado, represando cerca de 15 bilhões de m3 das águas do Rio Piauí. O feito ocorreu na gestão do prefeito Artur de Oliveira Reis (1983-1988), obra que segue sendo fundamental para a região até hoje.

Em 2022, foi publicada a sua primeira biografia, de autoria dos escritores Déborah Pimentel e Igor Salmeron, intitulada João Alves Filho: A Saga de um Político Nordestino. Um calhamaço com mais de quatrocentas páginas, que cobre as diversas fases do Negão, como era conhecido carinhosamente pelo seu povo e admiradores, incluindo suas gestões como prefeito de Aracaju, Ministro de Estado e governador de Sergipe.

Agora é a vez dela, sua irmã Marlene Alves Calumby, de trazer à tona outros aspectos da trajetória de vida de João Alves Filho. Para tanto, contou com a colaboração de outros (eles e elas), para organizar a obra Ele, descrito por eles. De antemão, estes trocadilhos pronominais são propositais, dado que, na minha leitura e percepção do livro, pude estar diante de inúmeros Joões.  Do João de Anderson Nascimento ao João da organizadora, que teve o privilégio de viver com o homenageado em sua intimidade e de, também, trabalhar com ele nas lides administrativas e da política.

Em trezentos e setenta e seis páginas, impressas pela J Andrade, os colaboradores nos convidam a conhecer João Alves Filho sob diversas facetas, todas elas se encontrando na figura de um homem público devotado às causas populares. Para tanto, Marlene Calumby convocou alguns confrades da Academia Sergipana de Letras, políticos, juristas, empresários, profissionais liberais e clérigos para compor um expressivo itinerário: José Anderson Nascimento (prefácio e capítulo), Igor Leonardo Moraes Albuquerque (apresentação e capítulo), Aglaé Fontes, Artêmio Barreto, Aurélio Belém, Carlos Batalha, Hermínio de Aguiar, Carlos Pinna Júnior, Dilson Barreto, Eduardo Lima, Etélio de Carvalho, Flamarion d´Ávila Fontes, Georlize Oliveira, Gilmar Melo, José Carlos Machado, padre José Lima Santana, Mendonça Prado, Osório de Araújo Ramos Filho, Saumíneo Nascimento, Sérgio Silva, padre Vatewan Cruz, Venâncio Fonseca. Afora os anexos, com textos de João Alves, Ângela Margarida, Jane Guimarães e Lilian Gomes. Há textos dela também, na obra.

Entre eles, os Joões, é possível percebê-los não somente na perspectiva da política, seu mote existencial: “o Pelé da política sergipana”, como bem define Venâncio Fonseca. Mas também sua contribuição no campo cultural, por exemplo, a partir dos textos da professora Aglaé, da sua preocupação, enquanto gestor público, com destaque para o Teatro Tobias Barreto, uma das principais casas culturais até a presente data. O João escritor, por José Anderson Nascimento, que lhe valeu uma cadeira na Academia Sergipana de Letras. O João da educação, da economia, da agricultura, da saúde, do turismo, das grandes obras (inclusive, estruturais), da segurança pública, da engenharia e o João da Imaculada Conceição, sua madrinha de batismo.

Como bem define José Anderson Nascimento, Ele, descrito por eles é um “livro sobre feitos” (p. 8). Em que, reforça Igor Leonardo Moraes Albuquerque, “suas ideias, conquistas e realizações permanecem na vida e no imaginário do sergipano” (p. 11). E nesse diapasão, do imaginário, sobretudo no meu de criança e adolescente em Lagarto, o João das inesquecíveis campanhas municipais e governamentais: o homem de óculos escuros (daqueles que caminhoneiro gosta de usar), sorriso alvo e largo, chapéu de couro na cabeça, de discurso forte, preciso e persuasivo. Ou ainda, como bem arremata Marlene Calumby, “um homem de êxito cuja ambição foi sempre construir, permanecendo em movimento” (p. 16).

Enfim, ela, eles e elas foram muito felizes em descrevê-lo para nós, agregando valor à biografia de um dos maiores líderes políticos sergipanos e da vida pública nacional. Perfis como o de João Alves Filho estão em extinção. Discorde ou não de suas práticas ou mesmo ideologias, foi e é reverenciado até hoje, inclusive por aqueles que lhe fizeram oposição. O João da arte de fazer política, o João da ponte, o João do povo, enfim, o João descrito por eles.

Texto e imagem reproduzidos do site: sosergipe com br

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Lançamento do Livro: "Ele, descrito por eles"

Capa do livro “Ele, Descrito por Eles”: nada de bom 
que se diga deste João é excessivo  

Publicação compartilhada do site JLPOLÍTICA, de 14 de Julho de 2026

“Ele, Descrito por Eles”: a memória como a derradeira obra de um construtor

Artigo de Aurélio Belém do Espírito Santo *

Há, no ocaso de João Alves Filho, um paradoxo que nenhuma de suas obras anunciava. O homem passou a vida a fixar coisas contra o tempo - pontes sobre o Rio Sergipe, adutoras contra a seca, avenidas por onde ainda respira o trânsito da capital.

Enfrentou a estiagem do sertão como quem sabia que, ali, a água vale por um direito. E, no epílogo, foi vencido pela única aridez que a engenharia não represa: o Alzheimer, que secou-lhe, aos poucos, a lembrança de tudo quanto erguera e si mesmo. O construtor das águas viu o próprio rio da memória correr para o esquecimento. Secar.

É contra esse segundo apagamento - o que os antigos temiam mais do que a morte - que se ergue, agora, um livro. “Ele, Descrito por Eles” nasceu, conta a organizadora, professora e irmã de João, Marlene Alves Calumby, de uma simples roda de conversa entre amigos.

O título já é um método: como o homenageado não podia mais dizer de si, coube aos outros dizê-lo. São vinte e cinco capítulos escritos a muitas mãos por quem com ele conviveu de perto. E, num gesto de reparação, a coletânea guarda ainda discursos e manifestações do próprio João, de modo que o livro não apenas o recorda: devolve-lhe a voz que a doença calara.

Entre as vozes convocadas a essa restituição está a minha e a assino com um orgulho que não me acanho de confessar. Diz a sabedoria antiga que um homem só se realiza por inteiro quando tem um filho, planta uma árvore e escreve um livro. Se há verdade nesse provérbio, dou-me por realizado - e mais ainda por ter ao meu lado uma vocação profissional que me realiza e, em Carol – minha esposa –, um amor que se fez sacramento e também sobrenome. 

Este é o meu primeiro livro publicado - outros já amanhecem em rascunho para enfim ganhar as páginas num futuro próximo. Devo à minha saudosa mãe o gosto que me acompanha desde menino: o da leitura e, dentro dele, o fascínio pela história e pelas biografias. Esta, a rigor, não é uma biografia, mas assume o ofício aqui e acolá, cada vez que Ele é, enfim, contado por eles.

Tenho, é verdade, razões antigas de proximidade com o João em questão. Meu pai esteve ligado a João Alves - secretário de Estado em mais de um dos seus governos e seu companheiro de estrada por décadas. Eram compadres, e João e dona Maria do Carmo levaram à pia batismal minha irmã caçula, Tarlis.

Mas registro aqui que não chego às páginas por herança: chego pela pena. Um ano após a morte de João, publiquei sobre ele um artigo num jornal impresso de ampla circulação, e foi esse texto que me valeu o convite - que recebo como honra - de minha antiga professora de Direito, Marlene, para que eu me juntasse aos 24 que descrevem com maestria esse enorme personagem da vida sergipana e nordestina.

Do conjunto desses depoimentos emerge, para o leitor em geral, uma advertência amiga: não se exige comungar da ideologia política de um governante para reconhecer-lhe o legado. Independentemente de preferências ou vinculações político-partidárias, João era um estadista multifacetado, e um retrato a muitas vozes é o único que faz jus a essa pluralidade - todo homem público é, afinal, vários homens ao mesmo tempo.

Mas havia, para além da variedade, um só João – um João singular: o que se afligia com as mazelas do seu povo, sobretudo o nordestino, o do interior esquecido. Não por acaso foi convidado, no Governo José Sarney, a ocupar o Ministério do Interior, como se o mapa dos seus desvelos houvesse, enfim, encontrado o seu ministério.

Não confundo, porém, homenagear com endeusar, nem reverência com unanimidade. A homenagem que preserva um homem é a que o conserva em tamanho humano; porque a estátua, ao contrário da pessoa, não tem calor nem hesitação: deixa de ser gente para virar moldura de praça.

Há, ainda, um dever de gratidão geográfica. Sergipe é pródigo em erguer estátuas e avaro em guardar memória; pouquíssimos nomes atravessam, entre nós, a fronteira do partidarismo, e João Alves é um deles. Tenha-se votado nele ou contra ele, todo aracajuano habita a cidade que ele redesenhou, cruza a ponte que ele lançou, bebe da água que ele levou ao interior. Ignorá-lo seria ingratidão com a própria paisagem.

O lançamento desse livro em coautoria se deu nesta terça, 14, na sede da Assembleia Legislativa, que, em 1987, fora denominada Palácio Governador João Alves Filho. Curiosamente, a Casa do Povo que João Alves nunca quis habitar como parlamentar. Três vezes governador, duas vezes prefeito, ministro do Interior, jamais disputou uma cadeira no Legislativo: foi, por vocação, homem do Executivo e da decisão, não do plenário. Que a sua memória seja restituída no templo do poder que ele preferiu não ocupar tem o sabor de uma ironia gentil, desta vez.

No fim, é esta a delicadeza secreta do livro: o homem que perdeu a memória torna-se, nestas páginas, inesquecível – se é não devamos dizer que ele sempre fora, independente do que se diga neste livro coletivo de agora. A doença roubou-lhe o passado.

Somos nós, agora, que lho devolvemos, pela boca de quem o viu. E fica a lição que nem sempre um homem de obras percebe a tempo: a construção mais resistente à erosão não se ergue com concreto, mas com tinta e testemunho. A memória é a única ponte que sobrevive ao construtor. Viva pois e então João Alves Filho!

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Articulista - Aurélio Belém do Espírito Santo, É advogado e ex-diretor da OAB-SE e escreve às terças. A opinião do articulista não reflete necessariamente o posicionamento do Portal JLPolítica & Negócio.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolítica com br

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

João Alves: do chapéu de couro às obras memoráveis






Publicado originalmente no site do JORNAL DA CIDADE, em 26/11/2020

João Alves: do chapéu de couro às obras memoráveis

Político levou água para o Sertão e deu a Aracaju ares de cidade moderna e atrativa

A morte de João Alves Filho, ocorrida na noite de terça-feira, 24, suscita o aguçamento da memória do sergipano em torno dos grandes feitos realizados por ele, principalmente no sentido de modernização, através de grandes obras, bem como da melhoria do modo de vida do povo sertanejo.

João Alves Filho nasceu em Aracaju, mas viveu para todo o Estado inteiro. Sem sombra de dúvidas, um homem à frente do seu tempo. Aliás, um menino que desde muito pequeno sonhava em ser grande. E, de fato, foi muito grande!

Filho do empresário e construtor civil João Alves e de Dona Maria de Lourdes Gomes, ingressou em 1961 na Escola Politécnica da Universidade da Bahia, graduando-se em engenharia civil em 1965. Foi nesse mesmo ano que fundou a Habitacional Construção S.A, considerada por muito tempo uma das maiores empresas da Construção Civil em Sergipe e no Nordeste.

Apesar da sua paixão pela construção, o seu coração pulsava muito mais forte para outro segmento: a política. Iniciou sua vida pública em 1975, quando foi nomeado prefeito de Aracaju pelo governador da época, José Rollemberg Leite, encerrando sua gestão em 1979.

Em 1982 com o retorno das eleições diretas no País, João filiou-se ao Partido Democrático Social (PDS), a convite do então governador Augusto Franco. Indicado por ele e apoiado por Albano Franco, obteve seu primeiro mandato como governador de Sergipe, assumindo em março de 1983.

E foi nesse primeiro mandato, observando o sofrimento do sertanejo em busca de água, que iniciou o seu projeto visionário, que futuramente daria a ele o apelido que mais tinha orgulho: o João Chapéu de Couro.

Com o apoio do Banco Mundial, ele criou o Projeto Chapéu de Couro, que beneficiava a região do agreste e semiárido com a perfuração de poços artesianos e a construção de cisternas, além de abertura de estradas vicinais, redes de energia elétrica, escolas e postos de saúde, dando novas formas aos municípios sergipanos.

Além disso, também deu início à construção do maior hospital público de Sergipe, inaugurado em 1986, o Hospital Governador João Alves Filho, que atualmente é chamado de Hospital de Urgência de Sergipe (Huse).

Ingressou no Partido da Frente Liberal em 1985 e em 1987, após terminar o mandato de governador, assumiu o cargo de ministro do Interior no governo do presidente José Sarney, onde ficou até 1990. Já em 1991 é reconduzido ao cargo de governador, vencendo a eleição em 1º turno.

Foi nesse governo que João idealizou e inaugurou a Orla da Atalaia, um dos principais cartões-postais de Aracaju e que levaria o título de Orla mais bonita do Brasil.

Em 2002, foi eleito em segundo turno mais uma vez governador de Sergipe, onde permaneceu até 31 de dezembro de 2006. Nesse mandato executou um dos projetos mais desafiadores de toda a sua vida e um dos que o deixava mais orgulho: a Ponte Construtor João Alves, que liga os municípios de Aracaju e Barra dos Coqueiros, um projeto audacioso e que mudaria para sempre a realidade da Ilha de Santa Luzia. Para se ter ideia, a execução durou pouco mais de dois anos e custou cerca de R$ 100 milhões.

Outras grandes obras também levam a sua assinatura, a exemplo do Platô de Neópolis; a construção do Bairro Coroa do Meio; construção da Ponte Godofredo Diniz, que liga o bairro Coroa do Meio ao centro de Aracaju; a implantação de 14 grandes avenidas que interligam os bairros de Aracaju; construção do Parque da Cidade; implantação do segundo sistema de transporte integrado do Brasil, além de viabilizar a construção do Porto de Sergipe.

O último cargo público a ocupar foi de prefeito de Aracaju, no ano de 2012, encerrando o mandato em 2016 já debilitado pela doença de Alzheimer.

A paixão pela escrita

Membro da Academia Sergipana de Letras, João Alves é autor de diversos livros, o mais recente se chama “Toda a verdade sobre a transposição rio São Francisco” lançado em 2008. Com a experiência adquirida na vida pública, João Alves Filho agrupou todos os seus estudos e ideias e tornou-se um autor engajado nas questões sócio ambientais e as suas causas e consequências, além de versar perfeitamente sobre a questão hídrica.

Possui em seu currículo inúmeros títulos que dissertam sobre temas, como as secas, as águas e a transposição das águas do Rio São Francisco. Tendo um amor declarado pela Região Nordeste, dedica sua vida e obras e encontrar soluções ou medidas que atendam as necessidades dos afligidos da maneira mais íntegra e satisfatória que se possa fazê-lo.

Seus livros são: Nordeste, Região credora (1985); No outro lado do mundo (1988); Amazonas & Nordeste – Estratégias de desenvolvimento (1989); Conferências (1990); Pontos de Vista (1994); Nordeste – Estratégias para o sucesso (1997); Transposição das Águas do São Francisco – Agressão à Natureza x Solução Ecológica (2000); Matriz energética brasileira – Da crise à grande esperança (2003); Toda a Verdade sobre a transposição do Rio São Francisco (2008); Transposição do São Francisco – Uma Análise dos aspectos positivos e negativos do projeto que pretende transformar a Região Nordeste.

Repórter: Diego Rios

Fotos: Arquivo JC

Texto e imagens reproduzidos do site: jornaldacidade.net