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domingo, 7 de junho de 2026

Bombas sobre Aracaju

Imagem postada para simples ilustração

Artigo compartilhado do blog GETEMPO/INFONET, de 28 de maio de 2026

Bombas sobre Aracaju

Por Letícia Conceição Silva - Graduanda em História (UFS) - Bolsista do projeto Transformações no cotidiano de Aracaju durante a Segunda Guerra Mundial - Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente

Durante a Segunda Guerra Mundial, Aracaju foi bombardeada. Não diretamente por nações inimigas, mas pelo próprio Estado brasileiro. Acontece que, após os torpedeamentos de navios mercantes no litoral sergipano em agosto de 1942 pelo submarino alemão U-507, foram necessárias medidas de proteção contra futuros ataques. Depois da tragédia, as luzes foram proibidas de serem acesas à noite para evitar chamar atenção do inimigo. Além disto, treinamentos de alerta aéreo eram marcados quase mensalmente na capital.

Essas simulações pretendiam ensinar a população como se proteger em caso de um ataque real por aviões inimigos. Considerando que a cidade tinha sido pega desprevenida pelos torpedos alemães, as autoridades queriam estar preparadas para possíveis bombardeios. Lições eram divulgadas nos jornais da época com instruções para a população: como se comportar nos treinamentos? Quais os locais serviriam de abrigo? Tudo estava explicado nos periódicos, além das penalidades para os desobedientes, que não eram poucos.

Embora houvesse interesse em treinar a população e as equipes que atuavam na simulação, como bombeiros e socorristas, também buscava-se controlar o povo e mantê-lo obediente aos valores do Estado Novo (1937-1945), devendo “obedecer sem recalcitrar, pois que qualquer desobediência pode gerar consequências irremediáveis” (Correio de Aracaju, 22 de março de 1943). Assim, o descumprimento das normas representava o papel ativo dos aracajuanos diante da imposição do Estado autoritário.

Por outro lado, a desobediência não significava que o dia a dia da população fosse indiferente aos treinamentos, que transformavam a cidade em um teatro de guerra. Na primeira simulação, em 02 de março de 1943, as “bombas” eram sacos de areia. Mas a partir do segundo alerta, passaram a ser reais, “não das usadas pelas Forças Armadas, mas, são elas de fabricação especial e podem estabelecer o pânico entre os descuidados”(Correio de Aracaju, 13 de março de 1943), exigindo maior cuidado dos cidadãos. Assim, o povo aracajuano precisava estar atento às informações veiculadas para evitar ferimentos durante os treinamentos.

Ainda que tenham sido eventos de grande impacto em Sergipe, sobretudo em Aracaju, pouco se comenta a respeito das simulações na atualidade. Ainda pensamos na Segunda Guerra como algo distante, centralizado na Europa, mas esquecemos das transformações que ela impôs em nosso território. Buscar por abrigos, se proteger de bombas e obedecer sinais de alerta não eram atitudes restritas ao outro lado do Atlântico, mas, ainda que de forma simulada, também fizeram parte do dia a dia dos moradores de Aracaju. Relembrar o impacto do conflito no estado é um caminho para permanecermos conscientes das dificuldades que uma guerra é capaz de infligir, mesmo àqueles que se julgam afastados do sempre triste cenário bélico.

Texto reproduzido do blog: infonet com br/blogs/getempo

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

O torpedeamento do Araraquara em 1942, o Tenente Verçosa e a d. Alaíde Lemos

 Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 15 de outubro de 2025

O torpedeamento do Araraquara em 1942, o Tenente Verçosa e a d. Alaíde Lemos
Por Marcelo Rocha *

Uma das revoluções do pensamento histórico ocorridas no século XX foi aquela capitaneada pela Escola dos Annales. Marc Bloch e Lucien Febvre em oposição ao foco nos jogos políticos e relações de poder entre autoridades e países, voltaram suas atenções à complexidade dos indivíduos e das sociedades, pois os tais jogos de poder são incapazes de demonstrar profundamente como é uma sociedade e seus integrantes.

Nesse sentido, muito falamos sobre os torpedeamentos em nossa costa em 1942 dentro de tais relações de poder, mirando assim a Segunda guerra e a Europa, pouco dando atenção aos eventos mais humanos, como saber mais detalhadamente sobre os sobreviventes, quem eram, como viviam e o que o destino lhes ofereceu naquele trágico evento. É a partir desse mote que nos atentaremos aqui as Histórias de Verçosa e Alaíde, que viajavam a bordo do Araraquara.

O Tenente de Intendência José Castelo Branco Verçosa viajava em companhia de sua família – esposa e filho, tendo se perdido deles na ocasião dos torpedeamentos, após dar na costa e levado à Estância e Aracaju, permaneceu por dias, dolorosa e implacavelmente, buscando sua família no nosso litoral. A sua imagem desolado, após o reencontro trágico, rodou o país.

“Em mar ou terra, o sofrimento não escolheu lugar. No canto esquerdo da foto, policiais sergipanos examinam despojos à beira-mar, já do outro canto, no direito, percebe-se um homem sentado na duna, isolado e cercado pela vegetação de restinga. Era o 1 o Tenente José Castelo Branco Verçosa, náufrago do Araraquara, usando calça comprida e camisa manga longa xadrez obtidas em Aracaju. Ele está desolado, pois se deparou com os cadáveres da sua esposa e filho na praia. Após dias de buscas no litoral de Sergipe, a verdade veio à tona. Com uma mão segura o chapéu e com a outra ampara a cabeça com o ar de desespero. Há um vazio no meio da imagem que parece gritar.”(Luiz Antônio Pinto Cruz, 2017)

Como se dizia à época, pouca lhe era a fortuna naquele momento, apensar de em algum momento saber de uma sobrevivente de nome Castelo Branco, o que talvez lhe dera alguma esperança, logo destruída, pois Vilma Castelo Branco não era a sua esposa. Essa sobrevivente, era uma atriz que viajara com o pai que infelizmente também sucumbira aos torpedeamentos.

Pouca sorte também tivera a sobrevivente Alaíde Lemos Lins Cavalcanti, que viajava em companhia do marido – o SubTenente Luiz Cavalcante, seus filhos pequenos e do irmão, o Sargento Valdemar Lemos. Alaíde esperava encontrar a família, pois o marido mandara salvar-se pois ele cuidaria das crianças, quando do ataque ao Araraquara. Alaíde muito sofreu até achar terra firme em Estância, após quase dois dias lutando pela sobrevivência nas águas, semidespida em uma baleeira danificada com outros náufragos.

Infelizmente não os reencontrou. Na sua tragédia pessoal, todos os seus familiares são tragados pelas águas do atlântico e, diferente do Tenente Castelo Branco Verçosa que dolorosamente encontra os corpos da esposa e filho, sequer lhe é dada a opção de enterrar os seus.

Vejamos aqui a trágica ironia inversa do destino, se o militar Verçosa perdeu a esposa, Alaíde perdeu o esposo militar.

Um outro militar entraria nessa história, apesar de não estar a bordo de nenhuma das embarcações afundadas naquele 1942, era o Sub Tenente Francisco Alves Pereira, que em Pernambuco aguardava a chegada da sua esposa e três filhos que viajavam no Araraquara.

Segundo Luis Antonio Barreto, Francisco ao saber do torpedeamento da Araraquara, chega a Aracaju e através das declarações dadas por Alaíde, descobre que sua família também não resistira ao ataque alemão. Pereira então voluntaria-se à FEB, indo lutar na Europa. Certamente pesara na decisão, além da questão de ser militar, a devastação causada Harro Schatch – comandante de U-Boat 507, ao torpedear o Araraquara e exterminar sua família.

Mas a vida, o destino, que intercruzara as duas Histórias de Castelo Branco Verçosa e Alaíde Cavalcante, ainda não cessara seus caprichos.

Em seu regresso, em 1945, Pereira reencontra Alaíde, com se casa logo no ano seguinte e, em 1950, estabelecem ambos moradia definitiva em Aracaju, onde morariam na rua Terêncio Sampaio. Luis Antonio Barreto acreditou na possibilidade de eles optaram por não ter filhos, diante da tragédia compartilhada por ambos. Viveram em Aracaju desde 1950, reservadamente, até a morte de ambos nos anos 80.

Apesar de toda a descrição, Alaíde e Pereira ainda foram homenageados por ocasião da inauguração da rodovia dos náufragos em fins de 1980.

O tenente Verçosa por anos continuou a prezar pela memoria dos seus queridos Ruth e Nilton, mandando celebrar missas naquele mesmo dia 15 de agosto. Dividiria seu estar entre as lotações militares e o Recife que nunca abandonaria. Era de tradicional familia militar, tendo como irmãos o Marechal do Ar Manoel Narciso Castelo Branco e o Brigadeiro Olegário Castelo Branco Verçosa, além do primo (e Marechal) o ex presidente Humberto de Alencar Castelo Branco. Seguiu sua carreira concorrendo promoções até ingressar na reserva remunerada em 2 de fevereiro de 1966 e efetivar sua reforma em 1974, era General de Divisão.

O nosso trágico naufrago não somente conseguiu seguir sua carreira, como também a vida. Ao que parece, refez a família casando-se com a Sra. Maria do Carmo Cruz Castelo Branco Verçosa, com quem logo teve um filho, Manoel Narciso Cruz Castelo Branco Verçosa, nome que homenageava não somente seu pai, mais seu irmão mais velho. Seu desenlace da vida deu-se em 26 de setembro de 1993, aos 87 anos.

Se Alaide e Pereira não tiveram filhos, o mesmo não houve com Castelo Branco Verçosa, pois além de Manoel Narciso, deixou mais 5 outros filhos. Três histórias dramáticas que se conectam primeiro pela tragédia e depois pelas ironias da vida. Certamente histórias, ironias e coincidências envoltas em amores familiares.

* É tenente coronel, membro da Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço. 

Texto e imagem reproduzidos do site: www destaquenoticias com br

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Deu no New York Times: Sergipe e a Segunda Guerra Mundial

Artigo compartilhado do site INFONET , de 4 de setembro de 2025 

Deu no New York Times: Sergipe e a Segunda Guerra Mundial

Por Dilton Cândido Santos Maynard (Blog Getempo/infonet)

Professor do Departamento de História da UFS

Bolsista Produtividade CNPq e líder do Grupo de Estudos do Tempo Presente. Coordenador do Projeto Segunda Guerra Mundial no Nordeste Brasileiro: cotidiano e transformação social, apoiado pelo Edital FAPITEC/SE/FUNTEC N° 01/2024 – PROGRAMA DE AUXÍLIO AO DESENVOLVIMENTO DE PESQUISA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA – UNIVERSAL

Helen Post Papers, Arquivos do Museu Amon Carter de Arte Americana, Fort Worth, Texas. Disponível em: https://www.cartermuseum.org/collection/man-reading-new-york-times-handwritten-notes-about-newspaper-headlines-and-permission

Deu no New York Times em 25 de agosto de 1942: “a cidade de Aracaju, capital do estado de Sergipe, será apagada todas as noites, e quem estiver nas ruas após as 23h será preso”. Foi assim que as consequências imediatas dos torpedeamentos de navios mercantes, ocorridos poucos dias antes, em pleno litoral brasileiro, em águas da Bahia e de Sergipe, começaram a repercutir na imprensa estrangeira. O jornal New Orleans State, por exemplo, no mesmo 25 de agosto, informou sobre a tragédia: “seus navios, engajados no comércio costeiro, foram torpedeados em suas costas. Muitos brasileiros foram mortos nesses ultrajes”.

Dias antes, em 21 de agosto, o jornal El Telégrafo afirmou que o Equador, “como os demais países da América, sentiu-se profundamente comovido e profundamente indignado, ante o temerário e premeditado ataque dos submarinos alemães ao comboio de navios mercantes brasileiros, que navegava em calma viagem territorial do Brasil, muito próximo ao litoral”. Pouco depois, em 28 de agosto, o presidente cubano Fulgêncio Batista assinou o Decreto-Lei nº 2390, condenando o ataque. Os afundamentos provocaram a declaração de guerra do Brasil à Alemanha e à Itália, naquele que, conforme o historiador escocês Neil Lochery, foi descrito pelos estadunidenses como o nosso próprio “Pearl Harbor”, em alusão ao ataque japonês aos EUA em dezembro de 1941.

Mas, afinal de contas, o que ocorreu? Na noite de sábado, 15 de agosto, em águas de Sergipe, pouco depois do jantar, os tripulantes e passageiros do navio mercante Baependy sentiram o impacto e o estrondo provocado pelo ataque do submarino alemão U-507. Além do Baependy, o Araraquara, que também navegava na região, foi torpedeado na mesma noite. Outro navio, o Aníbal Benévolo, estava a cerca de 7 milhas das praias sergipanas quando foi atacado. Pouco depois, foi a vez do Itagiba, que navegava com 179 ocupantes, sendo 119 passageiros e 60 tripulantes.  O navio teve parte dos náufragos resgatada pelo Arará (com 35 tripulantes) já no domingo. Atento todo o tempo, o Kommandant do submarino nazista esperou os náufragos subirem a bordo e, em seguida, também torpedeou aquela embarcação.

Os frutos da ofensiva submarina do U-507, os náufragos e destroços do Baependy, do Aníbal Benévolo e do Araraquara, chegaram às praias da região sul de Sergipe. Cadáveres foram parar nas proximidades da Praia de Atalaia, em Aracaju. Restos de gente, corpos nus, mutilados, corroídos, inchados apareceram e chocaram os habitantes da capital, além de Estância e dos povoados Praia do Saco e Porto Mato. Ao final, os ataques mataram tripulantes das embarcações, passageiros militares e civis. A tragédia não poupou nem mesmo crianças. No caso do Baependy, embarcação com maior contingente (eram 323 pessoas, sendo 73 tripulantes e 250 passageiros), que transportava filhos de oficiais do 7º Grupo de Artilharia de Dorso, nenhuma sobreviveu, como observou o cronista Santos Santana em Aracaju dos meus amores, livro de 1983.

E a pacata Aracaju não estava preparada para tamanha tragédia. Tudo precisou ser improvisado. Os sobreviventes que chegaram à capital foram distribuídos entre os hotéis da cidade, a exemplo do Hotel Central, Hotel Rubina, Hotel Marozzi, Avenida Hotel, Hotel Sul Americano. Além do Hospital de Cirurgia, o Palácio do Governo, o Quartel do 28º Batalhão de Caçadores e até mesmo as casas de algumas pessoas da cidade acolheram náufragos. E, com as vítimas, também chegaram às praias diversos pertences pessoais, tais como joias, roupas, sapatos, carteiras etc.

No entanto, essas peças não serviram apenas para identificação dos corpos. Elas também instigaram a cobiça de alguns. O saque aos mortos, embora combatido e criticado, ocorreu com uma frequência maior do que imaginamos. O exemplo de Nelson de Rubina, acusado de furtar três anéis do corpo de Virgínia Auto de Andrade, é talvez o mais conhecido na historiografia regional graças ao trabalho de Maria L. Pérola Barros, autora do livro O Senhor dos Anéis na Aracaju que viu a Guerra: o caso de Nelson Rubina (1942-1943), recentemente publicado pela Editora Manacá. Outro exemplo, também envolvendo joias, ocorreu com Eduardo Alexandre Bauman, um segundo-tenente de 27 anos, cujo corpo foi encontrado na Barra de São Cristóvão pelas autoridades apresentando “esmagamento parcial de partes moles – dos dedos anular e médio da mão direita e uma contusão da região frontal”, fruto do esforço feito para arrancar dele a aliança.

Como se pode perceber pelos casos acima, os torpedeamentos trouxeram consequências nefastas ao cotidiano dos sergipanos. Noticiados por jornais de diversas partes do mundo, o susto, o assombro e o medo conviveram com o desejo, a ganância e o senso de oportunidade. Todavia, destacamos que os estudos históricos pouco exploraram tais saques, tais posturas nada elogiáveis diante do horror. Por essa mesma razão, é importante lembrar que não apenas a gente mais simples, a “arraia miúda”, roubou dos mortos. Gente viva, muito viva, situada em posições não tão desprestigiadas assim da pirâmide social, se beneficiou em meio à confusão dos torpedeamentos. Essa é uma história que precisará ser escrita. Essa e muitas outras.

Texto e imagem reeproduzidos do site: infonet com br/blogs/getempo

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Heróis entre o mar, torpedos e silêncio eterno…

Navio Baependi, um dos torpedeados pelo
 submarino alemão (Fotos: Wikipedia)

Navio Aníbal Benévolo

Navio Araraquara

Artigo compartilhado do site SÓ SERGIPE, de 16 de agosto de 2025 

Heróis entre o mar, torpedos e silêncio eterno…

Por André Brito *

Hoje não vou começar com “Dia desses”. Porque ontem foi dia 15 de agosto, e contamos 83 anos dos torpedeamentos dos três navios na costa sergipana, em 1942, realizados pelo famigerado submarino alemão U-507. Foram a pique as embarcações: Araraquara, Aníbal Benévolo e Baependy. O desgraçado submarino nazista matou 551 pessoas. Na calada da noite madrugosa, essas vidas foram ceifadas covardemente. Vidas de pessoas que não estavam nem aí pro que rolava na Europa, quem eram Hitler, Mussolini, Churchil, Durango Kid.

Esse fatídico episódio foi o pontapé para que o Brasil entrasse na Segunda Guerra Mundial, ao lado dos Aliados. Aracaju virou uma cidade sitiada, como bem fala o professor Luiz Antônio Pinto Cruz em todas as instâncias acadêmicas por onde passou, desde a graduação ao doutorado.

Imagino, ainda que superficialmente, a agonia das pessoas acordando com o nefasto estrondo dos torpedos explodindo os navios. A agonia, o desespero, a dor do encontro com a tragédia, uma cena que nem Munch conseguiria retratar. O silêncio do mar, a escuridão da noite, o sono no vaivém das vagas do movimento marítimo… de repente a morte e o sofrimento…

O meu avô materno, o velho Teodoro, era o faroleiro à época (o atual farol da Farolândia) e foi designado para comandar a guarnição que recolhia os corpos dos náufragos na praia. Minha mãe, à época com 10 anos de idade, relatou-me que meu avô fedia tanto, em razão do contato com os corpos, que precisava entrar pelo quintal e tomar banho antes de entrar em casa. Ninguém suportava o mau (contrário de bom) cheiro.

Os malafogados (nome que os aracajuanos deram aos náufragos) foram recolhidos da Atalaia à Praia do Saco, em Estância. Inchados, disformes, uma cena mais grotesca que filmes de Freddy Krueger. Todos mortos pelo U-507. Inocentes destruídos por motivos imbecis de guerra. Não entendo, não aceito essa maldade humana.

Ah, outra figura importante desse episódio foi o meu tio-avô Henrique, irmão da minha vó materna Celina. Ele trabalhava como marinheiro no Baependy e sofreu o naufrágio. Exímio nadador e focado no trabalho, Tio Henrique conseguiu conduzir 20 pessoas para um bote salva-vidas e as deixou em segurança em terra firme. Dentre as pessoas salvas, estava a suposta irmã daquele que seria presidente do Brasil: Castelo Branco. Vilma Castelo Branco, agradecida pelo ato heroico, algum tempo depois do atentado terrorista, presenteou o marinheiro aguerrido com um lindo e gigante peixe de madeira. E ainda alcunhou meu tio com o fofo apelido de “Peixinho do Mar”.

— Alguém já viu alguma homenagem a essas pessoas?

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* Articulista Andre Brito, é jornalista e professor

Texto e imagens reproduzidos do site: www sosergipe com br

sábado, 8 de março de 2025

O Serviço de Luz e Força de Aracaju e as noites de blackouts

Instalações do Serviço de Luz e Força de Aracaju, 
em 1949. Fonte: Acervo do Arquivo Público Estadual de Sergipe.

O Serviço de Luz e Força de Aracaju e as noites de blackouts

Blog Coluna Getempo, Blog Segunda Guerra Mundial, por getempo, de 3 de maio de 2024

Maria Luiza Pérola Dantas Barros

Doutoranda em História Comparada (PPGHC/UFRJ)

Integrante do Grupo de Estudos do Tempo (GE/UFS/CNPq)

E-mail: perola@getempo.org

Muitos talvez ainda não tenham ouvido falar no Serviço de Luz e Força de Aracaju (SLFA), criado pelo estado de Sergipe na década de 1940 para funcionar no lugar da Empresa Tração Elétrica de Aracaju, empreendimento privado dos anos de 1930, cujo maquinário e os muitos operários eram responsáveis pelo abastecimento de energia elétrica em Aracaju.

Em 1942, nos anos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o SLFA estava sob comando de Hormindo Menezes, comerciante que, de acordo com o Processo Crime contra Nelson de Rubina, dirigia-se com frequência à praia de Atalaia com uma caminhonete para ajudar a recolher os corpos dos náufragos, vítimas dos torpedeamentos de navios na costa brasileira pelo U-507.

Esses torpedeamentos ocorreram no litoral entre Sergipe e Bahia, em agosto de 1942, gerando grande medo e revolta em parte da população. As autoridades locais temiam novos ataques e, com a inclusão do Estado, em 1943, no Plano Nacional de Blackout, passaram a realizar os blackouts programados, sempre anunciados pelo som das sirenes.

O memorialista Raymundo Mello, no artigo Histórias do tempo do Serviço de Luz e Força de Aracaju, nos relata que o blackout ocorria a partir de determinada hora da noite, e durava até a manhã do dia seguinte, com o objetivo de nenhuma claridade ser avistada por aviões ou embarcações em trânsito, ficando sob responsabilidade do esquadrão da cavalaria da Polícia Militar, em vários grupos, a fiscalização externa das residências aracajuanas para garantir o cumprimento de tal medida.

Já o memorialista Murilo Melins, em Aracaju romântica que vi e vivi: anos 40 e 50, escreve que, em virtude do toque de recolher, poucas pessoas saíam às ruas durante a noite, mas isso não impedia que os boêmios frequentassem as “zonas”, nem que os seresteiros fizessem suas serenatas. Tanto os músicos dos cabarés quanto os artistas da Rádio Difusora possuíam “passes livres”, fornecidos pela Secretaria de Segurança Pública, para andarem pelas escuras ruas de Aracaju sem sofrer severas punições.

Vale mencionar que esses blackouts programados resultaram em grandes lucros para o SLFA, pois as máquinas geradoras paravam durante algumas horas, sofrendo assim menos desgastes e economizando combustível.

O tempo passou e o crescimento econômico e social de Sergipe levou à criação de uma nova empresa, capaz de atender não só a capital como também a todo o interior do Estado. Assim, surgiu a Energipe – Empresa Energética de Sergipe S.A, atualmente Energisa Sergipe – Distribuidora de Energia S/A, criada pela Lei Estadual, nº 943, de 03/06/59, desaparecendo assim o SLFA.

Para saber mais:

BARRETO, Luiz Antônio. Dicionário de nomes e denominações de Aracaju. Aracaju: Banese, 2002.

MAYNARD, Andreza Santos Cruz. “Blitzkreig de Muriçocas” e outros problemas no cotidiano de Aracaju. Revista Cadernos do Tempo Presente, nº 10, 2012.

MELINS, Murilo. Aracaju romântica que vi e vivi: anos 40 e 50. Aracaju: UNIT, 2010.

MELLO, Raymundo. Histórias do tempo do Serviço de Luz e Força de Aracaju. Isto é Sergipe, 18 de janeiro de 2017. Disponível em: https://istoesergipe.blogspot.com/2017/01/historias-do-tempo-do-servico-de-luz-e.html, último acesso: 01/05/24, às 12:13.

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Texto e imagem reproduzidos do site: getempo org

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

“Memórias de um agosto sangrento” será lançado hoje

Legenda da foto:  O submarino alemão responsável pelos naufrágios foi afundado pela Força Aérea dos Estados Unidos

 Publicação compartilhada do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 10 de dezembro de 2024

“Memórias de um agosto sangrento” será lançado hoje

O documentário sergipano “Memórias de um Agosto Sangrento” será lançado nesta quarta-feira (11), a partir das 14 horas, na Biblioteca Pública Epiphânio Dórea, em Aracaju. O longa-metragem relata o trágico torpedeamento de navios brasileiros na costa sergipana, um evento que levou o Brasil a entrar na Segunda Guerra Mundial.

Além da exibição do filme, que teve sua pré-estreia no dia 23 de novembro, na Praia do Saco, em Estância, o evento contará com uma roda de conversa com realizadores e pesquisadores. O debate abordará a importância histórica da obra cinematográfica, o impacto do trágico evento em Sergipe e no país, além de suas consequências para a sociedade sergipana.

A roda de conversa terá a participação do jornalista porto-alegrense Marcelo Monteiro, autor do livro U-507 – O Submarino que Afundou o Brasil na Segunda Guerra Mundial; da professora doutora Roberta Rosa; dos professores doutores Luiz Antônio Pinto Cruz e Diltom Maynard; e do decano do jornalismo sergipano, Luiz Eduardo Costa.

Em seguida, será realizada uma segunda roda de conversa com representantes da Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe (Funcap) e da WG Produções, responsáveis pelo documentário, que discutirão o processo de realização do documentário. Na sequência, haverá a exibição de Memórias de um Agosto Sangrento.

Sobre a obra cinematográfica

O documentário Memórias de um Agosto Sangrento foi produzido pela WG Produções e Publicidade Ltda., com recursos da Agência Nacional do Cinema (Ancine), por meio do Edital de Chamada Pública de Fluxo Contínuo Televisão 2018 – BRDE/FSA. A produção também contou com o apoio da Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe (Funcap).

Com 71 minutos de duração, o filme narra histórias de horror ocorridas em 1942, nos mares de Sergipe e Bahia, quando o submarino alemão U-507 torpedeou cinco navios civis na costa nordestina, resultando em 607 mortes. Esses eventos foram decisivos para que o Brasil declarasse guerra à Alemanha e entrasse na Segunda Guerra Mundial.

Este impactante documentário resgata um dos capítulos mais marcantes da história do Brasil: os ataques do submarino U-507 na costa nordestina, que desencadearam uma série de manifestações em todo o país e levaram o então presidente Getúlio Vargas a declarar guerra à Alemanha.

Texto e imagem reproduzidos do site: destaquenoticias com br

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Memorial revelará feitos de heróis sergipanos na II Guerra Mundial

Entrevista compartilhada do jornal CORREIO DE SERGIPE, de 21 de maio de 2022

Memorial revelará feitos de heróis sergipanos na II Guerra Mundial

Por Wilma Anjos

A atuação de André Cabral como Administrador de Empresas e Piloto Comercial pode até causar estranhamento inicial quando se coloca em pauta a participação dos sergipanos na Segunda Guerra Mundial. Mas à medida que a conversa flui, ele se revela não só um apaixonado pelo tema, como um consistente explanador. O assunto despertou o seu interesse quando descobriu que um piloto sergipano recebe homenagem na Itália. Decidiu investigar do que se tratava e foi aí que percebeu que era apenas a ponta do iceberg de uma riqueza de informações sobre os heróis de Sergipe. Decidido a tornar público todas as descobertas que fez, ele agora se debruça em tirar do papel o projeto de um memorial no Farol da Orla do bairro Coroa do Meio, Zona Sul da capital. A Marinha do Brasil já demonstrou interesse, mas a crise pandêmica mundial e a econômica no Brasil o forçou a adiar seus planos. Confira como será o memorial da Segunda Guerra Mundial, aqui em Sergipe:

Correio de Sergipe: O senhor está com um projeto de fazer um memorial sobre a II Guerra Mundial, nas dependências do Farol da Orla. O projeto inclui apenas a participação de Sergipe ou se estende para o resto do país?

André Cabral: Passadas oito décadas, a Segunda Guerra Mundial ainda atrai o interesse de várias pessoas. Nos 70 anos do “Dia D”, evento que simboliza a retomada das principais nações ocupadas pelo regime nazista, onde tropas americanas, canadenses e inglesas desembarcaram na Normandia, compareceram nada menos do que 17 chefes de Estado, incluindo a rainha Elisabeth. Diversos filmes, séries e livros ainda são lançados. É um tema muito extenso que ainda está sendo estudado por diversas pesquisas, artigos, teses e dissertações. Nossas ações ficarão restritas a eventos relacionados a Sergipe ou sergipanos em outros locais. A proposta de fazer algo no Farol na Orla de Aracaju precisa da autorização da Marinha do Brasil, que já demonstrou interesse. Trata-se de um modelo utilizado em lugares como Farol da Barra em Salvador (BA) e Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, onde unidades militares são exploradas para ações culturais de muito sucesso.

CS: De onde surgiu essa ideia?

AC: Pouco antes da pandemia, o Major Aviador Diego Teixeira, um ex-comandante do Destacamento de Controle do Espaço Aéreo de Aracaju, compartilhou um artigo publicado pela Força Aérea Brasileira que falava de um piloto sergipano sendo homenageado na Itália. Fiquei surpreso pois nunca tinha ouvido falar dele. Junto com outros entusiastas do tema, resolvemos conhecer melhor nossa história. Fomos a Rodano, cidade italiana que fica 15 km a leste de Milão, numa visita de cortesia e agradecimento, pois o Tenente Aurélio Vieira Sampaio, sergipano de Aracaju, era homenageado por lá. No dia 22 de janeiro de 1945, ele estava em sua décima sexta missão, quando foi abatido por uma FLAK (bateria antiaérea alemã). Lá fomos recebidos pela prefeita Roberta Maietti e Guido Rozze (assessor). Levamos algumas lembranças de artistas sergipanos, como escultura do Elias Santos, pintura do Tintiliano, livro do jornalista Cleiber Vieira, uma foto do Aurélio, que sua irmã, Dona Consuelo, mandou emoldurar e uma bandeira de Sergipe. Lá visitamos um monumento em homenagem aos cidadãos de Rodano mortos na Primeira e Segunda Guerra. O único não italiano ali era o Tenente Aurélio. Por fim, conhecemos o Raffaele Serio, engenheiro italiano que liderou a pesquisa que definiu o local de queda do Aurélio. Foram anos de pesquisa documental, e junto com Diego Vezzoli, que participou da pesquisa de campo, eles conseguiram encontrar restos compatíveis com o do avião Republic P-47 Thunderbolt, do Ten. Aurélio. Ao retornar para Aracaju, Ezio Déda permitiu que nosso evento fosse realizado no Museu da Gente Sergipana. Reitero aqui nossa gratidão. Fizemos uma palestra ministrada pelo Dr. William Soares, contando toda a história desse herói de guerra. Após a palestra, fizemos o descerramento de um busto e um diorama (representação artística tridimensional de uma cena), de autoria de Francisco Leão, de sua última missão.

CS: Pode falar mais do Tenente Aurélio?

AC: O tenente Aurélio Vieira Sampaio foi um piloto de caça durante a Segunda Guerra Mundial. Ele nasceu em Aracaju, em 31 de maio de 1923, estudou no colégio Tobias Barreto e, antes de completar nove anos, mudou-se com sua família para o Rio de Janeiro. Ao terminar o ginásio em 1938, ele ingressou no curso preparatório para Escola Militar de Realengo, tendo sido aprovado em 1940. Seguiu para a Escola de Aeronáutica no Campo dos Afonsos em 1941, onde formou-se Aspirante Aviador. Após sua formatura, seguiu para operações de patrulha marítima no litoral brasileiro, baseado em Fortaleza, pilotando aeronaves P-36 e P-40. Após o Brasil decretar estado de beligerância contra a Alemanha e Itália, Aurélio se voluntariou para fazer parte do 1º Grupo de Caça, começando seu treinamento no Panamá. Mesmo já possuindo experiência de voo, foi desligado do treinamento por seus instrutores americanos. Novamente, voluntariou-se para o Tenente Coronel Nero Moura, comandante do Grupamento que o encaminhou para o curso de controlador de radar na Albrook Air Force Station, no Panamá. Seguiu seu treinamento em 1944 na Escola de Tática Aérea em Orlando, na Flórida. Já na Itália, em novembro daquele mesmo ano, foi promovido ao posto de 1º Tenente e, dada a escassez de pilotos, apresentou-se voluntário pela terceira vez para compor o grupo de aviadores. Realizou com sucesso 16 missões, voando em média pouco mais de duas horas em cada uma. Ao final das missões, era comum que os pilotos procurassem e atacassem “alvos de oportunidade” e, em 22 de janeiro de 1945, próximo a Milão, seu Republic P-47 Thunderbolt “B6” foi atingido por uma Flak 38 (bateria antiaérea alemã de 20 mm). Parte dos destroços foi encontrada na cidade de Rodano, a 15 km de Milão), em 2012. Em 2016, ele recebeu uma homenagem nessa cidade, ao lado dos soldados italianos. Em 2017, sua família em Aracaju recebeu do governo do estado, a Ordem do Mérito Aperipê. Em 2020, por uma iniciativa popular, o Tenente foi homenageado no Museu da Gente Sergipana, através de um busto e um diorama retratando sua última missão.

CS: Do que você precisa para concretizar o projeto? Já tem data marcada para a inauguração?

AC: Temos um expressivo potencial turístico, econômico, acadêmico e cívico de fazer algo que chame a atenção de muita gente. Existem três propostas separadas, de acordo com o nível de complexidade. Apresentei para diversos órgãos e personalidades que se mostram surpresas com a abrangência do tema e a importância de fazê-lo. No entanto, a pandemia e a crise econômica têm dificultado a evolução. Em agosto estamos discutindo sobre um final de semana de eventos em memória dos 80 anos dos torpedeamentos que levaram o Brasil a entrar no maior conflito da humanidade. Queremos realizar um seminário com palestrantes de Sergipe, alguns nomes bem gabaritados do Brasil, incluindo participação internacional. Mas é necessário apoio dos órgãos, empresários e sociedade civil.

CS: O que terá no acervo?

AC: Varia de acordo com a proposta, mas já temos busto, diorama, réplica de uniforme, kit do submarino que fez o ataque, livros importantes sobre o tema, incluindo autores sergipanos, escultura de uma cobra fumando, em alusão ao termo “A Cobra Vai Fumar“, muito comum na época que veio a ser um dos símbolos da força expedicionária, e réplica da medalha mais importante recebida por um sergipano. Para os próximos passos queremos construir ambientes de imersão em que as pessoas se sentirão dentro de um dos torpedeamentos que aconteceram em nosso litoral. Um corredor simulando o interior do submarino U-507. Diversas fardas de soldado, enfermeira, piloto e médico, que são posições onde tivemos sergipanos. Simulador do P-47, avião utilizado pelos brasileiros na Itália. Um monumento aos mortos em combate que consistiria de uma réplica em tamanho real do avião que o Tem. Aurélio foi abatido, seis cruzes de campo de batalha (quando o soldado morre em combate, seu corpo é enterrado e seu rifle fincado no chão com o capacete em cima, formando seu túmulo) representando os cinco soldados e um sargento sergipano do exército, tudo isso em cima de um espelho d’água com o nome dos 21 marinheiros que morreram nos ataques. O túmulo do marinheiro é o fundo do mar. Também existe a proposta de um curta-metragem.

CS: Como foi a participação de Sergipe na II Guerra Mundial?

AC: “Para o Brasil, o estopim da guerra foi em Sergipe”. Essa frase sintetiza bem nossa história. Até agosto de 1942, o Brasil tinha sofrido ataques em 15  navios com cerca de 136 mortes, mas todos eles fora de águas territoriais brasileiras, exceto um pequeno ataque de um submarino italiano próximo à Fernando de Noronha, sem grandes consequências. Na noite de 15 de agosto de 1942, três navios da Marinha Mercante que partiram de Salvador, com destino a Aracaju, Maceió e Recife, foram atacados próximo de nosso litoral, ceifando a vida de 551 pessoas. Em uma noite, morreram mais brasileiros em nosso litoral do que em oito meses nos campos de batalha na Itália, que hoje são merecidamente relembrados em belos monumentos e cerimônias em Pistóia (Itália) e no Rio de Janeiro. Na noite seguinte, os primeiros náufragos chegaram a Estância, de onde partiu a primeira mensagem informando às forças armadas sobre o ataque. Na manhã do dia 17, partiu do Aeroclube de Sergipe a primeira missão de busca e salvamento em território nacional por causa de ataques da Alemanha em nosso território. Pilotos civis em três aeronaves, sem treinamento especializado, foram liderados pelo fundador e presidente do aeroclube, Walter Baptista, e durante três dias patrulharam nosso litoral encontrando e transportando náufragos para serem melhor atendidos em Aracaju. Um tio-avô meu foi um dos pilotos. Uma semana após esse ataque, o Brasil declarou estado de beligerância contra a Alemanha e Itália. Alguns historiadores consideram esses ataques o “Pearl Harbor Brasileiro”, em alusão ao ataque feito pelo Japão aos Estados Unidos em 1941.

CS: Quais nomes o senhor destacaria no conflito e por quê?

AC: Segundo dados preliminares, cerca de 285 sergipanos participaram do conflito: 185 pelo Exército Brasileiro; 92 patrulhando nosso litoral;4 pela Força Aérea Brasileira no 1o Grupo de Caça; 3 Enfermeiras e 1 pela Marinha Americana.

Tivemos alguns destaques, como o General do Exército, Walter de Menezes Paes, então capitão, seu irmão, o Capitão Médico, Álvaro de Menezes Paes, o Brigadeiro Paulo Costa, então Tenente, as Tenentes Enfermeiras Joana Simões, Isabel Feitosa e Lenalda Campos, Sargento Zacarias Isidoro, o ganhador da Silver Star (segunda maior condecoração dada pelos EUA a um estrangeiro), Joel Silveira, que foi um dos grandes correspondentes de guerra, os irmãos, Sargento José Pinheiro e Soldado Dionísio Pinheiro, que se encontraram nos campos de batalha, mesmo um deles tendo ficado para cuidar de sua mãe, Cabo Eronides da Cruz teve grande atuação na preservação da memória através do Museu do Expedicionário, em Curitiba, Nelson Pereira dos Santos, que serviu pela Marinha Americana, dentre várias outras histórias que estamos descobrindo e compilando.

CS: O senhor foi convidado pelos acadêmicos Carlos Pinna de Assis e Guilherme da Costa Nascimento para falar na Academia Sergipana de Letras, durante a Conferência da participação de Sergipe na II Guerra Mundial. Como foi a participação do senhor neste evento?

AC: Foi bem acolhedora. Os acadêmicos ainda têm uma conexão afetiva com o tema, não apenas por o terem estudado, mas também pelo fato de seus pais e avós, que vivenciaram esse drama, foram testemunhas oculares da tragédia que é uma guerra. Num debate após a explanação ficou evidente que temos um compromisso em enaltecer, perpetuar esses eventos em nosso estado, fazendo com que um maior número de pessoas conheçam nossa história.

CS: O fato de ser convidado por esses estudiosos já é uma corroboração da consistência de seu trabalho neste projeto, na sua opinião?

AC: Sem dúvida é uma grande honra ter o apoio de personalidades com tamanha importância em nossa sociedade. Minha primeira pergunta ao apresentar o projeto é saber o que acharam e, principalmente, as críticas para melhorá-lo. A recepção tem sido muito boa e as críticas ajudam o projeto a ficar mais robusto.

CS: O senhor acha que os sergipanos desconhecem ou sabem muito pouco sobre os feitos de seus próprios heróis?

AC: Desde que comecei a me aprofundar no tema, todas as pessoas que tive contato concordaram que, no geral, os sergipanos não conheciam a própria história, mas sem dados concretos. Apliquei um formulário com aproximadamente 200 pessoas e hoje posso garantir o quanto não conhecem e o que não conhecem sobre nossa participação. Oitenta por cento das pessoas declararam que não conheciam ou conheciam pouco sobre a participação de Sergipe na Segunda Guerra. Porém, os 20% que declararam que conheciam, ainda erraram 32% das perguntas de validação. Temos um documento que justifica diversas ações. Em Sergipe, gostaria de destacar os importantes trabalhos já feitos pelo GET (Grupo de Estudos do Tempo Presente) da Universidade Federal de Sergipe, organizado pelo professor Dilton Maynard e professora Andreza Maynard. Vale também lembrar as publicações do professor Luiz Antonio Pinto Cruz.

Texto e imagem reproduzidos do site: ajn1 com br

sábado, 3 de setembro de 2022

'Os torpedeamentos de agosto de 1942', por Andreza Maynard

Crédito da imagem: Revista O Cruzeiro, 29 Ago 1942, p. 5.

Publicação compartilhada do site do Portal INFONET, de 13 de agosto de 2013

Os torpedeamentos de agosto de 1942
Por Andreza Maynard*

* Doutoranda em História pela Unesp - Membro do Grupo de Estudos do Tempo Presente(GET/CNPq/UFS) - Do Blog GETEMPO                                                                                                                                                                                                            >  Em 1942 o Brasil foi levado a se envolver diretamente na Segunda Guerra Mundial. Desde janeiro desse mesmo ano, o país havia rompido relações diplomáticas com as Potências do Eixo (bloco constituído por Alemanha, Itália e Japão). No entanto os torpedeamentos dos navios brasileiros, ocorridos entre 15 e 17 de agosto, gerou uma série de manifestações populares contra os autores dos ataques, forçando Getúlio Vargas a tomar uma postura mais firme diante do conflito. Ainda no dia 31 a Agência Nacional Brasileira (ANB) anunciava que o presidente da república havia decretado o “Estado de Guerra” em todo o país.

O submarino alemão U-507 disparou vários torpedos, causando afundamentos e mortes no litoral brasileiro entre os estados de Sergipe e Bahia. A primeira embarcação alvejada no dia 15 foi o Baependy, atingido por dois torpedos por volta das 20h. Na mesma noite o Araraquara foi torpedeado onde o Baependy fora atacado. Aproximadamente às 4h da manhã do dia 16 foi a vez do Aníbal Benévolo. Essas agressões ocorreram nas proximidades das praias sergipanas, onde foram parar muitos dos destroços das embarcações, sobreviventes e cadáveres. As próximas vítimas foram o Itagiba e o Arará alvejados no dia 17 no litoral baiano.

Temendo perder o controle sobre as manifestações populares, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que realizava a censura dos meios de comunicação no Brasil, procurou intermediar as notícias sobre o acontecimento. Assim, no dia 18 de agosto os jornais impressos e programas de rádio foram obrigados a transmitir um comunicado do DIP. Na nota o órgão oficial atribuía a autoria dos ataques aos submarinos do Eixo. Mais tarde a Alemanha assumiria a responsabilidade pela agressão às embarcações brasileiras. Documentos encontrados no submarino U-507 confirmaram a autoria dos disparos.

Outras embarcações brasileiras já haviam sido torpedeadas, mas esta era a primeira vez que os ataques ocorriam no perímetro nacional. Os chamados navios de cabotagem também faziam o transporte de passageiros civis, além da tripulação e em alguns casos de militares. Isso aguçou a indignação dos brasileiros. Além disso, oficialmente o Brasil não estava participando da guerra, o que deslegitimava os torpedeamentos. Pois de acordo com a normatização bélica vigente à época, uma nação só poderia atacar outra para se defender.

O apelo do Governo Federal para que as pessoas não se exaltassem, não depredassem o patrimônio particular e não se aglomerassem em manifestações públicas caiu no vazio. Diante da comoção gerada pelas notícias e imagens divulgadas por jornais e revistas a exemplo de O Cruzeiro, foram registradas manifestações populares em várias partes do país. Em muitas cidades as propriedades de estrangeiros foram alvejadas e a polícia teve trabalho para conter os revoltosos.

Político ardiloso, Getúlio Vargas não barrou as manifestações em frente ao Palácio da Guanabara, no Rio de Janeiro. Ao contrário disso, deu ordens para que os portões fossem abertos e aproveitou para discursar à massa. As placas de “Queremos a Guerra”, a queima de bandeiras com o símbolo nazista e o povo nas ruas levou o chefe do Estado Novo brasileiro a anunciar uma retaliação à altura.

Nesse sentido a decisão do Brasil participar efetivamente da Guerra agradou, mas demorou a se concretizar. A formação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) em 1943 revelou as dificuldades do Exército Brasileiro em preencher os quadros necessários. O recrutamento, seleção e treinamento destes homens não se realizaram de forma fácil. O equipamento dos pracinhas da FEB precisou contar com a ajuda dos companheiros norte-americanos, que também foram responsáveis pelo transporte da tropa brasileira até a Europa, em 1944.

O ataque brutal e sem justificativas, ao menos legais, do U-507 em 1942 mobilizou a população brasileira a exigir o direito de reparação. E embora o governo Vargas tenha atendido aos anseios dos seus cidadãos, a participação do país na Guerra revelou as fragilidades de uma nação incapaz de se defender sozinha. Após a entrada do Brasil na Guerra, a população se deu por satisfeita. Havia conformidade até mesmo diante da falta dos direitos civis, suprimidos durante o Estado Novo. Esperando pelas benesses do “Pai dos Pobres”, como Vargas era chamado, a população brasileira parecia incapaz de se defender sozinha em seu próprio território.

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

'Infâmia no litoral de Sergipe – 80 anos', por Lúcio Prado

Legenda da foto: O médico Zamir de Oliveira, 
um dos poucos sobreviventes do Baependy

Legenda da foto: Navio Aníbal Benévolo tinha como destino Aracaju.

Publicação compartilhada do site do Portal INFONET, de 15 deagosto de 2022 

Infâmia no litoral de Sergipe – 80 anos
Por Lúcio Prado (in blog Infonet)

Em agosto de 1942, o império nazista estava no auge e os Estados Unidos haviam entrado na guerra após o ataque a Pearl Harbor, uma base americana no Pacífico. O governo brasileiro avançava para uma posição favorável aos aliados na Segunda Guerra e Hitler despacha seus submarinos para o Atlântico Sul, para as costas do Brasil, fugindo da ameaça americana. A ordem é para que promovam ações de sabotagem e torpedeamento dos principais portos brasileiros, visando impedir a rota de suprimentos e o deslocamento de tropas. Quando os submarinos já estão na região, esta ordem é estrategicamente suspensa. Mas eles não perdem a viagem.

Um deles aproxima-se perigosamente da gente. O submarino U-boat 507, comandado pelo Capitão-de-Corveta Harro Schacht, navegando no trajeto de Recife para Salvador, ao passar pelo litoral sul de Sergipe, ataca o navio mercante Baependi, nas proximidades da foz do Rio Real, que seguia de Salvador para Recife. O relógio marca 19 horas e doze minutos do dia 15 de agosto. Dois certeiros torpedos partidos do submarino acertam em cheio o alvo e afundam o navio em pouco minutos, ceifando a vida de duzentos e setenta pessoas, muitas delas mulheres e crianças. Somente trinta e quatro conseguem sobreviver, chegando exauridos à praia do Saco no transcorrer do dia seguinte, alguns deles agarrados aos destroços e a maioria apinhada no único bote que sobrou do naufrágio.

Minutos depois, o U-boat avista o navio Araraquara, que tem igual destino. Não tarda, na mesma rota vem o Aníbal Benévolo, este sim entraria no porto de Aracaju, proveniente do Rio de Janeiro, trazendo muitos sergipanos. Também vai a pique atingido por torpedos do U-507, por volta das 4 horas da madrugada do dia 16. Em suma, três navios são afundados, um atrás do outro, deixando grande número de mortos e náufragos, num espaço de apenas nove horas. A tragédia do Baependi é a maior entre todas as que se abatem sobre os navios brasileiros durante a Segunda Guerra Mundial. Em nenhum outro torpedeamento há tantas vítimas. Somado os três navios afundados, o U-507 causa a morte de aproximadamente seiscentos brasileiros.

No dia 17, o coronel Augusto Maynard Gomes, interventor federal que governa o estado   toma o seu café da manhã em palácio quando é alertado por oficiais da marinha que o “Aníbal Benévolo”, que deveria chegar em Aracaju no dia anterior, não dera sinal de vida. Preocupado, aciona Walter Baptista, coordenador de um grupo de aviadores amadores que havia recebido do governador Eronides Carvalho um avião para o aeroclube de Sergipe, em 1939. Walter fazia voos de treinamento ao lado de outros pilotos amadores, entre eles Durval Maynard, Lindolfo Calazans, os irmãos Walfrido e Walter Rezende, Arivaldo Carvalho e Ewandro Freire, e quando a guerra se desloca para o Atlântico Sul passa também a vigiar as nossas praias, com incursões de reconhecimento pelo litoral sergipano, logo ao raiar do dia. Na época, o Aeroclube já contava com cinco teco-tecos.

Maynard pede a Walter que sobrevoe nossas praias na tentativa de descobrir o motivo do atraso do navio. As notícias de torpedeamento de navios brasileiros em rotas internacionais já eram conhecidas, mas ninguém imaginava que a guerra estivesse tão próxima. Ele chama Lourival Bomfim, médico e companheiro de aventuras, também aviador e juntos decolam. O que eles veem é desolador e sem ainda saber, são expectadores do fim de uma noite de tragédias e do início de um dia de lágrimas.

Corpos misturados a restos das embarcações, nas areias da praia, encontram mais de cinquenta. Até então não sabiam ao certo o que teria provocado a tragédia. O que poderia ter sido um inesperado naufrágio revela-se, porém, em uma tragédia. Walter e Lourival chegam a ver, do alto, pessoas saindo da água, cambaleantes, em trapos, feridas e ensanguentadas. Aterrisam o pequeno avião na areia da praia, prestam  os primeiros socorros e então ficam sabendo, atônitos, o motivo real do ocorrido. Entre os sobreviventes, o médico Viterbo Storry. No momento do ataque ao Baependi, ele conversava no convés com outro médico, o Dr. Zamir de Oliveira, que também sobreviveu. Ambos haviam sido nomeados para o Serviço Nacional da Peste em Pernambuco. Muitos feridos são levados a Estância, onde recebem atendimento no Hospital Amparo de Maria, graças à ação dos médicos Jessé Fontes, Clovis Franco, Pedro Soares, entre outros. Os feridos não param de chegar. Na praia os corpos inertes, sem vida, são enfileirados e para lá se dirigem forças policiais acompanhadas do Dr. Carlos de Menezes, médico legista que, com a ajuda do Dr. Aloysio Coutinho Neves, autopsia os cadáveres, descrevendo as lesões encontradas.

Os aviões do Aeroclube também pousam nas praias de Atalaia e do Mosqueiro, onde dezenas de corpos, trazidos pelo mar, perfilam um quadro dantesco e aterrorizador.

Os sergipanos, em estado de choque, agora com a grande guerra à porta, temem que ela se alastre por toda a cidade. Fazem treinamentos e à noite, com a cidade às escuras, recolhem-se aos seus lares. Com a fuga dos submarinos, a sensação de alívio é geral, não sem os traumas que levam a população ensandecida a promover tentativas de linchamento de imigrantes alemães e italianos.

Outros torpedeamentos ainda ocorrem na mesma rota destruidora do U-Boat 507. Em 17 de agosto, no litoral norte da Bahia, o Arará e o Itagiba são afundados pelo comandante Harro, resultando em mais cinquenta e seis mortes.

A tragédia no litoral sergipano desencadeia de pronto a reação do Governo brasileiro. Em 22 de agosto, o presidente Vargas reúne seu Ministério, que aprova por unanimidade a situação de beligerância entre o Brasil e as nações agressoras. Em 31 de agosto, finalmente, o Brasil declara guerra à Alemanha e à Itália.

Harro Schacht, carrasco dos navios mercantes brasileiros, não fica impune e é morto quando o U-507 afunda com toda a sua tripulação em 13 de janeiro de 1943 no Atlântico Sul, atingido por bombas de um avião americano Catalina.

Passados 80 anos do torpedeamento dos navios mercantes brasileiros nas costas de Sergipe e da Bahia, muita coisa ainda há por ser conhecida, como a própria razão dos ataques, a rota seguida por muitos sobreviventes até chegar a povoados e aos hospitais, principalmente o de Estância, o a questão dos “malafogados” pela ação de saqueadores e finalmente o perfil dos aviadores amadores civis que participaram do esforço de guerra.

O descaso e a ingratidão dos homens fazem com que esse episódio ao mesmo tempo épico e dramático seja desconhecido da maioria dos sergipanos. Entretanto, notícias auspiciosas aos poucos vão chegando, com os trabalhos de historiadores e pesquisadores vinculados às nossas universidades, além do surgimento do Grupo Sergipano de Estudos da FEB – Grusef – que vem empreendendo ampla discussão sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, com a realização de seminários e ações que visam edificar um Memorial dos Torpedeamentos e reverenciar as ações de sergipanos envolvidos na guerra.

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br

sábado, 20 de agosto de 2022

Abertura da exposição “Aracaju: a capital que viu a Guerra”


Legenda da foto: Professor universitário e pró-reitor de graduação Dr. Dilton Maynard, representando o reitor da UFS e a professora, historiadora e organizadora da exposição Dra. Andreza Maynard - (Créditos das fotos: reprodução da fanpage do Facebook/Centro Cultural de Aracaju).

Texto publicado originalmente no site da PMA, em 18 de agosto de 2022

Exposição "Aracaju: a capital que viu a guerra" é aberta no Centro Cultural

Com o intuito de resgatar e trazer à memória os 80 anos do torpedeamento a navios na costa sergipana, que marcaram a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, a Prefeitura de Aracaju, por meio da Fundação Cultural Cidade de Aracaju (Funcaju), junto à Universidade Federal de Sergipe (UFS), inaugurou a exposição “Aracaju: a capital que viu a guerra”, no Centro Cultural.

A exposição aborda como a capital sergipana esteve envolvida na Segunda Guerra e, também, como essa participação mudou o cotidiano da população, o modo como os veículos de comunicação informaram sobre a guerra, a movimentação em torno dos sobreviventes e a preparação do povo para possíveis novos ataques.

A solenidade contou com a apresentação da Orquestra de Cordas, que faz parte da Orquestra Sinfônica da UFS, e do Coral da UFS; em seguida, a exibição do curta “Desaparecidos”, de direção de Pascoal Maynard, que apresentou as vítimas dos torpedeamentos. Um coffe break foi oferecido aos espectadores, enquanto estes emergiam na história contada na mostra.

O presidente da Funcaju, Luciano Correia, mostrou-se satisfeito com exposição e com o modo como ela encerra o ciclo de programação que homenageia os 80 anos dos bombardeios dos navios na costa sergipana.

“Foi o evento que fez o Brasil entrar na Segunda Guerra Mundial. Restituímos a importância deste evento, pouco lembrado em Sergipe, porque tem importância para o estado, para o Brasil e, quiçá, o mundo. A partir de tudo que foi feito com essa exposição, a gente tenha um embrião, aqui, do futuro memorial dos Náufragos. Vamos trabalhar para que, no próximo ano, ao invés da gente homenagear essas várias ações alusivas ao bombardeio, a gente já tenha o memorial dos Náufragos, em Sergipe”, informa Luciano.

A professora do Colégio de Aplicação da UFS e do Mestrado Profissional em Ensino de História (Profhistória), Andreza Maynard, idealizadora do projeto, agradeceu à Funcaju pela oportunidade de poder apresentar à sociedade a história dos torpedeamentos. Para a historiadora, a mostra evidencia momentos que sucederam aos bombardeios, por meio do submarino alemão 507.

“A exposição aborda as mudanças na sociedade, após os torpedeamentos de três navios na costa sergipana, em 1942; de como era o cotidiano de Aracaju e como é que a guerra vai mudar esse cotidiano, a partir do medo, dos preparativos pra possível defesa de outro ataque e também como ficará a cidade após a guerra chegar a Sergipe e a Aracaju”, explica Andreza.

Com entrada gratuita, a exposição segue instalada no Centro Cultural de Aracaju, localizado na praça General Valadão, no Centro, até o dia 17 de outubro.

Entre os presentes estavam o presidente da Funcaju, Luciano Correia; o professor universitário e pró-reitor de graduação Dr. Dilton Maynard, representando o reitor da UFS; o diretor do Colégio de Aplicação (Codap-UFS), Prof. Msc. Carlos Alberto Barreto; e a professora, historiadora e organizadora da exposição Dra. Andreza Maynard.

Texto reproduzido do site: aracaju.se.gov.br 

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Homenagens às vítimas de torpedeamento resgata memória...




Luciano Correia

Luiz Eduardo

Valter Santana

Berilo Rodrigues
Créditos das fotos: Sergio Silva

Publicação compartilhada do site da Agência Aracaju de Notícias, de 17 de agosto de 2022 

Homenagens às vítimas de torpedeamento resgata memória e deixa legado para futuras gerações

Em virtude dos 80 anos dos torpedeamentos de embarcações na costa da capital sergipana, por submarinos alemães, evento que culminou na entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, a Prefeitura de Aracaju estabeleceu uma comissão com representação de diversas instituições, responsável por desenvolver uma programação robusta de homenagens às vítimas, em resgate à memória que deixa legado para as próximas gerações. 

Fizeram parte da comissão, representantes da Funcaju, da Capitania dos Portos de Sergipe, do Ministério da Marinha, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), do 28º Batalhão de Caçadores, da Academia Sergipana de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, do Governo do Estado e do Instituto Banese, com o objetivo comum de relembrar o contexto de participação do país na guerra, de maneira que possa aprender com o passado para não repeti-lo. 

“É muito importante, para nós e para as futuras gerações, compreender o que aconteceu há 80 anos atrás. A Segunda Guerra mudou a humanidade. Com a ajuda dos expedicionários, conseguimos a derrota do nazifascismo. É preciso relembrar, entender a importância histórica do que aconteceu para que os erros não se repitam, e uma outra guerra não aconteça. A paz é sempre fundamental”, aponta o prefeito Edvaldo Nogueira. 

Ligada à formação sociocultural de um povo, o avivamento da memória contribui para a formação da identidade da população, permitindo que os mais jovens tenham referências e raízes das quais possam nutrir-se de informações e, desta forma, possam agir com sensatez.

“As homenagens por conta dos 80 anos dos torpedeamentos dos navios têm um efeito didático, pedagógico, na medida em que não só cultua a paz e os náufragos, mas abre uma perspetiva completa de transformação para as futuras gerações, no sentido de cultivar a paz a partir de um exemplo de guerra”, acredita o presidente da Funcaju, Luciano Correia. 

Com o ataque, 607 pessoas perderam a vida em um espaço de três dias, mais do que nos oito meses de campanha na Itália, onde as tropas brasileiras desempenharam papel importante na Batalha de Monte Castelo, o que dá ideia do tamanho da tragédia e da necessidade de relembrá-la propriamente. 

“A entrada do Brasil na Segunda Guerra foi, praticamente, definida aqui e esses fatos, infelizmente, não eram lembrados como se deve. Então, estamos recuperando a nossa história e devemos manter essas homenagens todos os anos, a partir de agora”, afirma o jornalista Luiz Eduardo Costa.

Como ressalta o reitor da UFS, Valter Santana, compreender os acontecimentos do passado é o que permite alicerçar os planos do presente e futuro. 

“O resgate histórico de situações importantes vividas, aqui em Sergipe, é o pilar para a construção do nosso futuro. Temos que entender o passado, relembrar o que aconteceu para nortear as nossas ações. É fundamental que as próximas gerações conheçam a importância dos nossos antepassados”, acrescenta Valter. 

Veterano de guerra, o tenente reformado Berilo Rodrigues Figueiredo, hoje, com 100 anos. 

“Eu era muito novo, ainda na escola, quando ocorreram os bombardeios. Logo em seguida, já me vi num navio. Comecei e tive a sorte de chegar vivo ao fim dela. Entrei na Marinha e já entrei na guerra, mas saí bem. Depois de todos esses anos, ter essa homenagem é uma surpresa e me sinto muito grato”, frisa Berilo. 

Texto e imagens reproduzidos do site: aracaju.se.gov.br

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Homenagem pelos 80 anos dos torpedeamentos de embarcações na costa da capital






Crédito das fotos: Ana Lícia Menezes/PMA

Publicação compartilhada do site da Agência Aracaju de Notícias, de 16 de agosto de 2022

Prefeitura realiza homenagem pelos 80 anos dos torpedeamentos de embarcações na costa da capital

Para marcar os 80 anos dos torpedeamentos de embarcações na costa da capital sergipana, que desencadearam a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, a Prefeitura de Aracaju realizou, nesta terça-feira, 16, um ato em memória à data. Celebrada no Farol da Coroa do Meio e organizada por uma comissão cultural, instituída pelo prefeito Edvaldo Nogueira, a homenagem lembrou os acontecimentos ocorridos no dia 15 de agosto de 1942, quando um submarino alemão bombardeou os navios Baependi, Araraquara e Anibal Benévolo, vitimando 607 pessoas no litoral aracajuano, entre tripulação e passageiros. Ao participar da celebração, Edvaldo destacou que o evento "representa um momento histórico e muito importante para as gerações passadas e futuras".

"Foi um fatídico acontecimento que ocorreu há 80 anos e que forçou o Brasil a entrar na Segunda Guerra Mundial. Foi a partir dos torpedeamentos dos navios na nossa costa, que o governo brasileiro, comandado pelo presidente Getúlio Vargas, montou a sua força expedicionária e que desempenhou papel muito importante na Segunda Guerra combatendo, principalmente na Itália, na tomada de Monte Castelo. A Segunda Guerra marcou a humanidade, de maneira muito triste, mas que, de fato, colocou o mundo em um outro patamar. E é sempre importante lembrar para que nunca mais possamos enfrentar um episódio como este", afirmou o gestor.

Edvaldo ressaltou também que a instituição do decreto criando a comissão cultural teve como finalidade preservar "este episódio da história de Aracaju, além de resguardar as memórias das vítimas". "É algo que marca indelevelmente a nossa capital, mas que, infelizmente, nem todos têm conhecimento. Então é preciso que a gente possa celebrar a data, contribuindo para o resgate destes elementos. Além desta celebração, futuramente, também teremos o Museu dos Náufragos para que possamos mostrar essas memórias", expressou.

Fazem parte da comissão instituída pelo gestor representantes da Funcaju, da Capitania dos Portos de Sergipe, do Ministério da Marinha, da Universidade Federal de Sergipe, do 28º Batalhão de Caçadores, da Academia Sergipana de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, do Governo do Estado e do Instituto Banese.

Homenagens

Durante a homenagem realizada nesta terça, foram afixadas duas placas no local em memória à data. Futuramente, ambas serão transferidas para a praça dos Náufragos, que está sendo erguida em uma área ao lado do Farol. A celebração contou ainda com a aposição de flores pelo prefeito Edvaldo Nogueira e pelo capitão de Fragatas da Capitania dos Portos de Sergipe, capitão Luciano Maciel Rodrigues, com a exibição de um vídeo em homenagem aos náufragos no qual todos os tripulantes foram citados, além de honrarias militares, como a salva de tiros, e a apresentação do Quinteto Sinfônico da Orquestra Sinfônica de Sergipe. Além disso, mais cedo, também foram depositadas flores no mar em homenagem às vítimas, a partir de um navio da Marinha. O momento também foi exibido durante a cerimônia.

"Esse evento restitui uma dívida  que o poder público e parte da sociedade tinham com os náufragos de 1942. Agora, nos seus 80 anos, a Prefeitura lidera um movimento com várias entidades civis, militares e não governamentais para que, a partir de agora, esse evento importantíssimo passe a ser celebrado com a dignidade que esses heróis, de um episódio tão trágico da história brasileira, devem ser lembrados, com o culto que eles merecem e trazendo, também, para Sergipe, a apropriação deste episódio que é importante, mas pouco utilizados por historiadores, para pesquisa acadêmica, para todas as finalidades, inclusive para o caráter turístico", enfatizou o presidente da Fundação Cultural Cidade de Aracaju (Funcaju), Luciano Correia.

Capitão de Fragatas da Capitania dos Portos de Sergipe, Luciano Maciel Rodrigues frisou que a cerimônia "é uma reverência aos náufragos dos três navios que foram torpedeados". "De forma inédita, várias instituições e organizações se somaram, nesta comissão mista, a partir da iniciativa da Prefeitura, para prestar essa homenagem em memória aos 80 anos dos torpedeamentos dos navios. Foi um fato marcante, não só para Sergipe, mas para o Brasil e para a Marinha,  então, com essa cerimônia, a gente presta uma homenagem, em um local simbólico para nosso estado e para a Marinha, aos que morreram por ocasião dos torpedeamentos dos navios", declarou.

Programação

A programação em celebração aos 80 anos dos torpedeamentos dos navios na costa de Aracaju teve início no último sábado, dia 13, com o seminário "Sergipe na Segunda Guerra", ministrado pelo grupo sergipano de estudos da Força Expedicionária Brasileira. No domingo, dia 14, houve uma solenidade alusiva à data, com as inaugurações do novo portal de entrada do Aeroclube, de um memorial e de um painel, na praça Tenente Aviador Aurélio Sampaio. Além disso, também será lançada, nesta quarta-feira, dia 17, uma exposição, no Centro Cultural, sobre os acontecimentos após a data histórica. A mostra possui entrada gratuita e se estenderá até o dia 17 de outubro.

Texto e imagens reproduzidos do site: aracaju.se.gov.br