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segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Lançamento do livro: “Minha companheira de dentro”.

Publicado originalmente no Perfil do Facebook/Lilian Rocha, em 28/11/2021 

Quero agradecer de coração a todos os que estiveram presentes na live de lançamento do meu novo livro, “Minha companheira de dentro”. Foi um bate-papo supergostoso entre mim, Pedro Carregosa, meu ex-aluno, e minha filha, Letícia Sobral, que apresentou o programa diretamente de Budapeste, onde está vivendo com o marido há 4 meses. 


Apesar de ser este o meu 12º livro, “Minha companheira de dentro” é o primeiro desta linha autobiográfica. É um livro onde eu abro o meu coração e deixo que minha alma fale por mim, relembrando fatos de minha infância, peraltices da adolescência, experiências profissionais, realizações pessoais, sonhos, perdas e frustrações, até os dias de hoje, em que fomos dominados por uma pandemia que nos virou pelo avesso, mas que também nos deu a oportunidade de reencontrar a nossa outra metade, que vivia sufocada e esquecida no escuro de nós mesmos.  


É esta outra metade de mim, “minha companheira de dentro”, quem conta essas histórias, todas reais e repletas de saudade e emoção.  


Para conhecê-las, é só abrir esta porta... 


Texto, imagem e vídeo reproduzidos do Facebook/Lilian Rocha 


quinta-feira, 25 de novembro de 2021

'Minha Companheira de Dentro', por Lilian Rocha

Publicado originalmente no Perfil do Facebook de Lilian Rocha, em 23/11/2021

 

Minha Companheira de Dentro  

Por Lilian Rocha 


Faço parte daquela parcela de gente que conseguiu ver a pandemia por outro ângulo. Que viu vida além das mortes, que viu no isolamento outras maneiras de se fazer presente, que viu oportunidades quando parecia não haver possibilidades. 


Pra mim, foi um renascimento em todos os aspectos. Aprendi a viver com menos e descobri que não precisava de mais da metade do que possuía. Na verdade, precisamos de muito pouco para sermos felizes. Senti medo, mas em nenhum momento me senti desamparada. Voltei a ver Deus nas pequeninas coisas do meu dia e por isso, passei a celebrar cada novo dia. 


Deixei de pintar meus cabelos e vi surgir no espelho “a velhinha” que já habitava em mim e que eu tentava esconder. Fiz as pazes com ela e celebramos, juntas, o adeus às tintas de cabelo e a liberdade de sermos, simplesmente, aquilo que somos. 


E se há uma coisa boa na velhice, essa fase de nossa vida em que tudo se torna mais lento e difícil, eu afirmo que é essa liberdade. A velhice nos liberta de tudo. É como se de repente a gente estivesse num lugar bem alto e começasse a enxergar a vida lá de cima. Tudo fica pequeno, sobretudo os problemas. O tempo é a gente quem faz. Nada mais é “pra ontem”, a pressa nos faz mal. Perdemos “o filtro”, deixamos de ter medo do que as pessoas podem pensar da gente. Isso não faz mais nenhum sentido. 


Enfim, passamos grande parte de nossa vida tentando ser jovens, tentando ser magras, tentando ser eficientes, tentando esconder nossos defeitos, fingindo que somos perfeitas. Por fora, um corpo que briga com o tempo, sufoca a alma e finge ser o que não é; por dentro, uma alma que não conhece o desgaste do tempo e deseja apenas ser o que sempre foi. 


Foi este o grande presente que a pandemia me deu: a oportunidade de fazer as pazes comigo mesma, com “a minha companheira de dentro”. 


É este o meu novo livro. Através dele, vocês vão conhecer muitas histórias da minha vida, desde a infância até hoje. Quem escreveu foi esta “senhora de meia idade”, com a cabecinha toda branca. Mas quem narrou as histórias, foi ela, minha alma adolescente, que teima em não crescer e a quem eu chamo, carinhosamente, de “minha companheira de dentro”... 


Espero vê-los quinta-feira, dia 25 de novembro, às 19h, para o lançamento do livro. Resolvi optar pelo lançamento virtual, no Youtube, pois do contrário, “minha companheira” não poderia estar presente, por razões óbvias...  


E senta, que lá vem história... 


Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Lilian Rocha 

terça-feira, 18 de maio de 2021

Livro > "Petrônio Gomes, meu pai", por Lilian Rocha

Publicação compartilhada do Perfil do FACEBOOK/LILIAN ROCHA, em 18/05/2021

Desde que ele se foi, senti que faltou muito a ser dito a ele e sobre ele. E por isso, prometi a mim mesma que ia escrever a sua história, mesmo sem ser biógrafa, mesmo sem técnica nem forma.

E baseada numa das frases que ele costumava repetir, "A boca fala do que está cheio o coração", deixei que minhas mãos escrevessem "daquilo que estava cheio o meu coração."

Meu pai foi o meu ídolo, de quem herdei toda a minha sensibilidade e essência literária. E enquanto eu escrevia, descobri o quanto éramos parecidos e o quanto nossas experiências de vida se assemelham, guardadas as devidas proporções, claro!

Mas este livro não foi escrito só por mim. Também aqui nós confundimos nossas mãos e escrevemos juntos esta história.

Uma história que não é só dele, mas de todos os sergipanos, que vão conhecer e "re-conhecer", nessas páginas, uma Aracaju ainda menina, de pés descalços, que ainda não conhecia o asfalto e andava por sobre suas ruas empiçarradas...

A história de meu pai se confunde, muitas vezes, com a história de Aracaju, como se uma fosse o cenário da outra. Uma cidade que o acolheu ainda menino e depois o viu crescer como homem, como jornalista, como radialista e como escritor. 

Aqui está a história de Aracaju, contada por ele.

E escrita por mim, aqui está a história dele:

"Petrônio Gomes, meu pai"

(Lilian Rocha - 18.05.21)

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Lilian Rocha

segunda-feira, 15 de maio de 2017

O Dia 9 de maio, por Lilian Rocha



Publicado originalmente no Facebook/Perfil Lilian Rocha, em 10 de maio de 2017.

O Dia 9 de maio.
Por Lilian Rocha.

Sempre gostei do meu aniversário. Quando ele vai se aproximando, costumo contar os dias que faltam, pois acho que ele é um dia diferente de todos, é o “meu” dia. E por ser o meu dia, eu gosto de que todo mundo fique sabendo, só pra eu receber parabéns. Afinal, que graça tem um aniversário sem parabéns, sem bolo, sem abraços?
Entretanto, há os que não gostam de comemorar, preferem desaparecer nesse dia, evitam cantar parabéns, escondem a idade, etc, mas decididamente, eu não faço parte desse time.
Acho que toda essa minha empolgação por aniversários veio dela, minha mãe. Ela nunca deixou passar em branco o aniversário da gente. Quando éramos crianças, era ela quem fazia e confeitava o bolo. Pra quem não sabe, “confeitar bolo” significa transformar um bolo numa quase obra de arte. Ela escolhia o modelo numa revista – uma bola, um carrossel, qualquer coisa - e depois ia recortando e modelando os pedaços de bolo até que ele fosse tomando a forma escolhida. Em seguida, vinha a melhor parte. Ela pegava o saco de confeitar, enchia de glacê branca que ela mesma tinha feito, encaixava um bico de metal na ponta do saco e começava a decorar o bolo. Havia bicos de diversos formatos: flores, folhas, estrelas, etc.
Eu adorava vê-la fazendo aquilo. Era um trabalho que requeria muita habilidade e extrema paciência, pois tudo era bem artesanal. E estávamos em plena década de 60, quando não existia nada pronto para ser comprado...
Não demorou e logo essa habilidade dela se espalhou pela vizinhança, de modo que, além de fazer e confeitar os bolos dos 6 filhos, ela passou também a confeitar os bolos dos filhos das vizinhas. E tudo de graça, como sempre.
Depois dos filhos, vieram os netos. E ela continuou participando ativamente de todos os aniversários, ajudando na decoração da mesa, nas lembrancinhas, nas forminhas dos doces, em tudo.
Era principalmente nesses momentos que eu gostava de puxar assunto com ela. Gostava de saber, por exemplo, como se comemoravam os aniversários no tempo dela, se tinha tudo aquilo que tinha hoje. Ela ria e dizia que os aniversários na casa dela eram geralmente comemorados com um almoço. Minha avó mandava preparar uma galinha – galinha era sinônimo de "almoço especial" - e o(a) aniversariante tinha direito de convidar dois(duas) amigos(as) que acabavam passando também a tarde.
E assim se resumia o aniversário. Um almoço com galinha. Nada de refrigerantes, coxinhas ou brigadeiros. Nada de dezenas de convidados nem tampouco dezenas de presentes. Meus avós tinham 9 filhos e o dinheiro era contadinho, não dava para extravagâncias. Mas ela garantia que todos os irmãos dela ficavam felizes. Em compensação, eu ficava com uma pena danada dela. Achava que comemorar aniversário comendo galinha não tinha graça nenhuma...
Mas com galinha ou sem galinha, a verdade é que minha mãe sempre gostou do aniversário dela. Quando ia se aproximando o dia 9 de maio, a gente já notava uma movimentação diferente em casa. Ela mesma fazia os docinhos e salgadinhos, convidava as colegas do trabalho e ficava especialmente feliz nesse dia.
Mas por duas vezes, por circunstâncias contrárias à minha vontade, eu acabei estragando o aniversário dela. A primeira foi em 1978, quando fui operada do joelho em Brasília. Passei 28 dias no hospital, sem poder me levantar, e ela ali, sempre comigo. No meio desses 28 dias, estava também o dia 9 de maio, dia do aniversário dela, que terminou sendo comemorado modestamente, num minúsculo quarto de hospital público. Mas ela estava radiante como sempre, como se estivesse num salão de festas.
Só muitos anos depois, fazendo as contas, é que descobri que aquele foi o aniversário de 50 anos dela...
Anos mais tarde, em 1985, eu estava me preparando para voltar de Recife para Aracaju com meu marido e meu primeiro filho que tinha apenas 8 meses, quando tive uma crise aguda de labirintite. Cada vez que eu ficava de pé, eu sentia náuseas e corria para vomitar. Somente deitada eu me sentia melhor. Mas como terminar de arrumar uma mudança inteira, sem poder ficar de pé e com um bebê de colo?
Desesperada, liguei para minha mãe, a única pessoa no mundo capaz de me salvar. Ela prontamente comprou passagem de avião e foi ao meu encontro. Deitada, fui acompanhando a arrumação silenciosa e cuidadosa dela, sem entender como aquele monte de sacolas ia milagrosamente desaparecendo da sala e entrando nas malas... Como me fez bem a presença dela naquele dia!
Voltamos de avião. Eu deitada, com a poltrona toda reclinada, e ela segurando meu bebê. Era o dia 9 de maio. Dia do aniversário dela que, mais uma vez, eu estraguei.
Mas ela nunca aceitou que eu dissesse ou pensasse que eu tinha estragado o dia dela, pois isso nunca lhe passou pela cabeça. Mil vezes eu tivesse precisado dela, mil vezes ela teria abandonado tudo e ficado ao meu lado.
Este ano, por pouco, não estrago o dia dela de novo. Plantei um sonho na cabeça e escolhi justamente este dia para vê-lo realizado. Mas por algum motivo, Deus começou a desmanchar os meus planos...
Confesso que até gosto quando Deus faz isso, pois os planos dele pra mim são infinitamente melhores que os meus, é só esperar pra ver. É como se Ele estivesse vendo o que eu ainda não consigo enxergar e quando Ele percebe que aquilo não vai ser bom pra mim, Ele rapidamente passa na frente dos acontecimentos e desmancha tudo. Não para me “atrapalhar”, mas simplesmente para me “preservar” de possíveis dores e tristezas.
Mas dessa vez, acho que ela também interferiu lá de cima. Silenciosamente, como sempre, foi recolhendo cada um dos meus sonhos espalhados e guardando-os na mala. Só para me preservar. Não queria me ver triste no dia dela.
Obrigada, mãe! Em troca, almocei galinha no seu aniversário, viu? E fiquei feliz!

Reproduzida do Facebook/Perfil Lilian Rocha.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A "Ultima" da Fila


Publicado originalmente no Facebook/Lilian Rocha, em 11 de abril de 2017.  

A "Ultima" da Fila. 
Por Lilian Rocha.

Se me fosse possível imitar uma das virtudes de minha mãe, eu escolheria, em meio a tantas, a que eu gosto mais: a virtude de passar despercebida.

Levamos a vida toda querendo fazer algo de grandioso, algo que nos eleve perante outros. Cultivamos o orgulho e a vaidade de assinarmos, ao final de cada obra, a fim de que nosso nome se imortalize na memória de todos e nos esquecemos, no entanto, de que, se quisermos ser os maiores, é no último lugar que devemos nos colocar, pois este ninguém nos pode arrebatar.

Nem sempre essa virtude é bem compreendida entre a humanidade. Quase todos nós a confundimos, constantemente, com um aniquilamento total da personalidade. Afinal, se sabemos que somos bons em alguma coisa, por que haveria razão de não querermos exibir nossas virtudes? Seria certo deixarmos de fazer o que somos capazes, só para não aparecermos diante dos outros?

Entretanto, a humildade não consiste em se esconder para não fazer nada, mas em não ficar se admirando, depois de ter feito o máximo. Não se pode ser, ao mesmo tempo, espectador e ator. O bom artista está todo inteiro em sua obra, mas apaga-se diante dela, para que todos a vejam.

Minha mãe sempre foi assim: uma artífice da humildade, virtude que soube cultivar, como ninguém, ao longo dos seus quase 89 anos. Quem a via, imaginava-a frágil, calma, incapaz de agir ou reagir diante da vida. Mas nós, que a conhecíamos tão bem, sabíamos que essa fragilidade se transformava em valentia quando lhe era dado o momento certo de agir.

Foram várias as provas de coragem que minha mãe nos deu, ao longo de todos esses anos, principalmente diante da morte. Quando tudo parecia silenciar, eis que sua voz se fazia ouvir, entoando canções a Deus, que nos agasalhavam o coração e nos enchiam de paz. Sim, era CANTANDO que ela se despedia dos que amava. E foi também cantando que nós a vimos dizer adeus a seu primeiro filho, Ricardo. Naquele triste dia de setembro de 2006, eu tive a prova definitiva de que minha mãe não era de verdade...

Incansável no ato de servir, ninguém lhe deve ter escutado um ‘não’. E foi com mansidão que ela nos ensinou a não temer a vida, a enfrentar com dignidade o que porventura nos fosse colocado na frente. “Os problemas da gente, minha filha, são sempre menores que os dos outros, basta que não olhemos demasiadamente para nós mesmos” - dizia ela.

E esquecendo-se de si mesma, foi passando despercebida pela vida, deixando para os outros os aplausos e as homenagens.

Obrigada, mãe, pelas tantas lições de vida, de coragem, de fé, de sabedoria e de humildade que você nos ensinou. Infelizmente somos obrigados a confessar que por mais que tentemos, jamais conseguiremos imitar o seu exemplo.

Cansamos de vê-la na última fila, a se doar inteiramente por nós.
Hoje o céu está em festa com a sua chegada e tenho certeza de que o melhor lugar da primeira fila é seu, pois não é sempre que chega alguém tão pronta, tão preparada...

Tentaremos cantar na sua despedida, mas não repare se, por algumas vezes, os versos ficarem presos na garganta, misturando-se às nossas lágrimas que não param de cair...
Somos meros aprendizes de sua coragem, tentando ainda lidar com essa coisa estranha, chamada saudade...
Boa viagem, mãe, que Deus a acompanhe!

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Lilian Rocha.

domingo, 2 de abril de 2017

Era Uma Vez Uma Rua


Publicado originalmente o Facebook/Lilian Rocha, em 30 de março de 2017.

Era Uma Vez Uma Rua. 
Por Lilian Rocha.

Assim que desci do táxi, na esquina da praça do palácio, parei diante dele. Um suntuoso prédio de andar, transformado em uma loja de roupas populares, que atende hoje pelo nome de “Center Pálace”. Não resisti e entrei.

Mas não entrei no ‘Center Pálace’. Entrei no meu velho e querido “Cine Pálace”, pra tentar reencontrar algum vestígio do passado e acalmar minha saudade que já começava a doer...
No enorme hall de entrada, onde ficava a bilheteria, hoje repousam dezenas de araras repletas de camisas masculinas, à espera de um comprador. Continuei em frente, fingindo que estava entrando no cinema mais elegante de Aracaju, do meu tempo de adolescência. O único com “ar refrigerado e “cadeiras acolchoadas”, um verdadeiro luxo!

Procurei vestígios das pinturas de Jenner Augusto nas paredes e lá no fundo, busquei o palco e a imensa cortina vermelha, ainda fechada, esperando o filme começar. De repente, eis que as luzes se apagavam e o prefixo musical se fazia ouvir. Nosso coração batia forte. Era o sinal de que o filme ia começar...
E lentamente, a cortina de veludo ia se abrindo, enquanto nossos olhos continuavam aflitos, procurando reconhecer, no escuro, se aquela pessoa que estava chegando atrasada era finalmente aquela por quem tanto estávamos esperando...

De repente, um vendedor se aproximou de mim e perguntou se eu desejava alguma coisa. Fiquei olhando pra ele com o olhar distante, agarrada ainda às minhas lembranças, mas ele insistiu. Inventei que queria alguma camisa de uma cor e um modelo que não existia, só pra que ele desistisse de mim. E ali fiquei por mais alguns minutos, em meio àquele mar de roupas penduradas, tentando encontrar o que há muito já havia deixado de existir...

Desanimada, fechei a cortina das minhas lembranças e saí dali. Novamente na calçada, fui refazendo, instintivamente, o mesmo trajeto que eu costumava fazer, no início da década de 70. Naquele tempo, Aracaju era bem pequenininha e era no centro, mais especificamente nas ruas João Pessoa, Laranjeiras e Itabaianinha, que a gente encontrava tudo o que queria: roupas, sapatos, discos, cinema, ótica, joalheria, banco, salão de beleza, tudo enfim! Era o nosso “shopping”!

Mas a minha rua preferida, sem dúvida, era a João Pessoa. Era a mais chic da cidade! É muito difícil imaginá-la hoje sem o calçadão, mas eu fechei os olhos e vi tudo de novo. Vi os carros circulando normalmente, vindos da praça Fausto Cardoso e junto com os carros, dezenas de antigos estabelecimentos também foram vindo à tona, como num passe de mágica: a “P. Franco”, uma loja enorme de eletrodomésticos, dona da vitrine mais bonita, que fascinava até mesmo quem não era dona de casa como eu; a “Dernier Cri”, a sapataria mais elegante da cidade; a “Casa Schuster”, cujo slogan “difícil de pronunciar, mas fácil de encontrar”, eu nunca me esqueci; o banco "Dantas Freire", a joalheria “Cristal”, mais antiga e mais feia do que a “Safira”, mas com preços mais em conta do que esta; as livrarias “Nascimento” e “Monteiro”, onde a gente comprava o material escolar, (minha preferida era a Monteiro, pois eu encontrava quase todos os livros da lista de uma só vez!); o edifício Mayara, onde ficavam os consultórios dos meus tios dentistas, Afranio e Sylvia; a farmácia “Lyra”, em frente à Igreja São Salvador; o cine “Rio Branco”, o mais antigo e mais aconchegante de todos; a livraria “Regina”, onde meu pai lançou seu primeiro livro, "Meu capim de burro"; a "Alteza Modas", uma enorme loja de calçados, a 'Casa Cristal", cujos balcões de madeira, enormes e antigos me deslumbravam; a “Fotosom”, onde eu levava as fotos pra revelar; a "Tito´s", loja de roupas masculinas; a “Lobrás” (Lojas Brasileiras, antiga "4 e 400") e "Os Gonçalves", uma enorme loja de tecidos. Naquele tempo, comprar roupas prontas era quase um luxo, por isso, quase todas as nossas roupas eram feitas em casa, por alguma costureira contratada. Escolhíamos os modelos pelas revistas de moda (geralmente "Manequim"), comprávamos os tecidos, linhas, feches, elásticos e botões e a costureira se encarregava do resto. Ao fim do dia, lá estavam 3 vestidos, 2 blusas e 2 calças, tudo novinho e igualzinho à revista, pendurado no armário!...

Bem no meio do segundo trecho da rua João Pessoa, entre uma loja e outra, havia uma escada bem alta e estreita que ia dar num salão de beleza, conhecido simplesmente como “o salão de Taís”. Não me lembro do rosto dela, nem sei o que aconteceu com ela, mas me lembro perfeitamente do salão, pois era ali que todo mundo cortava o cabelo. Sempre que passo em frente a essa escada, tenho vontade de subir pra ver o que agora funciona ali...

Na rua Laranjeiras, outras casas igualmente famosas: “O Cantinho da Música”, um cantinho minúsculo e apertado que cheirava a doce, pois vendia discos de um lado e balas, chocolates e pirulitos do outro; “O Gavetão”, uma loja de roupas masculinas toda moderna; a "Relojoaria Fontes”, “A Sugestiva”, minha loja de discos preferida, onde comprei meus primeiros “compactos” (disquinhos pequenos que só tinham uma música de cada lado) e depois minha primeira radiola portátil! E bem na esquina, a imponente agência do Correio, para onde eu me dirigia quase todas as manhãs, para cumprir um ritual que eu adorava: pesar as cartas, comprar e colar os selos e depois sair suspirando, ansiosa pelas respostas que não tardariam a chegar...

A cidade era tão pequena que parecia caber inteira em nossas mãos. Frequentávamos os mesmos lugares e, por isso, quase todos se conheciam.
Com exceção do Correio e de umas poucas lojas, quase nada mais daquele tempo existe. A rua João Pessoa hoje é quase uma estranha pra mim. Não reconheço mais suas lojas, nem seu ar de aristocrata. Virou uma rua comum, repleta de lojas parecidas, que possuem os mesmos fornecedores e vendem os mesmos produtos.
Foram-se os cinemas de rua e, com eles, os saudosos cavaletes de madeira onde se colocavam cartazes de cinema, para anunciar os filmes em cartaz (e, aos domingos, a farmácia que estava de plantão)...
Farmácias foram vendidas, muitas lojas foram engolidas por outras e multiplicaram-se as opções de lazer, quase todas agora bem longe dali.

Minha querida rua perdeu a identidade. Mas pra mim, ela vai continuar sempre a mesma, cenário de tantas lembranças boas, por onde de vez em quando minha saudade insiste em passear...

(Lilian Rocha - 30.3.17).

Imagem extraída do blog de Eudo Robson: aracajusaudade.blogspot.com.br

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Lilian Rocha.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O Pequeno Notável, por Lilian Rocha.


Publicado originalmente no Facebook/Lilian Rocha, em 19/11/2016.

O Pequeno Notável.
Por Lilian Rocha.

Adoro o "acaso", justamente porque sei que ele não existe. O que existe, sim, é uma sintonia misteriosa que atrai as pessoas, mesmo aquelas que a gente não conhece. Mas nada, absolutamente nada é por acaso...

Anteontem, me chegou às mãos, "por acaso", um livrinho infantil, chamado "Letras de A a Z". Poderia ser um livro como outro qualquer, não fosse pelo autor. Chamava-se Danilo Crescêncio e tinha apenas... 6 anos!!
Curiosa, abri o livro e imediatamente o devorei. E foi tão saboroso que fiquei com vontade de que mais pessoas o "experimentassem", porque, ao contrário das comidas, um livro dá pra "se comer" várias vezes, por várias pessoas diferentes...

O livro conta a história de cada letra do alfabeto, quem são elas, onde vivem, o que elas gostam de comer e com que gostam de brincar. O "F", por exemplo, sabe usar a "faca", seu animal preferido é a "foca", ele tem "filho" e "fim". O "M" gosta de "milho" e "macarrão", pula feito "mola" e seu animal preferido é o "macaco". Já o "Q" prefere comer "queijo" e "quiabo", mora no "quadro" e sabe contar até "quatro"...
E por aí vai a imaginação de Danilo, esse pequeno prodígio, brincando com cada letra do alfabeto e associando mais e mais palavras a cada uma delas. Além das historinhas, foi ele quem fez todas as ilustrações!

Há muito que não vejo um livro destinado a essa faixa etária tão criativo! E o mais fascinante, escrito por uma criança de apenas 6 anos!! É um livro que pode ser adotado tranquilamente nas escolas, nas turmas do Infantil II. Já imaginaram? Crianças de 5 ou 6 anos aprendendo a ler com um livro escrito por uma criança da sua idade?! E da mesma cidade? Isso é FANTÁSTICO!!

Não sei se é porque adoro crianças ou mais ainda, porque adoro crianças cheias de imaginação, o fato é que me apaixonei por Danilo e resolvi me tornar sua "madrinha literária". Para manter viva sua imaginação e estimular essa facilidade que ele tem de inventar histórias. E sobretudo, para divulgar o seu talento, pois não é justo que isso fique escondido.
Por isso, hoje o convidei para participar, junto comigo, do 5º Encontro de Escritores Sergipanos que aconteceu no Museu da Gente Sergipana. Com adesivo de "escritor" no peito, Danilo mostrou seu livro e contou como o escreveu. E de quebra, ainda deu autógrafos e arrancou aplausos de todos!

Sim, adoro o "acaso". Justamente porque sei que nada é por acaso...

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Lilian Rocha.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Lilian Rocha, em Bogotá, na Colômbia

Parabéns a amiga Lilian Rocha, que encontra-se em Bogotá, 
na Colômbia, onde foi convidada para dar uma palestra para 
um grupo de  professores sobre seu trabalho literário, 
cujo tema é "Os desafios de ensinar diferente".
+ informação no link abaixo: https://www.facebook.com/cevaro.navi/posts/10207354097123799

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Lilian Rocha lança hoje mais um livro paradidático

Foto: Ascom.

Infonet > Cultura > Noticias > 14/10/2015.

Lilian Rocha lança hoje mais um livro paradidático.

O Consultório do Dr. Eufemismo será lançado hoje em Aracaju.

Depois do grande sucesso de “Para sempre seu... ...da sempre sua”, romance baseado nas cartas de amor trocadas pelos seus pais e lançado em janeiro deste ano, Lilian Rocha retorna ao cenário literário com mais um livro paradidático de português, o terceiro da sua coleção “Língua Solta”, depois de “Rasgando o Verbo” e “A Conquista da Oração”. O lançamento será nesta quarta-feira,14, a partir das 19h, na Galeria de Arte da Biblioteca Pública Epifânio Dórea. Com a presença do próprio “Dr. Eufemismo”!

Batizado de “O Consultório do Dr. Eufemismo”, o novo livro aborda, dessa vez, o universo das Figuras de Linguagem e promete acabar de vez com todas as dúvidas daqueles alunos que costumam confundir todas as figuras. Para isso, Lilian Rocha transforma as Figuras de Linguagem em personagens, ilustrados por Valter Schueler, e através de uma história bem divertida, apresenta as principais figuras de linguagem, tais como: Metáfora, Paradoxo, Eufemismo, Pleonasmo e tantas outras.

O “Dr. Eufemismo”, personagem principal, é especialista em Linguagem Figurada e querido por todos, graças à sua maneira extremamente calma de tratar seus pacientes. Como todo “eufemismo”, ele detesta ouvir expressões fortes da língua e vive tentando “amenizar” o sentido das palavras. Ele é casado com a D. Hipérbole, que é o exagero em pessoa, e tem dois filhos, o Pleonasmo e a Ironia.

Essa maneira toda especial de ensinar diferente vem desde o tempo em que Lilian Rocha era professora de Português do Colégio Arquidiocesano. “Quando eu percebi que os alunos não se interessavam muito por essa disciplina, comecei a inventar peças de teatro, usando como personagens os termos da gramática. Foi um sucesso, pois o que antes parecia tão complexo e abstrato, ganhou vida e a aprendizagem se deu de maneira bem divertida.” – explica a escritora.

Fonte: Assessoria de Imprensa.

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br/cultura

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Isso Não se Ensina.

Isso não se ensina.
Por Lilian Rocha*

Sou do tempo da ditadura. Tempo em que éramos obrigados a desfilar em 7 de Setembro, a participar do hasteamento da bandeira todas as quintas-feiras, de pé, debaixo de um sol causticante de verão, e a assistir às aulas chatíssimas de OSPB (Organização Social e Política Brasileira) e EMC (Educação Moral e Cívica). Até mesmo nossos cadernos, da marca “Companheiro”, traziam na contracapa a letra do Hino Nacional. Enfim, tudo era feito de modo a estimular na gente o amor pela nossa Pátria.

Só que comigo se dava exatamente o contrário. Quanto mais eu era obrigada a marchar, usando gravatas e luvas naquele sol quente, menos amor eu sentia pelo Brasil. Porque ‘patriotismo’, pra mim, era sinônimo, unicamente, de obrigação, desconforto, calor, tonturas e nada mais.

O Brasil também me lembrava Geografia e Geografia, por sua vez, me lembrava uma professora terrível que eu tive. Graças a ela, passei muitas noites em claro, tentando decorar os afluentes da margem esquerda e direita do Rio Amazonas, bem como o nome de todas as serras, bacias, picos, portos e aeroportos do país. Essa professora foi minha durante 5 longos anos e tudo o que eu não consegui aprender de Geografia eu devo, exclusivamente, a ela.

Por isso, nunca me considerei uma filha orgulhosa da minha pátria e confesso que nunca alimentei muito essa história de patriotismo. Não acho que a gente deva amar um lugar só porque nasceu ali. Isso pra mim nunca foi suficiente. É necessário mais. É necessário que o lugar desperte na gente o orgulho de pertencer a ele.

Patriotismo é algo que todo mundo tem, adormecido dentro de si mesmo. Que pode ser despertado subitamente, semelhante àquela emoção espontânea que sentíamos, sempre que víamos Ayrton Senna dar a volta da vitória, empunhando numa das mãos uma bandeirinha de papel, ao som daquela música que virou símbolo dele. Naquele momento, o Brasil era um só. Independente de gostarmos ou não daquele esporte, sentíamos orgulho dele. Orgulho por saber que aquele campeão era um dos nossos. E orgulho do nosso país por ter produzido um filho tão notável...
Patriotismo é aquela emoção que dá quando a gente está longe do país e de repente ouve tocar o nosso hino... O coração dispara, os olhos ficam cheios d´água e lá na garganta aparece aquele nó esquisito, que rouba o pensamento da gente e deixa a gente sem fala...

É muito mais que saudade. É se ‘reconhecer’ parte integrante de um lugar. E isso não se ensina, se desperta.

Foi o que aconteceu ontem comigo, quando entrei para conhecer o ‘Museu da Gente Sergipana’. Sempre gostei de museus, de parar em cada peça exposta, sem pressa, e ler todas aquelas explicações, para depois repeti-las para alguém, com o maior entusiasmo. Adoro ver roupas e objetos pessoais de alguém importante, de ouvir gravações antigas, de ver reconstituído, bem ali na minha frente, o mesmo ambiente que alguém viveu. Minha imaginação corre solta...

De um tempo pra cá, os museus ganharam uma nova concepção e se tornaram mais interativos. Como o Museu da Língua Portuguesa, em SP, de quem me considero a maior fã. Construído numa antiga estação de trem, bem no centro da cidade, o museu tem três andares e mostra a língua portuguesa das maneiras mais inusitadas, menos através de livros. Isso seria muito óbvio e a proposta do museu é exatamente outra: inovação e muita, muita criatividade...

É meu passeio obrigatório sempre que vou a SP. No lugar onde as pessoas se sentavam para esperar o trem, hoje é possível sentar e assistir a história da nossa língua passar pela nossa frente, feito um trem em movimento, mostrando como o português é falado nas mais diversas situações: na música, no futebol, na culinária, nas brincadeiras...
Por isso, qual não foi minha alegria ao saber que o nosso museu daqui seguia a mesma concepção do de lá! Resolvi ir até lá para experimentar fazer turismo, mesmo sem ser turista...

Logo na entrada vi uma escultura de Zé Peixe, um dos mais famosos personagens sergipanos, em sua pose preferida, pronto pra mergulhar no Rio Sergipe e fazer o que sempre fez a sua vida toda: guiar as embarcações. Fiquei feliz pela justa homenagem. Aquele homem pequenino e simples, que só vivia descalço e que tantas vezes vi atravessar a rua para nadar naquele rio, solitariamente, agora virara peça de museu e sua história seria contada e recontada, preservada para sempre.

Depois de Zé Peixe, outra surpresa me aguardava lá dentro: o carrossel de Tobias. Vi os turistas lendo atentamente, procurando entender sua história, mas só quem foi criança em Aracaju, na década de 60, sabe o que significava o carrossel de Tobias. Em vez de ouvir as explicações dadas aos turistas, perguntei baixinho ao ouvido da moça onde conseguiram achar os cavalinhos e o boneco Tobias, revelando pra ela uma intimidade com aquele brinquedo que ela jamais seria capaz de entender...
E enquanto o carrossel girava, muitas lembranças da minha infância também começaram a passar por mim na mesma velocidade, como se estivessem ali todo o tempo, esperando somente que alguém ligasse um botão... Senti uma coisa estranha dentro de mim, que fez meus olhos se encherem d´água...

E assim foi durante toda a visita. Em cada salão, uma surpresa me aguardava, trazendo de volta pedaços da minha infância, brincadeiras que também foram minhas, personagens que fizeram parte da minha história... Cheguei até a entrar num barquinho e percorrer o agreste sergipano... sem dúvida, a aula de geografia mais prazerosa de toda a minha vida!

E à medida que me reconhecia naquele jeito típico de falar, de comer, de me relacionar com as pessoas, fui sentindo a mesma emoção que dá quando estamos longe do país e ouvimos alguém falar a nossa língua...

De súbito, um sentimento de orgulho tomou conta de mim. Orgulho de fazer parte desse país tão rico na diversidade e tão alegre na maneira de contar suas histórias. Orgulho dessa hospitalidade nordestina, pura e genuína, dessa intimidade que temos no tratar alguém, como se todos fizessem parte da mesma família. Orgulho desse estado pequenininho, tão jovem ainda de histórias para contar, mas que soube se vestir com suas melhores roupas para mostrar aos visitantes um pouco da sua alma e do seu espírito.

Orgulho por me “reconhecer” parte daquela história e daquela gente.
Sim, isso não se ensina, se desperta...

*Post de Lilian Rocha, em 10.01.14, na sua página do Facebook.
Foto e texto reproduzidos do Facebook/Fan Page/Lilian Rocha.

Os Desmaios de Emilinha.

"Ontem tive um grande prazer ao ver esta bela foto aqui neste grupo (MTéSERGIPE) e a quantidade de lembranças que ela trouxe à tona. Como essa imagem também me traz muitas recordações, tomei a liberdade de 'roubá-la' para ilustrar, também, as minhas lembranças. Agora sim, lembranças e foto estão dentro da mesma saudade..." (Lilian Rocha).
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 Os Desmaios de Emilinha.
Por Lilian Rocha.

“Educandário Brasília”. Era esse o nome da minha primeira escola. Nome comprido, que a gente tinha que escrever diariamente no caderno, antes de todos os deveres. Com aspas e tudo. E depois das aspas, vinha uma vírgula e a data por extenso.
Minha escola ficava na Rua da Frente, bem pertinho da Capitania dos Portos e era dirigida por quatro senhoras, também professoras: D. Alaíde, D. Helena, D. Mili e D. Iolanda.
Talvez elas nem fossem tão senhoras assim naquele tempo, mas quando se tem 7 anos, qualquer pessoa com mais de 15 já é considerada uma senhora. Ainda mais quando se tem cabelo azul! Isso mesmo, cabelo azul! Duas delas, D. Mili e D. Iolanda, tinham cabelos azuis e isso, pra mim, era um dos mistérios mais indecifráveis do universo, pois quando se tem essa idade, a gente nem imagina que existe uma coisa chamada ‘tintura para cabelos’...

Minha farda era uma saia vermelha e branca, plissada, com suspensórios que se cruzavam atrás. E abotoando a blusa branca, uma gravatinha vermelha, feita do mesmo tecido da saia.
Estudávamos pela manhã e à tarde voltávamos para ‘fazer banca’, expressão genuinamente sergipana, que até hoje não sei bem o que significa, etimologicamente falando. Mas sei muito bem o que significava naquele tempo.
‘Fazer banca’ significava almoçar e voltar para o colégio 1 e meia da tarde para fazer os deveres e estudar as lições para o outro dia. Uma solução prática que as mães encontraram para deixar seus filhos em lugar seguro, enquanto trabalhavam. E que até hoje é usada, sob pseudônimos modernos de ‘aula de reforço’, ou ‘turno integral’.
Fazer banca significava ler em voz alta e em grupo uma mesma leitura duas ou três vezes e morrer de vergonha quando a professora passava pela minha fila e me surpreendia cochilando, diante daquela história sem graça, que todo mundo já sabia o final. Nessa hora, ela levantava a voz e eu tomava um susto danado...
A única coisa boa da banca era ganhar uma goiaba todos os dias de Kátia, minha colega que morava numa casa de muro enorme, todo rosa. Até hoje, quando como uma goiaba, sinto o gosto do sorriso amável de Kátia.

Estudei em quase todas as salas e experimentei todas as cores de plástico com as quais forrávamos os livros e cadernos: vermelho, no 1º ano, amarelo no 2º, azul no 3º e verde no quarto. Mudar para outra ‘cor de plástico’, portanto, era tão importante quanto ser promovido num exame de faixa...
Adorava cópias e ditados, mas detestava questões e problemas. Especialmente aqueles que me pediam pra descobrir qual a idade do vovô, se ele tinha o triplo da idade de Joãozinho, que por sua vez, tinha a metade da idade da titia. Que mania mais feia tinha a minha professora, querendo saber a idade de todo mundo!

Na hora do recreio, meus olhos não se desgrudavam da lancheira de Suzana Barreto, pois era a única que trazia, não a tradicional garrafinha plástica com ki-suco, mas uma garrafinha verde, de ‘Guaraná Champagne Antárctica’. E diante dos olhos invejosos de toda aquela plateia, Suzana tirava um abridor da pasta e com uma habilidade impressionante, livrava-se da tampinha. O barulhinho da tampa se abrindo, deixando o gás escapar, era música para meus ouvidos!
Pode parecer uma bobagem, mas refrigerante, na década de 60, era privilégio de poucos! Era uma coisa bastante cara, que só era encontrada em poucas festas de aniversário. O que era servido nas festas daquele tempo era ponche, um suco de uva com pedacinhos de maçã, que me dava um trabalho danado pra beber, pois nunca gostei de maçã...

Também estudei com Martha Bragança, dona dos deveres mais bonitos do colégio. Além de ser a melhor aluna em português e de ter uma letra linda, Marthinha também era muito caprichosa e gostava de fazer, com lápis de cor, todos os traços, acentos e sinais de pontuação de cada dever, coisa que eu achava tão linda que logo tratei de imitar. Até hoje, quando me vê, ela me dá o mesmo sorriso carinhoso de sempre.

Mas afora o guaraná de Suzana e os deveres coloridos de Marthinha, havia uma outra coisa que me fascinava: eram os desmaios de Emilinha.
Emilinha era um pouco mais velha que eu e estudava na turma de Denise, minha irmã. Mas todo mundo conhecia Emilinha. Ou, pelo menos, os desmaios dela, porque quando a gente menos esperava, alguém entrava correndo pra avisar: “Emilinha desmaiou!”
Eu não sei por que ela desmaiava tanto e nem podia imaginar que aquilo pudesse ser uma coisa séria, mas a verdade é que eu achava linda aquela cena e queria porque queria desmaiar igual a ela! E muito melhor do que o desmaio era o que vinha depois. Aquele abrir de olhos sonolento e esquecido, e de súbito, aquela clássica pergunta que eu tanto gostava de ouvir: ‘O que aconteceu?’
Por isso, eu treinava em casa. Afastava um pouco a cama do meu quarto e tentava cair como ela. Suavemente... Mas um desmaio fingido nunca é a mesma coisa. Todo mundo sabe que é fingido e ninguém corre pra ajudar.
Mas com Emilinha era diferente. Ela tinha ‘classe’ para desmaiar.

Muitos e muitos anos depois, eu estava no banco, tentando pagar alguma coisa muito urgente. Era dia de pagamento, o banco estava cheio, cada fila maior que a outra. Não tinham inventado ainda essa maravilha chamada ‘caixa eletrônico’, nem tampouco a lei dos 15 minutos. Todo mortal tinha que enfrentar fila, fosse ele velho ou novo.
Foi aí que me lembrei de Emilinha...
Me encostei na parede e fui revirando os olhos, devagarzinho, como se estivesse perdendo os sentidos. Depois, de olhos fechados, respirei fundo e passei as costas da mão pela testa.
- A senhora está passando mal? – perguntou alguém.
Revirei ainda mais os olhos e fui me arriando pela parede até chegar ao chão. Imediatamente alguém me trouxe um copo de água, outro começou a me abanar, enquanto outros tentavam me reanimar:
- Calma, vai passar, respire fundo...
- Deve ser pressão baixa, a senhora comeu alguma coisa?
- É melhor deixar ela passar na frente...
Ao ouvir aquilo, balancei a cabeça e agradeci, baixinho:
- Não precisa, obrigada, eu já estou melhor, dá pra esperar...
Mas todos que estavam na minha frente reagiram prontamente:
- De jeito nenhum. A senhora não está em condições. Pode passar na frente.
Diante de tantas gentilezas, não tive outra alternativa, senão pagar a conta e sair, agradecendo a todos...
Principalmente... à Emilinha!

(Lilian Rocha - 29.11.12)