Mostrando postagens com marcador - TEREZINHA OLIVA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador - TEREZINHA OLIVA. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Sessão solene comemorativa dos 106 anos de fundação do IHGSE.


Publicado originalmente no site IHGSE, em 01 de fevereiro de 2019

Discurso proferido pela Profa. Dra. Terezinha

Oradora do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, na sessão solene comemorativa dos 106 anos de fundação do IHGSE.

Senhoras e Senhores:

A “chamada” com que se iniciou esta solenidade deu o tom da celebração que hoje nos reúne. Comemoramos o centésimo sexto aniversário do IHGSE chamando à imortalidade, nos nossos corações e mentes, aqueles que nos legaram o patrimônio em torno do qual se faz o Sodalício. É lembrando os nossos “pais fundadores” e os que consolidaram esta Casa que estabeleceremos a sua memória e conheceremos melhor a instituição que hoje temos, pela trajetória que a fez superar os cem anos de atividade e creditar-se para o futuro

Não é pequeno esse patrimônio. O Instituto Histórico e Geográfico construiu uma memória e uma identidade para Sergipe. Mantém uma Biblioteca com mais de 45.000 volumes, dos quais cerca de 10.000 sobre Sergipe; uma Hemeroteca com mais de mil volumes de  jornais, a maioria deles digitalizada; um Arquivo com documentos particulares de intelectuais sergipanos, com inventários, mais de mil cartas e centenas de fotografias; uma Pinacoteca surpreendente, que guarda obras de artistas locais e de artistas brasileiros; um Museu precursor da história da Museologia em Sergipe; esta sede imponente, prestes a completar oitenta anos e sua Revista, de qualidade reconhecida, o mais antigo e certamente o mais conceituado periódico em circulação no Estado, o maior veículo de divulgação do conhecimento histórico entre nós.

Se nos ativermos às obras publicadas sobre o IHGSE : A escrita da História na Casa de Sergipe – 1913-1999, de Itamar Freitas; História da Casa de Sergipe, de Ibarê Dantas e História, Memória e Comemorações na Casa de Sergipe, organizada por Samuel Albuquerque, Magno Francisco Santos e Ane Luise Mecenas Santos – sem falar no conjunto de Monografias e de artigos sobre o Instituto e os seus intelectuais –  poderemos nos apropriar do conhecimento que fundamenta as razões da grandeza e da importância deste Sodalício. De modo geral, essas obras mostram uma trajetória difícil, por vezes marcada por períodos de declínio ou de crise acentuada, mas uma trajetória ininterrupta, numa instituição capaz de manter a sua Revista e o seu acervo, ainda mesmo quando não tinha sede própria, peregrinando por quase trinta anos em diferentes endereços. Por outro lado, ela abrigou grandes figuras humanas, capazes de negociar, continuamente, a sobrevivência do Instituto, em interlocução com o poder público e com setores da sociedade civil, sempre atentas às circunstâncias locais e às vicissitudes da política, que conseguiram, no geral, fazer o IHGSE escapar à subserviência e à manipulação daqueles que atenderam aos seus clamores, em momentos específicos.

Ibarê Dantas, na História da Casa de Sergipe, além de caracterizar as etapas dessa História centenária, enfocou três “políticas” definidoras da trajetória que nos legou o Instituto que hoje temos: a política de aproximação com os governantes como forma de sobrevivência; a política orientadora de decisões do Estado, quando o Instituto se comportou como órgão técnico e cultural, acima dos partidos e facções; e a política voltada à construção da cidadania, pela defesa de valores humanísticos, pelo culto ao civismo e pelo acolhimento a manifestações da vida social e cultural de Sergipe.  Assim, o Instituto Histórico e Geográfico se estabeleceu como casa de memória e de produção do saber e, na avaliação do citado historiador, contribuiu em seu meio, para difundir uma “visão secularizada e crítica da sociedade”.

Grandes causas encontraram acolhimento aqui, como no passado, a da Alfabetização e mais recentemente, a da Democratização da sociedade. Neste auditório aconteceram eventos dos mais significativos para os sergipanos: nele desfilaram, em sessões memoráveis, várias das nossas instituições culturais e educacionais. O Instituto teve no seu quadro de sócios, os maiores intelectuais de Sergipe e manteve a hegemonia na produção intelectual local até o aparecimento da Universidade Federal e a posterior multiplicação de Cursos Superiores. A partir da década de setenta enfrentou um longo período de declínio e de crise, mas nunca fechou as portas e resistiu.

A partir de 2003, com o advento dos “Tempos de Reforma e de Modernização”, o Instituto recuperou o seu papel aglutinador, trazendo de volta o movimento intelectual particularmente em torno da História, com a participação de Universidades e da Associação Nacional de História ANPUH/Sergipe. Passou a realizar o Congresso Sergipano de História (2008) e outros eventos que povoaram de jovens estudantes os salões desta Casa. Historiadores também são maioria entre os autores dos artigos da Revista do IHGSE que ganhou mais densidade e regularizou sua periodicidade. Diferente de outros Institutos Históricos que ainda se debatem em torno da orientação a dar às suas Revistas, o nosso veículo se consolidou como publicação científica bem avaliada pela CAPES, embora continue também a registrar os eventos e documentos do próprio Instituto.

Com vida nova, o Instituto comemorou o seu centenário, em 2012 e agora se prepara para o desafio de comemorar o Bicentenário da Emancipação Política de Sergipe, em 2020. Para isso, precisamos de mais congraçamento e empenho dos sócios e de toda a sociedade. O Instituto a quem, pela “lei do menor esforço” chamamos de Instituto Histórico, é na verdade Histórico e Geográfico. Este caráter foi assim definido no discurso do Fundador, Florentino Teles de Menezes, ao dizer, na sessão inaugural, que “a História é a escada por onde sobem os povos”, mas o estudo da Geografia “é uma necessidade impreterível”, pois “já nas relações comerciais, já na troca de pensamentos, os homens cada vez mais unem-se, razão porque o seu estudo torna-se indispensável”. (Discurso, RIHGSE, n.1, 1913)

O primeiro Estatuto do Sodalício destinava a uma Comissão de Geografia as tarefas de : obter dados sobre o movimento de Sergipe no tocante à propriedade, trabalho, renda e desenvolvimento moral desde a sua formação; obter documentos descritos das localidades do Estado; obter documentos que precisem os limites tanto do Estado como de município a município; obter todos os mapas , cartas geográficas e plantas de edifícios do Estado e proceder a estudos para se levantar um mapa completo de Sergipe. 

De fato, desde o início os sócios do Instituto abraçaram a questão dos limites entre Sergipe e Bahia. Questão antiga, que levou os sergipanos aos tribunais, tentando reaver os chamados “direitos históricos” a uma fatia do território perdida. Sócios do IHGSE, Ivo do Prado com “A Capitania de Sergipe e suas Ouvidorias” e Carvalho Lima Júnior, com a “História dos limites entre Sergipe e Bahia”, defenderam nestas obras de valor excepcional a legitimidade das pretensões de Sergipe, enquanto a Revista do Instituto dava guarida a valiosos artigos sobre o tema.

Estudos sobre o Rio Sergipe, sobre o Baixo São Francisco ou sobre as secas, também foram preocupações do Instituto, enquanto o estudo dos municípios sergipanos chegou a ser um projeto da Casa. Na década de quarenta, a Geografia esteve em evidência. Em 1940, o Presidente do Instituto, Hunald Santaflor Cardoso, participou do IX Congresso de Geografia, em Florianópolis; já em 1942, o número 16 da Revista trazia Felte Bezerra divulgando a Doutrina Possibilista na Geografia; Câmara Cascudo escrevendo sobre A Geografia de Sergipe no domínio holandês e Carvalho Neto abordando as Causas e Consequências da Seca. No número 17, Felte Bezerra publicaria artigo sobre Fronteiras.

Mas foi de José Calasans, que assumiu a Presidência do Instituto aos trinta anos, o projeto de dar corpo ao caráter de Instituto Histórico e Geográfico, desejando marcar a sua gestão com a realização de um ambicioso Congresso de História e Geografia de Sergipe, em 1943. Seriam temas da Geografia no Congresso: 2 – Fronteiras de Sergipe na Colônia e no Império; 23- Indústria sergipana e seu atual desenvolvimento; 24 – Influência do Porto de Aracaju na vida econômica do Estado; 25 – Nomenclatura Geográfica de Sergipe; 26 – A Geografia das Comunicações de Sergipe; 27 – Os rios na economia de Sergipe; 29 – Vida municipal na formação e evolução dos municípios; 30- Bibliografia histórica e geográfica de Sergipe; 31 – Monografias municipais.

Suspenso pelo próprio Presidente, que não encontrou apoios no clima de guerra então vigente, Calasans também não conseguiria realizar o Encontro Regional de História e Geografia, por ele proposto em 1946, mas deixou o testemunho da sua preocupação e do seu entusiasmo, consagrados no estudo clássico sobre a Mudança da Capital.

Felte Bezerra, outro Presidente do Sodalício, foi o geógrafo do Instituto e essa sua atuação está certamente a merecer um estudo. Integrante da Comissão de Geografia, além do que aqui já foi reportado, escreveu no número 19 da Revista sobre “Origens do Rio Real”, uma amostra clara dos seus conhecimentos na área. Concorreu à cátedra no Atheneu com tese intitulada “A Terra” e fundou o Centro Cultural de Sergipe que terminaria realizando reuniões no IHGSE, onde seriam abordados em palestras temas como “Doutrina Possibilista na Geografia Humana” e “Novas Diretrizes da Geografia Humana”. Frequentando Congressos de Geografia e escrevendo em várias Revistas, Felte lançou, em 1952, o livro “Investigações Histórico-Geográficas de Sergipe” em que faz a assimilação dos conhecimentos geográficos à interpretação da História da Colonização de Sergipe. Reeditado, o livro integra a Coleção Casa de Sergipe, vitorioso projeto do Centenário deste Instituto.

Não fossem os limites de um discurso lembraríamos ainda as atuações de Bonífácio Fortes, Professor de Geografia Humana da Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe e Presidente do Instituto na década de sessenta, com seus estudos sobre Aracaju, enfocando a paisagem humana e a importância dos fatores políticos e geográficos na mudança da capital e  ainda de Fernando Porto, Vice-Presidente do Sodalício na gestão Thetis Nunes, e Professor do Departamento de Geografia da UFS, com os seus antológicos estudos sobre Aracaju.

Fato é que o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe tem motivos de sobra para atualizar e ampliar no seu quadro de sócios e nas suas Comissões a presença de geógrafos. Esperamos que eles venham e serão muito bem-vindos, como o são hoje os novos confrades empossados, sócios efetivos e sócio correspondente, a quem saudamos, na certeza de que vêm somar esforços, às vésperas das comemorações do Bicentenário da Emancipação Política de Sergipe.

Convocamos desde já a todos os sócios e amigos do IHGSE: usemos o Bicentenário como mote para uma aproximação maior da Casa de Sergipe, fortalecendo-a, ajudando-a a superar as dificuldades que a afetam na atual conjuntura e garantindo que as mulheres e os homens do presente honram o legado que receberam e imortalizam num Instituto Histórico e Geográfico pujante, a memória dos fundadores.

Parabéns IHGSE! 

Texto e imagem reproduzidos do site: ihgse.org.br

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Terezinha Oliva, honra e mérito

Foto reproduzida do Arquivo Portal Infonet.
Postada por Isto é SERGIPE, para ilustrar artigo.

Artigo publicado originalmente no site do Portal da UFS, em 08 de junho de 2016.
  
Terezinha Oliva, honra e mérito
Por Beatriz e Ibarê Dantas, professores eméritos da UFS.

A frase em epígrafe, atribuída a Aristóteles, se ajusta muito bem às homenagens que a Assembleia Legislativa de Sergipe presta à professora Terezinha Alves de Oliva, ao atribuir-lhe a Medalha do Mérito Educacional “Manoel José Bomfim”.

A riachãoense que, ainda criança de poucos anos, chegou a Aracaju nos anos 50, integrando uma família numerosa, construiu uma bem-sucedida carreira e firmou-se como uma profissional das mais destacadas de nossa intelectualidade pela atuação como professora e agente cultural.

Depois de desempenho apreciável nos cursos básicos e no acadêmico, formou-se em História em 1971. Três anos depois ingressava como docente na recém-instalada Universidade Federal de Sergipe (UFS) que engatinhava em busca de sua consolidação no campo do ensino, da pesquisa e da extensão.

Motivada, muito dedicada aos estudos, Terezinha empenhou-se em ampliar seus horizontes e sua qualificação na academia. Para tanto, cursou o Mestrado em História na Universidade Federal de Pernambuco, cuja dissertação transformou-se no livro Impasses do Federalismo Brasileiro: Sergipe e a revolta de Fausto Cardoso (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985) com recente reedição pelo IHGSE/UFS. Completando sua formação acadêmica, fez o Doutorado em Geociências, na Universidade Estadual Paulista (Rio Claro), em convênio com o Mestrado de Geografia da UFS, estudando o Pensamento Geográfico em Manoel Bomfim.

Seus trabalhos pautados em escrita límpida, sem rebuscamento, mas com harmonia e beleza, parecem até fruto da influência do pai, João Oliva, jornalista de bom estilo. É possível também que sua participação na Academia Sergipana de Letras dos Jovens Estudantes, movimento literário criado pela professora e escritora Carmelita Pinto Fontes, tenha contribuído para lapidar seu talento na expressão dos textos e das falas, revelados em diversos ambientes, entre os quais se destaca o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, do qual é oradora oficial.

Como mestra, pela seriedade com que desenvolvia seu trabalho e pela argúcia e competência na arte de lidar com os alunos, conquistou respeito dos seus pares já consagrados, tornando-se querida e muito reconhecida. Sem dogmatismo teórico, mas com disciplina e rigor metodológico, orientou grande número de graduandos em História em monografias de conclusão de curso e dissertações de mestrado, os quais se sobressaíram pela pertinência das sugestões temáticas, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre a história sergipana. Sob sua orientação, textos instigantes e bem construídos têm sido produzidos e, com seu incentivo, número significativo de ex-alunos tem feito carreira acadêmica em Sergipe ou em universidades de outros estados, atestando seu importante papel na formação de professores e historiadores.

Além de sua presença marcante no ensino, devem ser lembradas suas ações na área cultural, com enfoque no setor de documentação e patrimônio. Na década de 70, ainda bastante jovem, Terezinha tornou-se dirigente de importantes instituições como o Arquivo Público do Estado de Sergipe e o Departamento de Cultura e Patrimônio Histórico (DCPH), órgão que à época integrava a Secretaria de Educação e desenvolvia a política cultural no âmbito estadual. Entre 2009 e 2014, dirigiu a IV Superintendência do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) sediada em Sergipe e, em sua gestão, concluiu-se o processo de elevação da Praça de São Cristóvão a Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Por cinco anos (2004-2009) foi diretora do Museu do Homem Sergipano, vinculado à Universidade Federal de Sergipe, ocupou a chefia do Departamento de História e do Programa de Documentação e Pesquisa Histórica (PDPH), além de atuar em vários conselhos. Por onde passou, deixou a marca da seriedade e do compromisso com a coisa pública e desenvolveu trabalhos inovadores.

Seu desempenho na direção de órgãos públicos vinculados à área cultural e seu permanente interesse pela preservação da documentação histórica atestam sua sensibilidade e sua preocupação com a memória de nossa gente. Moldada desde a juventude no contato com os documentos, quer através do Projeto de Levantamento de Fontes Primárias para a História de Sergipe, quer no arranjo dos acervos documentais do Arquivo Público ou do Cultart/UFS, a historiadora segue os ensinamentos do velho mestre Silvério Fontes, com quem aprendeu a transitar entre os manuscritos dos arquivos e as abstrações da Teoria da História.

Nesse curto espaço, não dá para discorrer sobre todos os aspectos do itinerário intelectual de Terezinha Oliva, já longo e fecundo, mas ainda inconcluso e do qual muito se espera. No ensejo dessa justa homenagem, como colegas, amigos e admiradores, almejamos-lhe saúde e muitos anos de vida para continuar enriquecendo o cenário cultural, honrando sua querida Riachão do Dantas, sua família e os sergipanos, fazendo-se cada vez mais merecedora do reconhecimento de todos.

Texto reproduzido do site: ufs.br/conteudo/20094-terezinha-oliva

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Entrevista com a historiadora Terezinha Oliva

Foto: arquivo Infonet.

Publicação originária do blog VICISSITUDES, de 25/06/2011.

Entrevista com a historiadora Terezinha Oliva.

Fale-nos sobre sua origem e sua formação social.

Sou sergipana de Riachão do Dantas. Na minha origem estão pequenos proprietários rurais de prole numerosa e rígida formação católica. Dos meus avós, apenas o avô paterno sabia ler e escrever e chegou a ser o Coletor Federal no município. Mas a avó materna foi grande comerciante e enviou minha Mãe, filha única, para estudar no Colégio Nossa Senhora da Conceição da Capela. Já o meu Pai, até adulto, tinha apenas o Curso Primário, embora fosse apontado como “homem de letras”; já na década de quarenta, enviava colaborações para jornais de Aracaju. Em 1956 mudou-se para esta cidade como funcionário público federal (no IBGE) e começou a atuar no jornalismo. Aqui fez Madureza (correspondente ao Supletivo), estudou na Escola de Contabilidade e mais tarde se formou em Direito pela UFS.
Sou a primeira filha entre dez irmãos. Meu avô materno me ensinou o alfabeto e aos quatro anos entrei na escola. Embora 80% da população do município de Riachão não fosse alfabetizada, eu tive a sorte de aprender a ler ainda na minha primeira escola, de modo que ao vir para Aracaju estudei no Jardim de Infância Augusto Maynard, mas um ano depois fui para o Colégio Patrocínio São José, onde as professoras, percebendo que eu já lia com fluência, me transferiram do Pré-Primário para o Primeiro Ano.
A política violenta, polarizada pelos embates entre PSD e UDN e a falta de perspectivas de futuro, provocaram a decisão dos meus pais de virem para Aracaju. Riachão era, em meados dos anos cinqüenta, um município agrário onde predominava a grande propriedade, castigado pelos efeitos da “indústria da seca”, marcado pela pobreza, pelo desemprego e pela emigração; esta situação era agravada pelo declínio completo do pequeno comércio local, sob o influxo da rodovia e da atração exercida pelos centros regionais de Lagarto e Tobias Barreto. A pequena cidade tinha um modo de vida bastante rural, o que se agravou quando as disputas políticas motivaram o corte da luz elétrica e o abandono das praças e ruas.
Aracaju era um mundo novo. Não mais o casarão vistoso em que morávamos no alto da Praça principal, descortinando toda a cidade de Riachão e a bela vista dos arredores; não mais a convivência com os avós e uma multidão de primos e amigos, as ruas conhecidas, as idas à feira dos sábados. A capital plana, desconhecida, a casa pequena, quase sem quintal, a ausência de primos e amigos, as ruas “perigosas”, as aulas no Jardim onde eu não deveria demonstrar que já sabia ler, marcaram muito a minha visão do que era agora uma cidade. Estranhava os novos costumes e passava a perceber a mercantilização de tudo – lembro de como eu estranhei que em Aracaju se compravam flores ! Aqui convivíamos com mais proibições e uma vida que se resumia, no início, às idas à escola e à Igreja.

Como foi sua formação escolar depois do primeiro ano no Colégio Patrocínio São José? O que fez cursar a licenciatura em História? Quem foram seus professores? Como as aulas eram ministradas? Recorda de autores e de eventos na área da história que mais marcaram sua formação quando estudava a licenciatura em História? O que mais ou quem mais a influenciou na sua formação intelectual?

No São José, fiz o Primário e o Ginásio. Como colégio de educação católica, a socialização tinha por base motivos religiosos. Eu participava de tudo e aproveitava as oportunidades para desenvolver o meu gosto pela leitura e pela escrita. Fazia pequenos artigos para o jornal mural do Colégio, encarregava-me de atas de reuniões. Aos doze anos participei de uma seleção para a Academia Sergipana de Letras dos Jovens Estudantes, movimento literário criado pela Professora e escritora Carmelita Pinto Fontes, que agregava estudantes de vários colégios de Aracaju. Integrei o grupo fundador e publiquei algumas crônicas e poemas na coluna semanal reservada para a Academia no jornal A Cruzada, além de apresentar os meus trabalhos nos saraus e reuniões promovidas pelo grupo.
O ambiente em casa era propício ao crescimento intelectual. Com um pai jornalista nós tínhamos o hábito de ler jornais e ouvir juntos os programas que ele produzia para a Rádio Cultura de Sergipe, geralmente abordando questões da política e da cultura. Penso que vem daí o meu gosto pela investigação e pela escrita. Em meio às tarefas que me cabiam numa família numerosa e modesta, desenvolvi, sob orientação da minha mãe, a capacidade de dividir o tempo entre os trabalhos domésticos e o estudo. Por outro lado eu lia tudo o que estava ao meu alcance. Entre outras coisas, ganhei do meu pai a obra completa de Julio Verne, a coleção “Grandes Vocações” e até a História do Brasil organizada por Sérgio Buarque de Holanda. Assistia aos concertos, peças de teatro e espetáculos de balé trazidos pela Sociedade de Cultura Artística de Sergipe, ia aos festivais de cinema do Cine Palace, e aos catorze anos acompanhava o meu Pai aos debates filosóficos promovidos por um grupo de intelectuais católicos, alguns de tendência esquerdista.
Em meados dos anos sessenta eu estudava no Ateneu Sergipense, onde fazia o Curso Clássico. Vivíamos sob a ditadura militar e eu tinha como professor de História do Brasil um militar do Exército, repetindo inteirinho o Borges Hermida. Já a professora de História Geral, Auxiliadora Diniz, muito exigente, nos fazia ir além da “decoreba” através de uma abordagem mais conseqüente da disciplina. Mas na hora do vestibular eu fiquei dividida entre Letras e História; optei por História, acatando a opinião dos meus pais, de que o Curso me proporcionaria formação mais ampla e poderia me abrir maiores perspectivas.
Entrei para a Faculdade em 1968, o que me possibilitou participar de manifestações do movimento estudantil, desde o trote, altamente politizado. Era o contato com uma nova realidade e com professores dos melhores que a recém-criada UFS tinha em seus quadros. Silvério Fontes foi o professor de Introdução aos Estudos Históricos, História Moderna e Prática de Ensino de História. Fui sua monitora num momento em que o Departamento de História implantava o Levantamento das Fontes Primárias da História de Sergipe, sob coordenação dele, criando a pesquisa histórica num Curso de Licenciatura, o que era uma verdadeira revolução; com Maria Thetis Nunes fiz História do Brasil, Cultura Brasileira e História Contemporânea, curiosa com a experiência da mulher cosmopolita, que se encarregou do levantamento de nossas fontes nos arquivos portugueses; Juan Jose Rivas Páscua foi meu professor de Geo-História, proporcionando uma visão diferente e descortinando-me o conhecimento de autores espanhóis; o então Pe. Luciano Duarte, recém chegado do Doutorado na Sorbonne, era o erudito professor de Filosofia e Teologia, algumas vezes secundado pelo jovem Frei Florêncio Pecorari; Luiz Rabelo Leite, um jurista de posições firmes e indiscutíveis, ensinava História Econômica. Além deles havia o trio de jovens ex-alunas da Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe, que procuravam, com determinação, ombrear-se aos seus ex-professores: Maria da Glória Santana de Almeida, de História Antiga e Medieval; Maria de Lourdes Amaral Maciel, de História da América e Prática de Ensino e Maria de Andrade Gonçalves, de História de Sergipe.
Mas eu não posso deixar de falar na importância do estudo de Sociologia, com o padre pernambucano Ovídio Valois Correa, responsável pelo contato com uma bibliografia que politizava a interpretação sobre o Nordeste no quadro geral do país; Antropologia Geral com Luiza Maria Gonçalves, de práticas e abordagens inovadoras na sociedade aracajuana; Antropologia Brasileira, com a disciplina e a competência de Beatriz Góis Dantas e Língua Portuguesa, com João Costa, o rigoroso professor que não tinha tolerância com a má escrita. Giselda Morais e Ivanete Rocha ministravam as disciplinas de formação para o ensino, Psicologia, Estrutura e Dinâmica do Ensino de Primeiro e Segundo Graus e Didática, completando a nossa formação específica.
As aulas eram, na sua maior parte, grandes exposições orais, mas havia também Seminários, Estudos Dirigidos e outros métodos e técnicas, sem falar no turno semanal nos arquivos, introduzido pelo Projeto de Levantamento das Fontes Primárias, abraçado com entusiasmo por todos os professores da área de formação específica. Ao lado disso tivemos contato com professores de fora, em cursos de Extensão, dos quais lembro o de Historiografia Brasileira com Maria de Lourdes Janotti, o de História do Brasil, com José Sebastião Witter, o de Metodologia da Pesquisa com Odah Regina, as conferências de José Honório Rodrigues, todos marcantes pela novidade.
A biblioteca da Faculdade Católica de Filosofia incorporada pela Universidade tinha uma boa bibliografia de autores franceses da primeira geração de Annales e traduções em espanhol de alguns clássicos da historiografia do século XIX, que eu me aventurava a ler; as leituras de Sociologia davam um senso de realidade no conhecimento do Brasil apesar da rigorosa censura dos anos de chumbo.
Além do meu Pai, desde a infância, quem mais me influenciou foram, sem dúvida, o Professor José Silvério Leite Fontes e a Professora Beatriz Góis Dantas. Se me perguntarem como eu gostaria de ser avaliada, diria que como alguém que conseguiu corresponder dignamente a essa influência. Não por acaso eu assumi no Curso de História, por muitos anos, disciplinas que me foram ensinadas pelo Prof. Silvério: Introdução aos Estudos Históricos e História Moderna. Também fui sua Auxiliar de Ensino em Teoria da História. Dele veio meu gosto pelo estudo da Historiografia, pela pesquisa histórica, pela História Moderna e o entendimento de que pesquisa e ensino são indissociáveis, porque há atitudes e habilidades que só se adquire através da experiência da pesquisa. Além disso, a consciência de que o historiador deve ser um militante pela preservação da memória também foi aprendida do seu exemplo.
Com Beatriz Dantas eu tive uma vivência de maior proximidade pessoal. Ela era muito jovem quando foi minha professora e ao final do Curso fui estagiária do projeto de Reorganização do Arquivo Público do Estado que ela comandou bravamente. Mais tarde trabalhei com ela no Departamento de Cultura e Patrimônio Histórico da Secretaria de Educação e Cultura, o DCPH. Que experiência incrível de amor à pesquisa, de responsabilidade e honestidade intelectual, de respeito à diferença, às culturas do povo e de humildade na busca do conhecimento! Foi por aí que se deu a minha indicação, logo depois de formada, para dirigir o Arquivo Público; dali passei a ser Diretora do DCPH.

Quanto tempo passou no Departamento de História da UFS? Conte-nos sua experiência ministrando aulas de introdução à História e Idade moderna; na chefia do DHI; como orientadora de monografias; nos projetos de pesquisas, incluindo no que gerou o livro "Textos para a História de Sergipe".

Entrei para a Universidade em 1974, depois de uma experiência como professora no Colégio Arquidiocesano e no Ateneu Sergipense. Aposentei-me em 2003, mas fiquei ainda um semestre como professora voluntária. Em 2004 fui convidada pelo Reitor Josué Modesto para dirigir o Museu do Homem Sergipano, onde fiquei até 2009. Assim, posso dizer que atuei na UFS de 1974 a 2009, como professora do Departamento de História, dos Mestrados em Educação e em Geografia e, simultaneamente, exercendo algumas funções de administração, como a de Coordenadora do Programa de Documentação e Pesquisa Histórica do Departamento de História, Vice-Chefe do DHI e depois Chefe do mesmo Departamento em dois momentos, além de Coordenadora de Avaliação Institucional na UFS. Fui também membro do Conselho Universitário, do Conselho do CECH, do Conselho de Extensão e até o presente ano, do Conselho Editorial da Editora da UFS.
Mas a minha história foi mesmo no Departamento de História para o qual entrei por concurso como Auxiliar de Ensino. Assumi História Moderna, depois Introdução aos Estudos Históricos, além de ter ensinado disciplinas que foram introduzidas em diferentes reformas curriculares, como Metodologia da História, Prática de Pesquisa Histórica e História do Nordeste. Por muitos anos todos os alunos de História faziam duas disciplinas obrigatórias comigo, uma no começo do Curso (Introdução), outra na metade (Moderna), o que me fez uma professora muito próxima dos alunos.
Eu me realizei como professora, dedicando-me com muita convicção à formação de futuros professores e historiadores. Em Introdução aos Estudos Históricos segui os passos do Prof. Silvério Fontes, incrementando o trabalho prático de contato direto com as fontes históricas e com questões do ensino da História. Procurava suscitar o debate sobre o papel da disciplina na formação do educando, assim como sobre a responsabilidade do futuro profissional de História com a preservação da memória. Já História Moderna permite a reflexão sobre o eurocentrismo que dominou a história, sobre as marcas da colonização e sobre o surgimento dos grandes sistemas explicativos da modernidade. Sempre tive como preocupação fazer os alunos entenderem diferentes abordagens da historiografia, fugindo à tentação de impingir-lhes apenas aquilo que combinava com o meu próprio ponto de vista.
Por outro lado, acreditando na necessidade de praticar pesquisa e extensão, orientei bolsistas de Iniciação Científica e de Extensão, ao lado dos vários orientandos de Monografia, quer os do Campus de São Cristóvão, quer os do Programa de Qualificação Docente e ainda os do Mestrado. Dos projetos do PIBIC destaco o Levantamento das histórias dos municípios sergipanos, que vasculhou, dentro do possível, toda a bibliografia sobre os municípios e construiu um banco de dados precioso para os pesquisadores de História de Sergipe que continua inédito.
Sou fruto de um Departamento que construía um modo coletivo de trabalhar, através do Projeto de Levantamento das Fontes Primárias para a História de Sergipe, iniciado ainda em 1972; houve ainda vários projetos, que correspondem tanto ao que costumo chamar de “fase heróica” como à “fase de expansão” do campo da História em Sergipe. A elaboração do livro Textos para a História de Sergipe correspondeu a esta mentalidade. O projeto inicial era do Professor Silvério Fontes, mas ele não participou mais da sua execução. Com a assessoria da Professora Rosa Maria Godoy Silveira, da UFPB e a coordenação da Professora Diana Diniz, aquela foi uma obra de historiadoras: além de Diana Diniz, Maria da Glória Santana de Almeida, Maria Andrade Gonçalves, Beatriz Góis Dantas, Lenalda Andrade Santos e eu. Resultou num trabalho que ainda é referência e embora esgotado, é continuamente citado.

Como chegou a temática sobre Fausto Cardoso no seu mestrado e Manuel Bomfim no seu doutorado?

Na década de setenta eu integrei a primeira leva de professores da UFS que saíram para o Mestrado. Escolhi a Universidade Federal de Pernambuco, um pouco pela proximidade – eu estava recém-casada e queria voltar sempre para casa – e também por achar que no único Mestrado em História no Nordeste, eu poderia desenvolver um tema de história local. O Mestrado me proporcionou ampliar a visão sobre a História e o contato com uma realidade regional da qual eu não me dera conta até então. Era plena ditadura; eu e meus colegas sentíamos isso na pele, pelo cuidado com que os professores abordavam certos temas e pela possibilidade de acesso a uma bibliografia “proibida” que comprávamos às escondidas numa pequena livraria de Recife, a Dom Quixote e líamos com sofreguidão. Fiz grandes amigos, em todos os estados nordestinos, conheci a sua problemática histórica e historiográfica, abri os olhos! E defini o que eu poderia estudar em História de Sergipe, através da disciplina História das Idéias Políticas, com o tobiático e encantador professor Nelson Saldanha. Da Escola do Recife para a revolta Fausto Cardoso, foi um caminho só. Mas fui orientada pelo saudoso Prof. Armando Souto Maior, o Coordenador do Mestrado, um erudito.
Talvez pela experiência do estudo de história política e história dos intelectuais, quando fui para o Doutorado em Geociências, da Universidade Estadual Paulista (Rio Claro), em convênio com o Mestrado de Geografia da UFS, também trilhei caminho semelhante. Optei por trabalhar com História do Pensamento Geográfico estudando o Pensamento Geográfico em Manoel Bomfim. Este, também um intelectual sergipano da Primeira República não é tobiático; em grande parte ele representa para mim a outra face da moeda. Não é um intelectual integrado num grupo; fez um caminho muito particular, criando uma interpretação inovadora do Brasil, na contramão da Escola do Recife. Mas cada um à sua medida, Fausto Cardoso e Manoel Bomfim são intelectuais que se destacam por posições pessoais radicais e pela rebeldia. Fausto Cardoso criou uma “sub-escola”, divergindo de Tobias Barreto apesar do grande respeito que lhe devotava. Quando olho para trás fico me perguntando por que exatamente figuras com essas características me atraíram e fascinaram tanto, quando eu mesma me defino como tolerante e conciliadora?

Qual foi sua atuação frente ao PDPH?

Fui Coordenadora do Programa, por mais de uma vez. Procurei organizá-lo não só pela aplicação do Regimento e funcionamento do seu Conselho, como pela sistematização do seu arquivo. Os monitores de Introdução à História acostumaram-se a trabalhar ali, o que aproximava os alunos do PDPH. O Programa teve uma atuação importantíssima na organização dos Encontros de História e Cursos diversos, no trabalho com a ANPUH regional. Em suma, o PDPH foi instrumento fundamental da mentalidade de pesquisa que se instaurou no Departamento de História, passando a ser um centro aglutinador dos trabalhos monográficos dos alunos na fase em que o currículo do Curso de História voltou-se para formar o professor/pesquisador. Infelizmente ele nunca conseguiu realizar a tarefa de ser o foco de um Mestrado em História, que o “nosso” Departamento ainda está a dever.

Seu nome consta no conselho editorial da primeira edição da Revista Cadernos UFS-História na temática do FASC. Poderia nos falar sobre essa sua participação?

Eu vivi os primeiros FASCs e conheço muito bem a sua importância. Mas os “Cadernos” nasceram de um projeto específico: o colega Jorge Carvalho, como Diretor do CULTART, convidou os professores do DHI para a organização do arquivo do primeiro FASC. Isto deu origem à Revista, cujo primeiro número é resultado do trabalho realizado e também é a origem do Projeto de Organização do Arquivo do CULTART, mantido com a participação de alunos de História por vários anos. Nele trabalhou o Prof. Fernando Sá, que me antecedeu na Coordenação e a Profa. Isabel Ladeira, que me sucedeu.
A Revista reuniu, no primeiro número, os professores que participaram do Projeto: Fernando Sá, eu, Lenalda Santos e Edmilson Meneses, cada um, encarregado de analisar um aspecto do FASC. É a primeira publicação da UFS que resgata aquele movimento fundador da extensão cultural. A segunda publicação teve a minha coordenação: foi o Catálogo dos Cartazes do FASC, fruto da idéia do Professor Tiago Fragata, editado pela UFS em 2006.

Qual sua contribuição na preservação dos documentos nos arquivos de Sergipe desde a década de 1970?

Vai aqui uma longa história, que começou quando a Professora Beatriz Dantas dirigiu a reorganização do Arquivo Público do Estado, em 1970. Fui estagiária deste projeto, como estudante de História e isso me marcou tanto, que depois de formada tornei-me Diretora do Arquivo Público, a segunda diretora depois da reorganização. Eu acompanhara a introdução da classificação dos documentos baseada no “Respect des fonds”, orientada pelo Arquivo Nacional. Na direção do Arquivo dei prosseguimento à organização, participei ativamente do I Congresso Brasileiro de Arquivologia, no Rio de Janeiro e criei, em condições muito modestas, o primeiro Boletim do Arquivo, além de ter me empenhado na recuperação de documentos, como o que restou do arquivo de Sebrão Sobrinho, além do Arquivo do Tesouro, que eu trouxe para o APES depois que alguém comentou comigo que a Receita Federal tencionava descartar todos os antigos documentos. Deparei-me com uma montanha de papéis num cômodo e uma tela retratando Felisbelo Freire em tamanho natural, tudo como se fosse para o lixo!
Depois disso, já no Departamento de História, participei da organização dos arquivos do PDPH e do CULTART, além de todas as campanhas em prol dos arquivos, chegando até a criação do Arquivo Geral da UFS pelo então Vice-Reitor Josué Modesto dos Passos.

Maria das Graças Menezes Moura foi uma das suas colegas que mais desfrutou de sua amizade no Departamento de História da UFS. O que poderia nos dizer sobre a mesma?

Eu, Gracinha e Lenalda fazíamos um trio inseparável, muito ligado ainda a Lourdinha que tinha sido professora de nós todas e que foi Diretora do Centro de Educação e Ciências Humanas. Por muito tempo fomos, as três primeiras, as mais jovens do Departamento, “as meninas” como éramos chamadas. Estávamos unidas pela amizade e por projetos e concepções de trabalho, muito comprometidas com a ANPUH, com a pesquisa, com o ensino de História e com a luta pelos arquivos.
Procuramos nos aproximar dos estudantes de História, por um lado, num movimento de abertura e democratização do Departamento liderado pela Profa. Maria das Graças. No seu programa de trabalho para a Chefia do Departamento, que me tinha como Vice-Chefe, isto era muito claro e gerou até algumas incompreensões. Posso dizer que foi uma das fases em que os alunos foram mais ouvidos. Ao mesmo tempo, havia um trabalho intenso pelos arquivos e uma aproximação, na outra ponta, com os professores de História, via Núcleo Regional da ANPUH e junto à Secretaria de Estado da Educação. Nós três nos sucedemos na Direção da ANPUH e estreitamos as relações com outros núcleos no Nordeste.
Gracinha era visionária. Costumo dizer que na dupla que chefiou o DHI, eu era o feijão, ela o sonho. Era corajosa, comprometida, democrata e líder. Sua morte foi um duro golpe e nos deixou um tanto quanto desnorteados. Eu e Lenalda continuamos trabalhando muito juntas, participamos ainda de outros projetos, escrevemos livros didáticos e nunca deixamos de lado a preocupação com o ensino de História. É outra grande companheira, parceira e amiga.

Quais outros professores colegas seus contribuíram nos domínios da História em Sergipe?

Ao longo das respostas anteriores mencionei várias contribuições, como a do Prof. Silvério Fontes e de todos os professores do antigo Departamento de Filosofia e História no Levantamento das Fontes Primárias, de que resultaram publicações ainda em mimeógrafo e a organização de arquivos como o da Cúria Metropolitana, o da Paróquia São José e a criação do Arquivo Judiciário de Sergipe, fruto do apoio do Prof. Luiz Rabelo Leite e do trabalho da Professora Maria da Glória Santana de Almeida. Houve ainda o Levantamento das Fontes para a História de Sergipe nos arquivos portugueses feito pela Profa. Thetis Nunes, mais tarde atualizado pelo Prof. Lourival Santana Santos.
Já falei do grupo dos “Textos para a História de Sergipe”, construído em conjunto, em intermináveis reuniões de estudo e debate; acrescento o trabalho de Gracinha no Arquivo Público, na fundação do núcleo da Associação dos Arquivistas, na organização do Arquivo da Assembléia Legislativa; da Profa. Maria Nele dos Santos, que organizou o arquivo da Associação Comercial de Sergipe e escreveu a sua História; da Profa. Verônica Nunes, trabalhando não só com a organização de arquivos, como com a área de museus.
Na década de oitenta, eu e a Profa. Lenalda participamos do Plano Nacional de Microfilmagem, um Projeto que visava a preservação das fontes pela microfilmagem, liderado por Ester Bertoletti, da Fundação Pró-Memória. Os jornais sergipanos da Biblioteca Epifânio Dórea foram microfilmados, depois de um trabalho incessante de preparo dos originais e confecção das fichas-espelho, junto com alunos estagiários. Todos esses trabalhos com as fontes promoveram a escrita da história, seja em artigos para revistas, em comunicações e palestras em congressos, em trabalhos monográficos e dissertações de Mestrado e mesmo em livros que constituem o panorama da historiografia dos anos oitenta e noventa.
Nos anos noventa, novos professores passaram a integrar o DHI e ampliaram, com os seus trabalhos de Mestrado e Doutorado, a contribuição à historiografia local e nacional. Novas abordagens surgem, no terreno da Geografia, da Antropologia, da Sociologia, da História da Educação, ampliando os horizontes e as visões sobre a História.

Como percebe as transformações no campo da História nos últimos anos?

Se o conhecimento histórico nos ajuda a compreender o mundo, percebo as transformações no campo da História nos últimos anos como resultado do que aconteceu no “breve século XX”, como o chamou Hobsbawn. O processo de constração do espaço e do tempo que o ser humano vivencia nas últimas décadas tem profundos efeitos não só na História como na Geografia, para ficar apenas nestes dois campos. Diante de um mundo em rápida mutação, os paradigmas de construção da História como ciência foram profundamente questionados, a ponto de se tornar indistinta a fronteira entre história e ficção. A par das discussões sobre o fim da história, as geografias pós-modernas também proclamaram a era do espaço, o fim do predomínio do tempo. Tudo isso é resultado da perplexidade, da necessidade de busca de novos instrumentos para a tentativa de compreender o que está acontecendo. Da minha parte, embora entenda assim as transformações e ache corajosa a atitude dos historiadores que chegaram a “cortar na própria carne”, continuo acreditando que o trabalho criterioso de construção do conhecimento histórico a partir das fontes o distingue da ficção e recuso a redução desse conhecimento à simples narrativa pela narrativa: pode ser antigo, mas continuo acreditando que o que me atrai na história é a busca do sentido sobre a caminhada do homem na Terra.

E sobre a historiografia sergipana. Qual sua avaliação sobre as diversas contribuições nas últimas décadas?

Haverá quem questione a existência de uma historiografia sergipana. Sou daqueles que acreditam que ela existe e que estudá-la é uma necessidade. José Calazans, Silvério Fontes, Itamar Freitas estão entre os historiadores que o fizeram e apontaram características que a identificam. Como mostrou o primeiro, nas últimas décadas a Universidade Federal assumiu a liderança nos estudos históricos e as bases dessa liderança remontam à década de setenta, substituindo o papel que, no passado, coube ao Instituto Histórico. Obras fundamentais à compreensão da nossa história saíram da pena de uma Thetis Nunes, de um Ibarê Dantas, de um Josué Modesto, para citar apenas alguns nomes. A monografia introduzida nos Cursos de Graduação cumpriu outro papel na historiografia acadêmica, reforçado e ampliado pelas pesquisas do PIBIC e, principalmente pelas dissertações e teses dos Cursos de Mestrado e Doutorado, feitos aqui e alhures.
Hoje não é a UFS um agente isolado na área. Os Cursos de História se multiplicaram e o Instituto Histórico voltou a ter um papel ativo seja pela organização e publicação de fontes e repertórios, seja pela realização do Congresso de História, seja ainda como um centro de pesquisa referencial. A nova classificação da Revista do IHGSE, que atualizou a sua periodicidade, mostra o bom nível da nossa produção. Mas faz falta um Curso de Mestrado ou Doutorado em História, que a Universidade não tem conseguido implementar, apesar da qualificação do seu corpo docente e da demanda da sociedade. O boom de História da Educação, liderado entre outros pelo Prof. Jorge Carvalho, comprova o dinamismo que a Pós-Graduação imprime à produção de determinado campo.
Por outro lado, ampliam-se as oportunidades de publicação. Na Editora da UFS, em torno de 20% de todos os títulos são de História. Mas há também uma ativa produção de história e memória dos municípios, fora dos padrões da historiografia acadêmica, rica de informações e porque não dizer, de novos encantos.

Atualmente a senhora exerce o cargo de diretora do IPHAN. Como tem sido sua administração frente a esse órgão tão importante para o historiador. Fale-nos sobre o processo que levou a praça São Francisco ser considerada patrimônio Mundial pela UNESCO.

Há um ano estou como Superintendente do Iphan. O trabalho administrativo é uma experiência nova, mas o objeto central do trabalho já me era familiar. Cheguei num momento em que o Iphan ampliou a sua área de atuação e em que se afirma na missão de preservar o patrimônio cultural como fator de desenvolvimento da sociedade brasileira, respeitando a diversidade das suas manifestações. É um trabalho sério, feito por um corpo de servidores muito pequeno em relação às atuais demandas desenvolvidas.
É com um misto de admiração e um sentimento de descoberta que eu tomo conhecimento do que já existe acumulado em termos de pesquisa no Iphan e sinto que há necessidade de aproximação maior também com a comunidade acadêmica, não apenas para oferecer a ela a possibilidade de acesso às informações de que o Instituto dispõe sobre o patrimônio cultural brasileiro, como pela possibilidade de estabelecer parcerias em torno da preservação do patrimônio, principalmente no que diz respeito à educação patrimonial. Neste sentido, estamos construindo um Termo de Cooperação com a UFS no campus de Laranjeiras, cheios de expectativas.
Já o processo que elevou a Praça São Francisco a Patrimônio da Humanidade, que encontrei em andamento, foi uma experiência muito particular. A candidatura é de 2005. O IPHAN, o Governo do Estado e a mobilização da sociedade constituíram o tripé responsável por essa vitória. O Governo do Estado contratou o dossiê que justificou o valor universal e excepcional do Bem; o IPHAN orientou o processo e articulou a comunicação com a Unesco, além de ter proporcionado, através do Programa Monumenta, a maior parte dos recursos necessários às obras que foram realizadas pelo Estado em São Cristóvão para atender às exigências de preservação da Praça e do seu entorno.
Na reunião do Comitê do Patrimônio Mundial o debate em torno dos bens que integram a Lista do Patrimônio da Humanidade suscita questões da política mundial, da economia e da ecologia. É, portanto, um fórum em que está em jogo não apenas a memória, mas o futuro da humanidade. É neste nível que se encontra a nossa Praça São Francisco, desde o dia 1 de agosto de 2010.

Entrevista para os Cadernos UFS História, edição de número 11.
ISSN 19804784.

Texto e imagem reproduzidos do blog:
antoniolindvaldosousa.blogspot.com.br

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Sergipe Notícia Entrevista Terezinha Oliva.


“Cuidar do patrimônio é uma responsabilidade de todos”.
"Sergipe tem um patrimônio cultural riquíssimo”. (Terezinha Oliva).

Sergipe Notícias: Como tem sido a conservação do patrimônio de Aracaju?

Terezinha Oliva: Em Aracaju, não há ainda bens tombados pelo IPHAN. Tramita um processo que já tem o estudo justificando a proteção federal e está nas providências finais. O passo seguinte à fase atual será o envio à decisão do Conselho Consultivo do IPHAN. Mas a cidade já fez, em 2010, juntamente com o IPHAN, o seu Plano de Ação para Cidades Históricas, identificando a área que deseja ver protegida pelo Governo Federal e as ações de proteção que são necessárias, cuja primeira obra foi realizada com a reforma da Praça Camerino, executada em convênio com a Prefeitura Municipal de Aracaju e entregue em 2014. O que já tem a proteção do IPHAN são os bens do patrimônio ferroviário - o complexo ferroviário e a conhecida "estação da Leste". São bens valorados, o que é uma forma de proteção diferente do tombamento. As obras de restauração de todo o Complexo Ferroviário vão acontecer pelo Programa de Aceleração do Crescimento para Cidades Históricas e já foram licitados os projetos.

SN: Sergipe é um estado rico em patrimônio cultural. Quais são os mais importantes do estado e qual seu significado na formação da cultura de nosso povo?

TO: Sim, Sergipe tem um patrimônio cultural riquíssimo. Desde a década de 1940, o IPHAN, criado em 1937, tombou vários bens no nosso Estado. Hoje eles são 27, entre os quais dois sítios urbanos - os sítios históricos de São Cristóvão e de Laranjeiras com todas as edificações do perímetro. Além disso, temos mais de 130 sítios arqueológicos cadastrados, os bens do patrimônio ferroviário com declaração de valor em Propriá, Boquim e Aracaju e um bem registrado, o saber fazer renda irlandesa. Mas o Inventário Nacional de Referências Culturais já realizado em Laranjeiras, em Barra dos Coqueiros e em 13 municípios da região do São Francisco (1ª fase) identificou vários bens do patrimônio imaterial. Sabemos que há uma riqueza enorme de bens do patrimônio que ainda não têm proteção federal, mas muitos deles já têm tombamento estadual ou municipal.

SN: Quais as maiores dificuldades encontradas pelo Iphan na questão de administração do patrimônio histórico nacional em Sergipe?

TO: As maiores dificuldades dizem respeito à amplitude das questões de patrimônio e ao tamanho da equipe do IPHAN. Ela cresceu, nos últimos dois anos, mas o número de técnicos ainda não é suficiente para garantir a presença constante na fiscalização, na orientação, na identificação do patrimônio cultural e na educação patrimonial. As demandas são crescentes, porque patrimônio cultural hoje tem a ver com tudo: com ações de licenciamento ambiental, com desenvolvimento sustentável, com o crescimento urbano, com questões sociais, enfim, é praticamente impossível falar de algum tema que não envolva o patrimônio cultural. Isto exige muito da equipe em termos de estudos, de avaliações, de fiscalização, de educação patrimonial, exige ser multidisciplinar e, se fosse possível, ser onipresente. Nenhum órgão sozinho dá conta de tudo isso; por este motivo, a legislação prevê que a responsabilidade pelo patrimônio cultural é dos entes públicos e da sociedade. O grande desafio agora é o do compartilhamento desta responsabilidade, razão pela qual existem os convênios, os acordos de cooperação, as diversas ações nas quais o IPHAN se coloca como coordenador e isto fica claro na definição da sua missão. O IPHAN não se vê sozinho nesta missão, mas quer compartilhá-la com todas as instâncias do poder e da sociedade.

SN: Qual o significado da Praça São Francisco como patrimônio histórico da humanidade?

TO: Entrar na Lista do Patrimônio Mundial significou dizer que Sergipe tem um bem cuja preservação interessa a toda a humanidade. A Praça São Francisco foi alçada ao mesmo patamar em que estão as muralhas da China, as pirâmides do Egito e outras importantes realizações do engenho humano. Ela representa a fusão de padrões urbanísticos do período da União das Coroas portuguesa e espanhola, mantendo íntegro um ambiente em que, além da arquitetura significativa, se praticam manifestações culturais tradicionais como a Procissão de Senhor dos Passos. Este bem do patrimônio cultural projeta no mundo, a cidade de São Cristóvão, Sergipe e o Brasil. Cuidar da sua preservação é responsabilidade a ser compartilhada pelo Governo e pela sociedade. Por isso, no mês de dezembro, foi instalada a Comissão para a Gestão da Praça São Francisco, composta por representantes do IPHAN, do Estado de Sergipe, do Município de São Cristóvão e da sociedade civil. Esta Comissão vai elaborar um Plano de Gestão comprometendo nele todas as instâncias nela representadas.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Tereza Mércia Alves Oliva.