Legenda da foto: Neste prédio da esquina entre a avenida Otoniel Dórea (conhecida como Rua da Frente) e a Rua Santa Rosa funcionou por muitos anos o Vaticano, um dos principais cabarés de Aracaju
Artigo compartilhado do site DESTAQUE NOTÍCIAS, de 1 de fevereiro de 2026
O outrora boêmio Beco dos Cocos ganha cara nova
Um pedaço do centro de Aracaju muitas vezes despercebido, outras vezes evitado. Estamos falando do outrora glamouroso Beco dos Cocos, berço da boemia, recanto de música, jogos e outros prazeres. Pois bem, após anos de abandono, aquela estreita rua no centro da cidade está passando por um processo de revitalização e já começa a ganhar uma nova aparência, retomando sua função urbana e social.
As intervenções promovidas pela Prefeitura no Beco dos Cocos incluem a implantação de um novo calçadão com piso intertravado e melhorias estruturais que visam transformar o local em um ambiente mais acolhedor, seguro e atrativo para a população. As paredes testemunhas de histórias de uma época de apogeu estão ganhando pinturas artísticas e grafismos. Também foi realizada toda a requalificação da drenagem e do esgotamento sanitário e feitas todas as interligações necessárias para eliminar o mau cheiro, que era algo recorrente naquela tradicional via pública.
O Beco dos Cocos
Do que era passagem obrigatória para homens importantes em busca de diversão, virou um caminho evitado. Até recentemente era reduto de uma prostituição bem menos sofisticada, banheiro a céu aberto e ponto de tráfico e uso de drogas.
Atualmente travessa Silva Ribeiro, o Beco dos Cocos é um dos locais mais antigos de Aracaju. Localiza-se entre a Praça General Valadão e a rua Santa Rosa. É um atalho para quem vai da praça e quer chegar aos mercados centrais.
Aracaju foi fundada em 17 de março de 1855. Residências de famílias mais abastadas foram construídas no entorno da área que corresponde ao atual Centro Histórico. Além dos moradores com alto poder aquisitivo, a nova capital também era construída por trabalhadores migrantes do interior, que se estabeleciam em alojamentos de fabricas têxteis no Bairro Industrial ou no Vaticano, prédio com grandes proporções, incomum para a época, que serviu como uma espécie de cortiço, abrigando a classe operária e também prostitutas. O Beco dos Cocos surgiu como uma importante rota de passagem de cargas de cocos, o que explica o seu batismo.
Com o povoamento da nova capital, também surgiu a necessidade da existência de um local onde os homens pudessem satisfazer os seus desejos e alimentar suas aventuras extraconjugais, e que também pudesse servir como ponto de encontro de boêmios. Nesse contexto, o Beco dos Cocos aparece como o local ideal. Distante o suficiente da Catedral Metropolitana, onde estavam localizadas as residências das famílias mais abastadas e onde a moral era prezada, a travessa recebia novos moradores e investidores, que perceberam no local o seu potencial para bares e casas de jogos.
Os estabelecimentos lá criados serviam não só aos ricos, mas também atendia a classe trabalhadora, residente no bairro Industrial e Vaticano. O local passou a despertar a curiosidade e os desejos, atraía os olhares e conquistava os homens da sua época.
Damas da noite
Instalaram-se no beco boates e cabarés, dos mais simples aos mais sofisticados, e o seu apogeu foi entre as décadas de 1940 a 1960. A antropóloga Elayne Messias Passos começou a tentar perceber o Beco como um espaço de resistência no Centro de Aracaju. Fascinada pela cultura boêmia, Elayne passou a estudar a história do local e seus personagens. Como objeto de estudo, o Beco “perdido” começa a ser descoberto, sua história desvendada e seus personagens apresentados.
Em suas pesquisas, a antropóloga encontrou na literatura ricas descrições do ambiente. Na ficção, o local é lembrado em obras do modernismo: “me surpreendi com Tereza Batista Cansada de Guerra, personagem de Jorge Amado, que foi iniciada como prostituta no Beco dos Cocos”, afirma Elyane.
Na vida real, o memorialista sergipano Murilo Melins, descreve em sua obra a existência da Pensão da Marieta, que era a mais elegante e melhor frequentada. Possuía as melhores e mais caras damas da noite. Por lá trabalhavam Princesinha, Florzinha, Verdinha, Fuega, Helena Jabá, Arlete, Maura e a famosa Gilda. Essas damas, devido a discrição, eram muitas vezes confundidas com moças da sociedade e frequentavam o comércio das ruas João Pessoa e Laranjeiras e também os cinemas. O destaque também vai para o Cassino Bela Vista e o Dancing Xangai, que contava com uma decoração temática oriental.
Cabarés famosos
Democrático, o Beco dos Cocos não era frequentado apenas por carregadores de coco, estivadores e outros trabalhadores braçais. Os cabarés também recebiam banqueiros, comerciantes e membros da elite sergipana. Entres os frequentadores mais ilustres estavam o ex-secretário de educação do estado Luis Antônio Barreto e o escritor Murilo Melins. “É uma característica que se preserva até hoje. Em Aracaju não se vê os ricos tão separados dos pobres. É claro que existe a segregação econômica, mas ainda é possível ver ricos e pobres frequentando os mesmos lugares,” ressalta a antropóloga.
A Boate Xangai era uma das mais suntuosas: a decoração oriental trazia ao local charme e elegância. No térreo, funcionava um cassino e no andar superior ficavam os quartos usados para a prostituição. O cassino Bela Vista ficava localizado na divisa com o Mercado Central e misturava o sexo fácil com os jogos de azar. Já consolidado como “complexo de meretrício”, as boates e prostíbulos ganhavam fama. O Luz Vermelha, Miramar, Night and Day e o Fresca reuniam artistas, jornalistas, intelectuais e os mais variados segmentos da sociedade.
Além de funcionar como zona de prostibulo, os historiadores sergipanos Andreza e Dilton Maynard destacam em sua obra outra função do Beco dos Cocos: a de conter os estivadores para que não adentrassem na cidade em busca de sexo, bebidas e jogos. Desta forma, a gente do cais não se infiltrava entre a sociedade aracajuana.
Ao analisar esta afirmação, a antropóloga vê uma animalização destes indivíduos indesejados: “Nos remete a um estado de barbárie, onde os tipos citados personificariam francos atiradores em linha de batalha, ou seja, bárbaros prestes a invadir o território de Aracaju, vencidos pelos encantos das prostitutas, que por sua vez, atuavam como heroínas, cuja função era proteger as moças de família do assédio violento desses selvagens, o que possibilitou a manutenção desse mercado sexual por algum tempo”, analisa.
Com informações e fotos da Diretoria de Comunicação da UFS
Texto e imagens reproduzidas do site: www destaquenoticias com br



Nenhum comentário:
Postar um comentário