Foto compartilhada do blog Centro de Arte e Cultura J Inácio e postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo.
Artigo compartilhado do site ROACONTECE, de 1 de fevereiro de 2026
Bananeiras e Cores: A Vida de J. Inácio em Tela
Por Emanuel Rocha*
Pinceladas de Liberdade: A Saga do Homem que Transformou Sergipe em Eternidade
Na manhã dourada de 11 de junho de 1911, o vento que soprava sobre o povoado de Bolandeira, em Arauá, parecia carregar um presságio: o mundo ganharia novas cores. Ali, entre o cheiro da terra úmida e o pulsar das tradições do interior, nascia José Inácio Alves de Oliveira. Sua trajetória não seria escrita apenas com passos, mas tecida em poesia, luta e uma paixão visceral pela existência, sempre guiada pelos ritmos profundos de Sergipe, a terra que se tornou seu abrigo, seu cenário e sua maior musa.
Desde menino, Inácio carregava no espírito o sopro encantado da criatividade. Diz a lenda de sua própria história que foi na encenação de Judas, no alto da Colina do Santo Antônio, que ele deu as primeiras pinceladas na alma das artes. Ao entregar corpo e emoção a personagens que já revelavam seu olhar sensível sobre o mundo, ele descobria que a vida poderia ser transfigurada pela entrega estética. Aos dezessete anos, movido por uma força íntima que transbordava, ele iniciou sua caminhada nas artes plásticas de forma autodidata. Enquanto o mundo exigia técnica e rigores, Inácio oferecia o instinto. Seu talento floresceu alimentado pelas paisagens rústicas, pelas festas populares e pela luz exuberante que ele filtrava pela janela da alma.
Nesse cenário de formação, a figura de seu irmão, o venerado Padre Pedro, surge como um pilar de contraste e profunda comunhão. Enquanto o Padre Pedro dedicava seus dias à cura das almas e ao amparo dos necessitados através do sagrado, J. Inácio canalizava a mesma compaixão e fervor para a cor. Eram as duas faces de uma mesma moeda: a caridade espiritual de um e a crônica visual do outro. A relação entre os dois simbolizava o diálogo eterno entre a fé e a liberdade, entre a ordem solene do altar e a efervescência criativa do ateliê, ambos profundamente enraizados no amor ao povo sergipano.
Houve um momento em que o horizonte se expandiu e o levou para longe das margens do Rio Sergipe. Uma bolsa do governo o conduziu à Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, mas as paredes da academia eram estreitas demais para seu espírito de pássaro. J. Inácio preferiu o aprendizado das calçadas e o convívio com mestres como Jordão de Oliveira. Sob o pseudônimo de Inácio Ventura, ele vendia poemas e desenhos pelas esquinas cariocas, conquistando os transeuntes com a força de uma arte que era, ao mesmo tempo, simples e profunda. O reconhecimento nacional veio como um eco natural: em 1943, a medalha de bronze no Salão Nacional de Belas Artes selou seu destino como um dos grandes nomes da pintura brasileira.
A figura de Inácio era um hibridismo fascinante, fundindo o pintor e o poeta em um homem de sorriso largo e alma boêmia. Ele não apenas usava o pincel; era um mestre da espátula, criando relevos de emoção pura. Foi através dessa técnica que ele imortalizou o que viria a ser sua maior marca: as bananeiras. Sob suas mãos, as folhas largas e verdes ganhavam uma vida quase tátil, vibrando sob o sol tropical com uma força que nenhuma academia poderia ensinar. Suas bananeiras não eram apenas plantas; eram monumentos à exuberância da terra, símbolos de um Sergipe que ele pintava com generosidade e viço.
Ao lado dessas musas vegetais, seu estilo revelava em gestos rápidos a essência de sua terra: das casas de farinha aos manguezais, das praias ao cotidiano silencioso dos pescadores e ao estalido das fogueiras juninas. Hoje, enquanto a galeria que leva seu nome em Aracaju protege sua memória, obras como Pescaria e Casamento Caipira continuam a celebrar essa identidade. J. Inácio não foi apenas um homem que pintou paisagens; ele foi a própria alma sergipana que aprendeu a manejar a cor. Sua vida foi uma tela inacabada de liberdade, onde a tinta nunca secava porque era alimentada pelo suor do povo e pelo brilho do sol.
Quando as cores de seu olhar finalmente repousaram, Sergipe não se calou; ela se tornou moldura. J. Inácio não partiu, mas sim diluiu-se na paisagem que tanto amou, transmutando seu último fôlego no verde-esmeralda de suas folhas de bananeira e no ocre das terras batidas de sua infância. Ele se despediu da vida como quem termina uma tela ao entardecer: com a espátula ainda suja de sol e o coração transbordando a boemia dos homens livres. Ao deixar o ateliê do mundo, ele não nos entregou o luto, mas a permanência. Seu adeus é o silêncio fértil do manguezal à espera da maré, a certeza de que sua alma boêmia ainda caminha pelas calçadas de Aracaju, e que, em cada pincelada vibrante que deixamos de herança, seu riso largo continuará a ecoar, eterno, lúdico e profundamente sergipano.
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* Emanuel Rocha é Historiador, poeta popular, escritor e Repórter fotográfico
Texto reproduzido do site: roacontece com br

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