Publicação compartilhada do site FAUSTO LEITE, de 30 de maio de 2026
Folha da Praia fez Aracaju rir de si mesma
Por Fausto Leite
A estreia de “Folha da Praia: Um Pasquim Sob o Sol de Aracaju” foi daquelas noites em que a memória saiu do arquivo, botou sandália, atravessou a Orla e entrou no Memorial de Sergipe como quem diz: “cheguei, e ainda tenho muita história para contar”. Mais de 300 pessoas acompanharam a sessão, riram alto, se emocionaram e reencontraram uma Aracaju que sabia fazer jornalismo com coragem, deboche e uma deliciosa falta de juízo criativo. Não foi apenas lançamento de documentário. Foi reencontro de geração de intelectuais, acerto de contas com a saudade e celebração de uma imprensa que cutucava os poderosos sem pedir licença.
Dirigido por Alex Nascimento, o filme resgata a trajetória do jornal Folha da Praia, criado por Amaral Cavalcante no início dos anos 1980. E aqui é preciso dizer sem rodeio: Amaral foi o grande arquiteto dessa aventura. Ele não criou apenas um jornal. Criou uma trincheira de irreverência, um território livre de humor, crítica e ousadia sob o sol de Aracaju. O Folha era daqueles que entravam na sala sem bater, sentavam no sofá, mexiam no cinzeiro e ainda perguntavam por que todo mundo estava tão sério.
Alex merece aplauso de pé. Teve sensibilidade para entender que o Folha da Praia não cabia numa narrativa engomada. Era preciso ritmo, arquivo, imagem, depoimento, gargalhada e aquele tempero sergipano que mistura praia, política, bar, fofoca qualificada e veneno fino. O resultado é uma produção viva, afetiva e necessária. Alex não empalhou a memória. Ele botou a memória para andar, falar, rir e, de vez em quando, dar um tapa de luva na caretice local.
E nesse trabalho, Alex Soares, o outro Alex, também merece registro especial. Como editor de vídeo, ele ajudou a dar corpo, ritmo e respiração ao documentário. Porque memória boa, quando mal editada, vira palestra de repartição depois do almoço. Ali, não. A edição ajudou o filme a andar, cortar na hora certa, deixar a piada respirar, segurar a emoção e fazer o passado parecer presente. Alex Soares não apenas juntou imagens. Ajudou a montar o pulso do filme.
E se o documentário já tinha força, Gigi entrou em cena e roubou a festa como quem não pediu licença nem para o porteiro. O público foi às gargalhadas quando ele soltou, com aquela naturalidade de quem carrega a ironia no bolso: “diziam que a gente que fazia o Folha ou era viado ou maconheiro, talvez os dois”. Pronto. A sala veio abaixo. A frase arrancou risada, mas também mostrou o tamanho da caretice que cercava o jornal. O Folha incomodava tanto que a cidade conservadora precisava rotular seus autores para tentar explicar o que não conseguia controlar. Gigi transformou preconceito antigo em piada histórica. Foi depoimento, stand-up sergipano e vingança bem-humorada de uma geração que respondeu à caretice com jornalismo, deboche e coragem.
Mas o brilho do filme também está no conjunto. Marcos Cardoso aparece como quem ajuda a costurar memória com inteligência e afeto, trazendo densidade para a história sem deixar a conversa ficar solene demais. Ricardo Nunes entra com o olhar de quem conhece cada rua, avenida, praia, personagem e clima de época. Luciano Correia ajuda a recompor o cenário de uma Aracaju criativa, inquieta e menos comportada. Nestor Amazonas chega com a força de quem entende que memória boa não é aquela guardada em gaveta, mas aquela que volta para provocar. E Rivanda, a secretária, aparece como uma dessas figuras fundamentais que a história oficial às vezes esquece, mas sem as quais nada funciona. Toda redação tem seus gênios, seus malucos e seus vaidosos; mas também tem quem segure a casa enquanto os iluminados fazem fumaça.
Jorge Carvalho entra no documentário como aquele intelectual que não precisa levantar a voz para ocupar a sala. Professor, escritor, pesquisador e uma das grandes cabeças da cultura sergipana, ele dá ao filme densidade histórica e elegância crítica. No documentário, sua presença ajuda a ligar o Folha da Praia não apenas à boemia e ao deboche, mas também à história cultural de Sergipe. Afinal, toda boa bagunça precisa de alguém que saiba explicar por que a bagunça era, na verdade, um movimento de inteligência.
Os demais depoentes completam esse painel com lembranças, histórias, exageros, risadas e verdades. Cada um entra com uma peça do quebra-cabeça. Uns trazem análise, outros emoção, outros bastidor. E o filme ganha justamente porque não tenta transformar o Folha da Praia em santo de altar. Mostra o jornal como ele parecia ser: vivo, atrevido, imperfeito, engraçado, provocador e profundamente sergipano. Um jornal que fazia barulho numa Aracaju que ainda tentava parecer comportada demais para a própria criatividade.
O Folha da Praia foi mais do que uma publicação. Foi um estado de espírito. Era a Aracaju menos engomada, menos obediente e muito mais interessante. Enquanto muita gente fazia pose de seriedade, o jornal já entendia que a cidade tinha humor, malícia, desejo, política, praia, bar, poesia e veneno fino. Era pasquim, mas também era espelho. Mostrava Sergipe pequeno no mapa, gigante na criatividade e perigosíssimo quando resolvia fazer graça com coisa séria.
No fim, “Folha da Praia” voltou para lembrar que Aracaju já teve uma imprensa alternativa com sal, coragem, deboche e inteligência. Alex Nascimento devolveu essa história ao público com respeito, movimento e alma. Alex Soares ajudou a transformar arquivo, imagem e depoimento em narrativa viva. Amaral Cavalcante saiu reafirmado como o grande arquiteto do Folha. Gigi saiu como ladrão oficial da cena. Jorge Carvalho deu a moldura intelectual. Marcos Cardoso, Ricardo Nunes, Luciano Correia, Nestor Amazonas, Rivanda e os demais depoentes ajudaram a reconstruir uma memória que merecia voltar à luz. Foi cinema, gargalhada coletiva e justiça cultural. E, convenhamos, num tempo em que muita bajulação se fantasia de notícia, ver um filme celebrando um jornal livre, atrevido e debochado é quase serviço público à sanidade cultural de Sergipe.
Texto e imagens reproduzidos do site: faustoleite com br


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