domingo, 31 de maio de 2026

Folha da Praia fez Aracaju rir de si mesma


Fotos de Fausto Leite

Publicação compartilhada do site FAUSTO LEITE, de 30 de maio de 2026

Folha da Praia fez Aracaju rir de si mesma
Por Fausto Leite

A estreia de “Folha da Praia: Um Pasquim Sob o Sol de Aracaju” foi daquelas noites em que a memória saiu do arquivo, botou sandália, atravessou a Orla e entrou no Memorial de Sergipe como quem diz: “cheguei, e ainda tenho muita história para contar”. Mais de 300 pessoas acompanharam a sessão, riram alto, se emocionaram e reencontraram uma Aracaju que sabia fazer jornalismo com coragem, deboche e uma deliciosa falta de juízo criativo. Não foi apenas lançamento de documentário. Foi reencontro de geração de intelectuais, acerto de contas com a saudade e celebração de uma imprensa que cutucava os poderosos sem pedir licença.

Dirigido por Alex Nascimento, o filme resgata a trajetória do jornal Folha da Praia, criado por Amaral Cavalcante no início dos anos 1980. E aqui é preciso dizer sem rodeio: Amaral foi o grande arquiteto dessa aventura. Ele não criou apenas um jornal. Criou uma trincheira de irreverência, um território livre de humor, crítica e ousadia sob o sol de Aracaju. O Folha era daqueles que entravam na sala sem bater, sentavam no sofá, mexiam no cinzeiro e ainda perguntavam por que todo mundo estava tão sério.

Alex merece aplauso de pé. Teve sensibilidade para entender que o Folha da Praia não cabia numa narrativa engomada. Era preciso ritmo, arquivo, imagem, depoimento, gargalhada e aquele tempero sergipano que mistura praia, política, bar, fofoca qualificada e veneno fino. O resultado é uma produção viva, afetiva e necessária. Alex não empalhou a memória. Ele botou a memória para andar, falar, rir e, de vez em quando, dar um tapa de luva na caretice local.

E nesse trabalho, Alex Soares, o outro Alex, também merece registro especial. Como editor de vídeo, ele ajudou a dar corpo, ritmo e respiração ao documentário. Porque memória boa, quando mal editada, vira palestra de repartição depois do almoço. Ali, não. A edição ajudou o filme a andar, cortar na hora certa, deixar a piada respirar, segurar a emoção e fazer o passado parecer presente. Alex Soares não apenas juntou imagens. Ajudou a montar o pulso do filme.

E se o documentário já tinha força, Gigi entrou em cena e roubou a festa como quem não pediu licença nem para o porteiro. O público foi às gargalhadas quando ele soltou, com aquela naturalidade de quem carrega a ironia no bolso: “diziam que a gente que fazia o Folha ou era viado ou maconheiro, talvez os dois”. Pronto. A sala veio abaixo. A frase arrancou risada, mas também mostrou o tamanho da caretice que cercava o jornal. O Folha incomodava tanto que a cidade conservadora precisava rotular seus autores para tentar explicar o que não conseguia controlar. Gigi transformou preconceito antigo em piada histórica. Foi depoimento, stand-up sergipano e vingança bem-humorada de uma geração que respondeu à caretice com jornalismo, deboche e coragem.

Mas o brilho do filme também está no conjunto. Marcos Cardoso aparece como quem ajuda a costurar memória com inteligência e afeto, trazendo densidade para a história sem deixar a conversa ficar solene demais. Ricardo Nunes entra com o olhar de quem conhece cada rua, avenida, praia, personagem e clima de época. Luciano Correia ajuda a recompor o cenário de uma Aracaju criativa, inquieta e menos comportada. Nestor Amazonas chega com a força de quem entende que memória boa não é aquela guardada em gaveta, mas aquela que volta para provocar. E Rivanda, a secretária, aparece como uma dessas figuras fundamentais que a história oficial às vezes esquece, mas sem as quais nada funciona. Toda redação tem seus gênios, seus malucos e seus vaidosos; mas também tem quem segure a casa enquanto os iluminados fazem fumaça.

Jorge Carvalho entra no documentário como aquele intelectual que não precisa levantar a voz para ocupar a sala. Professor, escritor, pesquisador e uma das grandes cabeças da cultura sergipana, ele dá ao filme densidade histórica e elegância crítica. No documentário, sua presença ajuda a ligar o Folha da Praia não apenas à boemia e ao deboche, mas também à história cultural de Sergipe. Afinal, toda boa bagunça precisa de alguém que saiba explicar por que a bagunça era, na verdade, um movimento de inteligência. 

Os demais depoentes completam esse painel com lembranças, histórias, exageros, risadas e verdades. Cada um entra com uma peça do quebra-cabeça. Uns trazem análise, outros emoção, outros bastidor. E o filme ganha justamente porque não tenta transformar o Folha da Praia em santo de altar. Mostra o jornal como ele parecia ser: vivo, atrevido, imperfeito, engraçado, provocador e profundamente sergipano. Um jornal que fazia barulho numa Aracaju que ainda tentava parecer comportada demais para a própria criatividade.

O Folha da Praia foi mais do que uma publicação. Foi um estado de espírito. Era a Aracaju menos engomada, menos obediente e muito mais interessante. Enquanto muita gente fazia pose de seriedade, o jornal já entendia que a cidade tinha humor, malícia, desejo, política, praia, bar, poesia e veneno fino. Era pasquim, mas também era espelho. Mostrava Sergipe pequeno no mapa, gigante na criatividade e perigosíssimo quando resolvia fazer graça com coisa séria.

No fim, “Folha da Praia” voltou para lembrar que Aracaju já teve uma imprensa alternativa com sal, coragem, deboche e inteligência. Alex Nascimento devolveu essa história ao público com respeito, movimento e alma. Alex Soares ajudou a transformar arquivo, imagem e depoimento em narrativa viva. Amaral Cavalcante saiu reafirmado como o grande arquiteto do Folha. Gigi saiu como ladrão oficial da cena. Jorge Carvalho deu a moldura intelectual. Marcos Cardoso, Ricardo Nunes, Luciano Correia, Nestor Amazonas, Rivanda e os demais depoentes ajudaram a reconstruir uma memória que merecia voltar à luz. Foi cinema, gargalhada coletiva e justiça cultural. E, convenhamos, num tempo em que muita bajulação se fantasia de notícia, ver um filme celebrando um jornal livre, atrevido e debochado é quase serviço público à sanidade cultural de Sergipe.

Texto e imagens reproduzidos do site: faustoleite com br

Nenhum comentário:

Postar um comentário