Publicado originalmente no Facebook/Clarkson Moura, em 6 de novembro/2016.
Doido ou Burro: Na visão do Prof. Barretão.
Por
Para os coestaduanos, jovens ou adultos, que não tiveram o
privilégio de conhecê-lo ou ouvir falar dele; permito-me, com o devido
beneplácito, a honra de apresentar-lhes, na minha intelecção, um dos autênticos
"Orgulhos da Sergipanidade". Trata-se do saudoso e imortal Prof. José
Barreto Fontes, reverente e popularmente chamado de "Prof. Barretão"
ou "Barretão", sergipano dos quatro costados, químico industrial de
ponta, professor universitário excelente, cientista consagrado, Intelectual
notório etc.
Como os verdeiros gênios, o ilustre sergipano era simples,
espontâneo, comunicativo, erudito, criativo, cartesiano, resignado, atencioso,
curioso, liberal, solícito e brincalhão.
Suas aulas cotidianas registravam 100% (cem por cento) de
presença e pontualidade espontâneas de nós, assíduos e incondicionais alunos,
independentemente das turmas e períodos seriados. Todos nos esforçávamos para
chegar, com antecedência, à sala de aula, onde se tornaram corriqueiras as disputas
acirradas por carteiras ou bancadas situadas nas primeiras filas ou lances, em
face do espaço de circulação do querido Mestre. Nenhum de nós queria perder uma
só palavra de suas teóricas ou práticas lições, bem como deixar de ouvir seus
gracejos e piadas.
Volta e meia, o inesquecível Professor contava, de forma
peculiar, um caso concreto e tragicômico de sua diferenciada vida: "Por
estranho que pareça, nasci ali, em Laranjeiras, na 'Rua da Bosta'. Antes que um
de vocês me pergunte o porquê desse nome, eu lhes explico: nos fundos do
terreno onde era erguida a casa de meus Pais, passa o Rio Cotinguiba.
Pela presença mais impetuosa deste, não se tinha quintal,
mas uma nesga de terra escarpada. Cavar uma rasa vala, nem pensar, a água
aflorava. O penico, que, no linguajar mais polido, era chamado urinol e vaso,
era a única alternativa indispensável.
De outra banda, o leito das ruas era de terra, não tinha
sequer um rústico ensaio de assentamento de pedras irregulares, na melhor das
hipóteses, de um material misto de areia e argila, brotavam gramíneas e
erva-daninhas.
Como o dadivoso Continguiba era uma fonte de subsistência,
de renda, de água para uso doméstico, para matar a sede dos animais
irracionais, não restou à época -- segundo o veraz depoimento de Barretão --
outra solução mais plausível, prática e imediata, a não ser fazer a discreta, a
primeira das altas hora da madrugada, a mais dissimulada deposição do produto
de suas eventuais necessidades fisiológicas, beirando à perfeição dos
gatos".
Passados alguns anos, como filho de ourives e joalheiro
bem-reputado, "Seu Sindulfo", eu já graduado em química, agraciado
com algumas distinções honoríficas, titular de uma cátedra do famoso Instituto
de Química de Sergipe, inventor de um engenho patenteado. Até aí, tudo bem,
tudo natural.
Eis senão quando, um vereador de Laranjeiras, a outrora
Atenas Brasileira, teve a justificável ideia de homenagear, entre uma extensa
plêiade de mentes privilegiadas, mais uma de seus inúmeros conterrâneos,
sugerindo, no corpo de seu projeto, denominar a antiga e consagrada 'Rua da
Bosta', doravante a nascitura lei, 'Rua Prof. Barreto Fontes'"
Consoante não poderia ser diferente, a vereança,
reconhecendo a notoriedade profissional do homenageando, concordou adotar o
regime de urgência urgentíssima no trâmite e garantiu-lhe pauta, discussão e
aprovação o mais depressa possível. Conquanto, naquela época, não houvesse, nem
ao menos, precogitação das instantâneas e interativas redes sociais, as
fofoqueiras de plantão, ao longo de duas horas, espalhariam o distorcido rumor
do embrionário Projeto de Lei.
Antes de começar a sessão em que a justa e merecida proposta
seria discutida e aprovada, uma turba de moradores da 'Rua da Bosta' invadiu a
galeria da Câmara e, aos berros, proclamava: "Ou 'Rua da Bosta' ou
nada!"
A partir daí, perguntei-lhe: Qual o resultado, Mestre? Sem
titubeio e ressentimento, o Lente respondeu-me: "O Povo laranjeirense de
então preferiu a Rua da Bosta' à 'Rua Prof. Barreto Fontes".
Noutra ocasião, estávamos a conversar, quando, de repente,
eu, um tanto quanto indiscreto, resolvi fazer-lhe uma sincera indagação:
Professor por que aqui, em Sergipe, é tão comum ou melhor, chega a ser até
brincadeira recorrente e inofensiva tratar, mesmo em público, a alguém de
"Doido"? Antes de mo responder, ele me faz outra exploratória
pergunta: "Isso, meu Filho, lhe acontece esporádica ou
frequentemente?" De pronto, respondi-lhe: Frequentemente!
E do elevado de sua notória e rara Sabedoria oraculou:
"Em Sergipe é sempre assim: quem não é doido é burro.
Só existem essas duas classes.
Por isso, todas as vezes que me chamaram de Doido, senti-me
elogiado: prefiro ser doido a burro!
Ou você prefere ser burro a doido?!"
Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Clarkson Moura.
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