quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Levem a cultura a sério


Publicado originalmente no site JLPOLÍTICA, em 21 de Janeiro de 2020

Opinião – Levem a cultura a sério

Por Irineu Fontes*

Existem diferentes conceitos e usos da palavra cultura em moda na contemporaneidade. A cultura é transversal, pois atravessa diferentes campos da vida cotidiana.

Desde os anos 90, quando passo de executor para agente na área cultural, busco conhecimento, caminhos e formas, tentando entender a política cultural e fazer o melhor para gestão.

Um dos conceitos que sigo é do Nestor Garcia Canclini, na qual a política cultural é: "El conjunto de intervenciones realizadas por el estados, las instituiciones civiles y los grupos comunitarios organizados a fin de orientar el desarrollo simbólico, satisfacer las necesidades culturales de la población y obtener consenso para un tipo de orden o transformación social. Pero esta manera necesita ser ampliada teniendo en cuenta el carácter transnacional de los procesos simbólicos y materiales en la actualidad".

Mas a vida mostra na prática o real sentido da cultura e reforça o trabalho de quem se propõem a fazer gestão.

Em algumas conversas com fazedores e com a população por onde passei, nos encontros, conferências e seminários, falam-me o que é cultura para eles:

“Meu amigo, cultura são minhas mãos inchadas, pés cortados nesse chão, seco, mas com esperança sempre de que tudo vai melhorar”, explica seu José Agricultor.

“Cultura é meu canto, minha palavra, minha dança”, afirma Nadir da Mussuca

“Cultura é a minha renda irlandesa, é a poesia do João Sapateiro, é o tricô de Odete e da Maria, costurando cobertor de tacos de panos”, diz Nalva de Laranjeiras.

“Cultura é valorizar a vida das pessoas, conforme seus pensamentos, sua crença e sua criação. É ser valorizado”, aponta o escultor Demar.

“Cultura é tudo que você imagina, realiza, sonha, projeta e ajuda a transformar realidades”, reforça Joeldo.

“Cultura é meu amor e respeito pelas tradições dos meus antepassados”, afirma Mestre Zé Rolinha.

Percebi que, mesmo a população que identifica a cultura como obras e práticas artísticas, das ações intelectual e da festa (entretenimento), há sempre uma ressalva que associa “arte” com “povo”.

De todos os modos, o papel central que a cultura exerce na vida da sociedade contemporânea exige uma atuação efetiva do gestor público.

Temos que aprender a ouvir, entender, assimilar, alinhar os conhecimentos e atender as demandas da sociedade e não colocar unicamente seu ponto de vista ou concepção política, religiosa ou moralista à frente das ações governamentais.

Dito isso, não podemos esperar de um Governo que atacou os artistas, primeiro com a Lei Rouanet, depois acabando o Ministério da Cultura, um Governo que segue um pensamento de um astrólogo que nem mora no Brasil, e ainda coloca à frente de uma entidade da Cultura, alguém que tem concepções altamente religiosas, um fanático, um especialista na “estética da penumbra” um intolerante em uma pasta profana, democrática e livre.

A demissão do Roberto Alvim (então, secretário da Cultura do Governo Bolsonaro) não foi pelo motivo da incapacidade e incongruência para o cargo, e sim por não ser politicamente correto, e um grande imbecil puxa saco nazista.

Com a saída dele corta o rabo, mais não mata a cobra.

O gestor público é um agente pago para trabalhar políticas públicas de valorização, formação e difusão da cultura diversa existente.

Como posso ser fanático religioso e gerenciar o profano? Como posso ser preconceituoso se tenho que respeitar os conceitos?

Sou do tempo do "Liberté, Egalité, Fraternité. Não me importa a esquerda nem a direita.

No Brasil, um País de extremo centro, “é só lembrar do passado e dos acertos”, o que me importa mesmo é a democracia, a liberdade e a cultura.

Estejamos atentos e fortes.

* É ex-secretário de Estado da Cultura, ex-secretário de Cultura de Laranjeiras, ex-diretor dos Teatros Tobias Barreto e Atheneu, atual coordenador da Escola do Legislativo da Alese.

Texto e imagem reproduzidos do site: jlpolitica.com.br

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